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Leo Cunha
Leo Cunha

O escritor Elton da Fontoura entrevista o renomado escritor Leo Cunha.

 

Leonardo Antunes Cunha, conhecido no mundo literário como Leo Cunha, nasceu em Bocaiuva, a quinta mais populosa cidade do norte mineiro, e mora desde os 2 anos de idade em Belo Horizonte. 

É escritor, tradutor e jornalista. Publicou aproximadamente 50 livros infantis e juvenis, cinco volumes e coletâneas de crônicas, além de inúmeras traduções, a grande maioria de livros para crianças e adolescentes.

Graduado em Jornalismo e Publicidade, Pós-graduado em Literatura Infantil, Mestre em Ciência da Informação, Doutor em Cinema e Professor Universitário de Jornalismo desde 1997.

O Site das Literárias Mosqueteiras abre suas cortinas para receber um jovem renomado autor e educador. Convido a conhecerem um pouco melhor este artista das letras.

 

Literárias Mosqueteiras: Não seria esta a pergunta adequada para encabeçar a entrevista, mas insisto com o único intuito de sugerir aos milhares de leitores do Site Literárias Mosqueteiras a visitarem o Wikipédia sobre o Escritor Leo Cunha, para melhor se posicionarem sobre o sucesso por ele alcançado: http://pt.wikipedia.org/wiki/Leo_Cunha.

Lendo atentamente o teu extenso currículo Leo, agreguei tua importância à nossa literatura, ao fato de não seres membro de alguma Academia de Letras. Sinceridade? Não seria surpreendido se lá estivesse.

Existem muitas espalhadas por nosso território, e invariavelmente, na minha humilde opinião, pessoas ainda sem qualificação, são convidadas a ocuparem uma cadeira após desembolsarem uma quantia pré-estipulada.

Como aspirante a Escritor, eu tinha um alto conceito pelas Academias, e confesso estar frustrado com esta banalização. Como se sente um renomado Escritor?

 

Leo Cunha: Muito obrigado pelos elogios, mas nunca me imaginei como um membro de uma Academia literária. Acredito que existam várias academias sérias, que escolhem seus membros com base no valor literário de sua obra, assim como existem algumas que usam critérios pouco literários em suas escolhas. De todo modo, não sei se me enquadraria bem na rotina de uma instituição deste tipo.

 

Literárias Mosqueteiras: Após concluir o 2º Grau em 1984, decidiste optar pelo intercâmbio no Texas, adiando o vestibular. Em termos culturais, qual a hipótese teórica que te levou a este estado americano, e qual a realidade prática que te trouxe?

 

Leo Cunha:  Fui Inter cambista do Rotary Club e é o próprio clube quem escolhe o estado e a cidade de destino dos Inter cambistas. Tive sorte de ir para o Texas, que tem um clima mais ameno, menos frio que a maioria dos Estados Unidos. E vivi 8 meses na casa de uma família que vinha do norte dos EUA, do estado de Ohio, o que me permitiu conhecer um pouco da cultura daquela região, além da cultura texana. Viver no Texas me abriu muito os olhos para as relações étnicas e raciais nos EUA, pois é um estado com muitos negros (descendentes de escravos, na maioria) e muitos descendentes de mexicanos também.  Após um ano morando lá, posso dizer que admiro muito o povo americano em geral, a maneira como organizam as escolas, os esportes, o trabalho, o trânsito, etc.

 

Literárias Mosqueteiras: Como entrevistador, achei curiosa a frase: “De 1985 a 87, cursei economia, mas tive o bom senso de largar o curso pela metade.” http://leocunha.jex.com.br/biografia+de+leo+cunha/biografia+de+leo+cunha

Decepções alcançadas através do bom senso, geralmente acrescentam um idealismo. Podes nos detalhar o que motivou o abandono?

 

Leo Cunha: O curso era muito conceituado, mas extremamente chato e pouco criativo, em minha opinião. Embora goste do universo da economia, da política e mesmo dos números, certamente eu teria sido um economista infeliz e frustrado.

 

Literárias Mosqueteiras: Quais foram as missões conquistadas ou simplesmente exercidas no Jornalismo e Publicidade, cursos concluídos em 91 e 93 respectivamente?

 

Leo Cunha: Todos os meus trabalhos têm a ver com a palavra, com criar personagens e contar histórias. Isso vale não só para a literatura, mas também para o jornalismo e a publicidade, e mesmo para o meu trabalho como professor universitário. Dos meus cursos me ficou, sobretudo, a importância e o prazer do trabalho em dupla, em trio, em grupos, o que tenho aplicado sempre no universo da literatura infantil. Já criei diversos livros em parceria com outros escritores, como Ricardo Benevides, Marta Lagarta, André Coelho, Marcus Tafuri, Alessandra Roscoe, Luiz Magalhães e outros. Sem falar nas parcerias com ilustradores como Alex Lutkus, Salmo Dansa, Guto Lins e outros, que costumam ir muito além de um escritor e um ilustrador trabalhando cada um no seu canto.

 

Literárias Mosqueteiras: Tu escreveste quase 50 livros, infantis e juvenis. Se formos comentar cada um deles, nossa entrevista certamente seria transformada em um livro, e editado por alguma Editora. Então vamos relembrar o primeiro. O primeiro a gente nunca esquece! O texto infantil “Em boca fechada não entra estrela”, publicado na Revista Alegria (hoje Recreio), em 1991, virou livro e áudio-livro. Esta ascensão deveu-se a uma ampliação do texto? Tu resolveste a partir de um “curta” escrever um longa metragem?

 

Leo Cunha:Na verdade a história é exatamente a mesma. A diferença é simplesmente em termos de edição. Na revista eram 4 páginas, com 3 ou 4 imagens. No livro são 32 páginas, o que dá à história outro ritmo e outros sentidos. Especialmente porque tive a felicidade de ter o livro ilustrado pelo Roger Mello, que é um dos maiores do mundo.

 

Literárias Mosqueteiras: Tive o prazer de ler um trecho do teu primeiro livro em prosa: “Pela estrada a fora”, publicado em 1993. Ele está na 17ª Edição. Gostei muito do que li, e muito me interessei em ler a obra completa. Alcançastes alguns prêmios e muito provavelmente, o maior deles, foi tê-lo vinculado às questões pedagógicas. Não sou o único que está desinformado sobre a situação do livro, a literatura em geral nas escolas. Como está a engrenagem Escritores, governo, escola, professores e alunos? Talvez não haja sincronia, mas no teu entendimento, o que está faltando ou funcionando de forma precária? O problema do ensino no Brasil é externo, interno ou ambos?

 

 

Leo Cunha: Não entendi muito bem o trecho em que você fala " vinculado às questões pedagógicas". Na verdade, em todos os meus 50 e poucos livros, sempre entendi a literatura como arte, como um objeto autônomo, distinto e distante de qualquer intenção pedagógica ou moralizante. O que me interessa é criar histórias e poemas que encantem, que divirtam, que emocionem, que assustem e perturbem, se for o caso. Mas que toquem as pessoas mais pelas sensações e emoções do que por alguma lição ou "mensagem".
Acho que muitas crianças e jovens se afastam da literatura quando sentem que o autor (de propósito ou não) ficou mais preocupado em ensinar algo do que em contar uma boa história.

 

Literárias Mosqueteiras: Em 2011 concluíste o Doutorado em Cinema. Quais tuas realizações, perspectivas ou sonhos nesta área? Cinema e literatura é um namoro que está acontecendo nos teus bastidores?

 

Leo Cunha: Adoro cinema desde criança. Mas meu doutorado foi uma maneira de estudar o humor, a comédia, que é minha grande paixão. Além disso, leciono na faculdade de jornalismo disciplinas como Fundamentos de Cinema e Linguagem Audiovisual. Para isso, o doutorado foi muito enriquecedor.

 

Literárias Mosqueteiras: Na minha curta estrada de autor literário, costumo afirmar que não sou Escritor e sim Um Lapidador de Textos! Uma das respostas à Entrevista concedida ao Projeto Editora, salienta:

“...tenho o hábito de reescrever muitas vezes até ficar satisfeito com o ritmo, a sonoridade, a expressividade do texto.” http://www.editoraprojeto.com.br/leo-cunha/

Estou convicto através das observações, que o leitor brasileiro é fascinado pelo autor estrangeiro, ou melhor, pelos Tradutores. As Editoras importam literatura porque o mercado assim exige. A preocupação de reescrever, melhorar, aperfeiçoar o texto é uma ferramenta ausente na oficina do Escritor nacional, ou há outros agravantes?

 

Leo Cunha: Acredito que a maioria dos escritores é adepta da reescrita, da elaboração cuidadosa dos textos. Claro que sempre existem alguns que conseguem (ou acham que conseguem) criar textos brilhantes "de primeira", mas não tive essa sorte...

Eu me preocupo muito com a sonoridade de cada palavra e cada frase, com o ritmo, até mesmo com a disposição no papel. A reescrita é 90% do trabalho do escritor, em minha opinião.

 

Literárias Mosqueteiras: A disciplina de Jornalismo Cultural na qual és professor universitário do UNIBH, existe logicamente uma dissonância em relação à redação jornalística estampada na primeira página, nos cadernos de economia, esportes, etc. Quais as regras que a narrativa cultural exige nos periódicos contemporâneos?

 

Leo Cunha: O jornalismo cultural é menos focado em furos e exclusividades. O que diferencia o bom jornalismo cultural, na maioria dos casos, é a capacidade de enriquecer as reportagens e críticas com analogias, conexões a outros textos e obras. Além de ser uma editoria que permite maiores voos ao jornalista, em termos de estilo.

 

Literárias Mosqueteiras: A outra disciplina de tua docência, nominalmente está posicionada no outro extremo. Escrever para jornal e atuações cinematográficas exijam idiomas antagônicos, presumo! Dar aulas de Fundamentos de Cinema é em suma, o ensino básico/técnico ou trabalha também a criatividade do futuro diretor?

 

Leo Cunha: No meu caso, é uma disciplina mais teórica, voltada para apresentar e discutir com os alunos as formas como o cinema conta histórias.Como o cinema constrói sua narrativa aliando tempo e movimento, aliando imagem e som. Falo um pouco dos primórdios, mas também de diversas escolas e vertentes cinematográficas, não ficando preso somente ao cinemão hollywoodiano, mas também não negando sua influência e competência em atingir o nosso imaginário.

 

 

 

Literárias Mosqueteiras: Muitos livros, muitas Editoras!

Constatei ao longo de minhas pesquisas, que das quase cinquenta obras que publicastes, em uma amostragem de oito livros, oito editoras são ali mencionadas. Não verifiquei os demais.

Até que me provem o contrário, na questão “Novos Autores”, eu costumo denominar as editoras como “madrastas”. Apelando talvez para o lirismo, uma casa editorial deveria ser a irradiação da cultura, e não uma espécie de: “Pequenas editoras, grandes negócios”.

Na visão do renomado Leo Cunha, olhando pensativo no parapeito da janela, que bons conselhos poderias oferecer aos escritores que buscam um lugar ao sol, em relação às suas obras, diante das portas lacradas das Editoras? Por onde começar e por onde trafegar?

Obs.: Quanto ao destino de cada um, a ele e a Deus pertence!

 

Leo Cunha: Realmente as portas são menos abertas para autores iniciantes ou desconhecidos. No meu caso, tive a felicidade de ter como "madrinha literária" a grande Sylvia Orthof, que leu alguns textos meus, gostou e , em 1991, indicou meu nome para escrever um texto para a revista Alegria. A partir dali, o caminho foi mais fácil, especialmente porque em 1992 eu venci dois prêmios literários num período curto, de pouco mais de um mês: o prêmio João-de-Barro e o Concurso de Histórias Infantis do Paraná, ambos sob pseudônimo. Todos estes fatores, juntos, facilitaram e aceleraram a minha trajetória.
Mas uma coisa é certa: mesmo com toda a celebridade e os melhores padrinhos do mundo, ninguém consegue se manter no mercado se não for um bom escritor. A pessoa pode publicar 1 ou 2 livros, mas se não houver o retorno, se as crianças não curtirem, se as escolas não adotarem, se as livrarias não venderem, o autor não conseguirá uma carreira duradoura.

Quanto às editoras, acredito que a maioria faz um trabalho sério, lê todos os originais que chegam, avaliam e aprovam o que consideram viável. O problema é que só conseguem publicar uma percentagem mínima dos originais que chegam. A maioria das editoras publica 1 ou 2 exemplares por mês, são poucas as que tem uma produção realmente volumosa.

Sugiro aos autores iniciantes participar de eventos como o Salão do Livro da FNLIJ, o Rio, onde se reúnem quase todos os editores e há possibilidade de contato direto entre autor, ilustrador e editor. O mesmo vale, em escala menor, para outros eventos, como as Bienais e festivais literários como a Flipinha e a Primavera dos Livros.

Outra boa opção – que no meu caso foi fundamental – é inscrever-se em concursos literários.

 

Literárias Mosqueteiras: Ainda vinculada à questão anterior, me referi ao diversificado mundo editorial que publicou tuas obras. Surpreendo-me mais adiante, com o número expressivo de ilustradores, que naturalmente se faz necessário, por se tratar de literatura infantil e juvenil.

Explico minha surpresa sobre estes dois tópicos: Como Aspirante à Escritor, idealizo uma só Editora e um só ilustrador trabalhando ao meu lado, me conhecendo e sendo conhecidos ao longo dos tempos. Na minha cabeça, um inexperiente aspirante, a missão seria muito mais eficaz.

Qual a mecânica, o objetivo, o saldo final, de trabalhares com várias editoras e vários ilustradores diferentes a cada livro?

Obs.: Sem me conheceres, me ensinarás, talvez, uma das diferenças entre o Aspirante e o Renomado.

 

Leo Cunha: Existem duplas de escritor/ilustrador que criam livros conjuntamente, desde a concepção inicial. No exterior isso é muito comum e estas duplas perduram por muito tempo.

Aqui no Brasil isso não é tão comum, mas podemos destacar as ótimas dobradinhas entre Ilan Brenman e Renato Moriconi, e também entre Tino Freitas e Renato Moriconi, além, é claro, do casal Mary e Eliardo França.

No meu caso, tenho feito uma dobradinha muito interessante com o ilustrador e designer Alex Lutkus. Já lançamos um livro (ABCenário, pela Autêntica) e temos mais um no prelo e dois em gestação. Nossa parceria é interessante porque na maioria das vezes a ideia visual vem primeiro, em seguida entro com uma proposta textual em cima das imagens e vamos seguindo em zigue-zague depois, com um dando pitacos nas ideias do outro.

Mas na maioria dos livros, prefiro deixar que a editora escolha o ilustrador que ela acredita que combinaria bem com o texto.

 

Literárias Mosqueteiras: És colunista da web-revista de cinema "Filmes Polvo", desde 2008. Se o nosso leitor clicar no link a baixo,

http://www.filmespolvo.com.br/site/artigos/story_line  poderá acessar o fragmento Story Line, o título da tua coluna, e conhecer o teu trabalho. Li a matéria sobre o filme “La vérité si je mens”, comédia à francesa. Há outros colunistas que abordam os mais diferentes gêneros. Conte-nos um pouco da tua trajetória e momento atual como colunista de cinema.

Obs.: Já te ocorreu escrever peças infantis de teatro e criar algo similar ao Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV? 

 

Leo Cunha: O "Filmes Polvo" está parado há algum tempo, infelizmente, pois cada um dos membros está envolvido em outras atividades. Mas é uma web-revista interessante, pois dá liberdade para cada um escrever sobre o que quiser, no campo do cinema: filmes novos ou antigos, famosos ou desconhecidos, sempre buscando um enfoque inusitado. Não estamos preocupados em indicar ou contraindicar filmes específicos, das notas, fazer orientação de consumo. É muito mais uma reflexão sobre e a partir dos filmes.

 

Literárias Mosqueteiras: Mais uma vez, vinculando a pergunta anterior, como se houvesse um gancho na última letra, ao ler tua coluna cinematográfica e ladeando a resenha do filme “La vérité si je mens” com o conto “Pela estrada a fora”, percebi o quanto deve ser eclética a redação e o poder criativo de um Escritor.

Tu já escreveste ou tens ideia de compor um romance ou poesias para o público adulto?

 

 Leo Cunha: Já tive diversas ideias e tenho alguma coisa rabiscada nas gavetas e no computador. Mas minha paixão maior (e talvez meu talento) sejam mesmo voltados para a literatura infantil e juvenil.

 

Literárias Mosqueteiras: Antes, durante e depois de seres um Escritor, serás um leitor. Esta é uma regra que li, ouvi e constatei na prática ser uma lei literária. Tenho absoluta certeza que corroboras comigo.

Que outras leis, ou sugestões o Escritor Leo Cunha poderia deixar registrado no derradeiro momento de nossa entrevista?

Obs.: Há muito ainda a ser explorado, mas não há tempo para este muito. Quem sabe: Entrevista com o Escritor Leo Cunha – Parte II. Apesar da distância, do virtual, foi um prazer tê-lo conhecido!

 

Leo Cunha: Gosto sempre de valorizar a diversidade (de gêneros, temas, estilos, épocas). Tanto para o autor como para o leitor, acho que reside aí, na diversidade, o grande barato da literatura e da arte em geral.