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Joseph Mitchell e a Revista The New Yorker
Joseph Mitchell e a Revista The New Yorker

UMA MISTURA TÓXICA DE FATOS E FICÇÃO


Começo dos anos 1970. Nosso personagem, um jornalista na terceira idade, entra na sala do chefe após quase uma década sem publicar nada. Ele ia todo dia à redação da revista onde trabalhava, ficava horas às voltas com seus arquivos, às vezes datilografava páginas e páginas, ao final do dia voltava para casa – e, por anos e anos, nada de concreto saía de lá. Nem uma linha publicável. Numa profissão em que prazos e produtividade são críticos, seu bloqueio criativo se tornara lendário, era assunto de fofocas não apenas nos corredores daquela revista, mas em toda a imprensa americana. Nosso personagem não era um jornalista qualquer. Era um nome conhecidíssimo, autor de perfis célebres de nova-iorquinos comuns, desconhecidos, capazes de traduzir o espírito da cidade e de iluminar a condição humana. Seu texto tinha um estilo inimitável, com elementos de Charles Dickens e James Joyce, frases diretas encadeadas com enumerações detalhadas, e um talento especial para reproduzir discursos absorventes, impossíveis de parar de ler. Era considerado um dos inventores da modalidade que se convencionou chamar de “jornalismo literário”. Mais que isso, era aclamado como o “maior de todos os jornalistas literários”. E fazia anos que não publicava nada. Nem uma linha sequer. Pois, naquele dia, descobrira que seu salário semanal estava abaixo do que ganhavam jovens colegas iniciantes. Ressentido, entrara na sala do chefe para, meio sem jeito, pedir aumento. E conseguiu. Sai de lá ganhando quase o dobro. E ficou ainda mais de duas décadas sem publicar nada, até morrer em 1996. Parece ficção, mas é realidade.


O jornalista era Joseph Mitchell, seu chefe na ocasião se chamava William Shawn, e não poderíamos estar noutra publicação que não a revista americana THE NEW YORKER. O relato está na nova biografia de Mitchell, MAN IN PROFILE: JOSEPH MITCHELL OF THE NEW YORKER, lançada em 2015 pelo jornalista e acadêmico Thomas Kunkel. Neste momento em que o Supremo Tribunal Federal liberou no Brasil as biografias não autorizadas, é uma leitura que ajuda a entender o universo movediço que mistura jornalismo e literatura, fato e ficção. Kunkel foi ajudado na empreitada pela família e por amigos do biografado, mas isso não impediu que fizesse revelações inéditas sobre os métodos questionáveis de Mitchell. Ele embelezava os fatos para torná-los mais interessantes. Parecia realidade, mas era ficção.


Numa das coletâneas que publicou, Mitchell já admitira que um de seus personagens mais conhecidos, Mr. Flood, um ancião do mercado de peixes, era na verdade um “composto”, um amálgama de vários entrevistados. A biografia revela que, para construir seu “composto”, Mitchell contava não apenas com a anuência, mas com o encorajamento do lendário fundador da New Yorker, Harold Ross. Kunkel descobriu que outro personagem de Mitchell, o rei cigano Cockeye Johnny Nikanov, também era um “composto”. Levanta suspeitas consistentes sobre um terceiro, o líder Mohawk Orvis Diabo, cuja tribo ergueu arranha-céus nova-iorquinos. Inspecionando os livros de anotações de Mitchell, Kunkel comprova ainda que várias de suas citações e dos monólogos que davam força à narrativa, recitados ao longo de páginas, eram também “compostos” de frases nem sempre proferidas pelo próprio personagem, dispostas de modo a seduzir o leitor. Ele desmascara esse artifício narrativo no mais tocante e bem construído dos perfis escritos por Mitchell, “Mr. Hunter’s grave”, sobre a decadência de uma comunidade de pescadores de ostras. Parecia realidade, mas...


O próprio Mitchell desmascarou seu perfil mais célebre, de 1942, sobre Joe Gould, um mendigo de origem fidalga que se tornara folclórico como autor de uma “história oral” de Nova York. Depois de uma luta interior de anos, Mitchell voltou ao tema em 1964. Num novo perfil, confessou que a tal história oral nunca existira, a não ser na fantasia de Gould. Dizia que sabia disso havia anos, mas preservara Gould, com quem se identificava. Como Gould, Mitchell era um ouvinte atento das multidões nova-iorquinas, escrevera quase uma “história oral” da cidade e também trazia em sua mente um romance que jamais chegara a escrever. Para justificar seus “pecadilhos”, Mitchell sempre dizia querer ser mais “verdadeiro” do que “factual”. “Às vezes, os fatos não contam a verdade”, afirmou anos depois numa entrevista. “Todas as biografias ou autobiografias são ficção”. Kunkel admira tanto Mitchell que o absolve. Para qualquer jornalista, porém, mexer com os fatos é pecado capital. Mesmo uma amiga próxima de Mitchell, a jornalista Janet Malcolm, o condena por ter, na busca de uma obra de valor literário e incapaz de produzi-la, feira uma “mistura tóxica” de ficção e não ficção. Nada disso era indiferente a Mitchell. Depois de JOE GOULD’S SECRET, ele nunca mais publicou nada original. A New Yorker pagou seu salário até a morte.


Fonte: Época/Helio Gurovitz/Jornalista (hgurovitz@edglobo.com.br) em 22/06/2015.