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Humorista da Roça por Arnaldo Leodegário Pereira
Humorista da Roça por Arnaldo Leodegário Pereira

Humorista da roça

 

(conto)

        Adão Pé torto era um humorista da roça. Em 1962 lá no interior do Paraná. Depois de um dia de trabalho, após as 18:00 hs quando todos os lavradores voltavam para casa Adão comparecia à  casa de um vizinho para mais uma noite de  prosa e contar CAUSOS. Eu estava então com 10 anos de idade e era um observador nato, interessado nas graças que Adão fazia. Cada dia ele ia a uma das casas da vizinhança.

         A dona da casa preparava bastante café e bolo de fubá ou broa de milho para todos saborearem ouvindo as estórias que eram sempre de: assombração, lobisomem, papafigo, causos de pinguço, causos de sapo-boi, rasga-mortalha, seu Dodô - gago, e causos do “pé de meio mitrinho”. Adão tinha uns quarenta anos mais ou menos, tinha um jeito peculiar de lavrador, homem matuto mesmo. Ele não sabia ler nem escrever, porém com sua simplicidade ele era a atração e a alegria daquela gente simples da roça.  Se apresentava, pedia licença e com toda educação e muita firula, contava seus causos tão engraçados. Adão Pé Torto?...

       Sim!... Adão tinha uma leve deficiência por isso mancava de uma perna, então lhe deram o nome de Pé torto.  E... Começava seu show!... Entortava a boca, fazia caretas, pulava em um pé só, dançava, dava cambalhotas e esbugalhava os olhos, imitava tiros,  enquanto a plateia ia se deleitando e aplaudindo. Assim se distraiam um pouco do trabalho pesado na lavoura. A plateia  não sabia se ria das estórias engraçadas que ele contava ou se de seus trejeitos e piruetas. Pois o mesmo se contorcia, imitando cachorro, boi, cavalo, cacarejava igual galinha, coaxava igual sapo e até cobra.

Adão imitava uma velha rezando... --- Você tinha que ver!... Ele imitando a velhinha!...

        As senhoras idosas morriam de rir!  Porém sem achar graça!!! Afinal era delas que ele estava falando... Adão tinha mesmo alma de palhaço. Sabia encantar seu público até lá pelas dez horas da noite. No dia seguinte todos iam trabalhar levando as lembranças de suas peripécias. Ele transmitia a cada um, paz, alegria e distração. Para aquelas crianças não havia presentes de Natal, dia das crianças, ovo de páscoa, aniversário, circo, ou parquinho. O presente delas era assistir aos causos de Adão Pé torto.  

         Fui crescendo... O tempo passou! Da infância ficou aquela bonita lembrança. Ás vezes me pego nessas reminiscências, de como nossa vida é composta de boas experiências, outras não tão boas, mas que vão fazendo, compondo nossa história pela existência a fora...

Um dia Adão vai contar seus causos para alegrar papai do céu e seus anjos. Para  distrai-los um pouco, porque vejo dizer que o céu e um lugar de gente muito séria. Posso até imaginar Adão Pé torto lá no Céu imitando cachorro, sapo, coruja, porco e até entortando a boca e pulando em um pé só...

 

Este texto faz parte da Antologia “PALAVRA É ARTE”, 25ª edição. Pg 115. Pela Cultura Editorial Salvador Bahia.

 

Arnaldo Leodegário Pereira.