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Herói Urbano/Conto de Luiz Amato
Herói Urbano/Conto de Luiz Amato

Conto:  Herói Urbano      Autor:  Luiz Amato

 

 

HERÓI URBANO

 

– Bom dia São Paulo.

– Ah! Que lindo dia, que manhã maravilhosa. Como é bom acordar nesta grande metrópole e respirar este ar tão puro. Vislumbrar tão delicado bailado aéreo com tantas espécies de pássaros.

– E o mais importante; poder pegar meu carro e usufruir de ruas e pistas livres, conservadas e lisas, podendo chegar a qualquer ponto das marginais, vindo seja da Castelo Branco, Dutra, Anhanguera, Raposo Tavares, enfim, de qualquer lugar.

– Poder parar nos bolsões de estacionamento, sempre amplos e seguros, bem cuidados e de tão fácil acesso. Descer as margens dos rios, seja do Tietê, seja do Pinheiros. Preparar uma ceva e passar o dia inteiro pescando com a família. Enfim, tudo de bom para um dia de lazer total.

– E para completar, dormir o mais tranquilo dos sonos, sabendo que outro dia exuberante...........! Espere um pouco.

– TRIIIMMM. Não é possível.

– TRIIIMMM. Eu estou sonhando?

– Droga, é o despertador.

– Ó vida cruel, acho que vou tirar mais uma soneca. Mas se eu fizer isso, vou pegar a rodovia mais congestionada que o normal. Pior ainda, se dormir mais que uma soneca pegarei o sol já a pino, piorando em alta dose, o cheiro já insuportável do rio nas marginais.

– Fazer o que, vou levantar e encarar a realidade.

  

♣♥♣

 

Entro no carro, dou a partida e após a terceira tentativa ele pega. É a álcool.

Já meio atrasado vou pelas ruas do bairro até avistar o acesso à rodovia.

Não! Congestionado. Não acredito.

Breco; piso na embreagem; engato primeira; acelero; o cara da frente não anda. Freio de novo; engato; vejo o cidadão a minha direita querendo passar na minha frente. Sabe quando "Zé Mané"? Nunca.

Enfio a frente do meu carro e não deixo que ele passe.

Breco acelero; breco acelero; e assim vou até conseguir entrar na rodovia.

Que bom. O trânsito está fluindo legal, já estou a oitenta quilômetros por hora. Pego a pista central.

Opa. Uma dona Maria que não anda. Buzina nela. "Sai da frente domingueira", e lá vou eu contente e feliz.

Já estou na alça de acesso as marginais. O trânsito começa a ficar lento. Desvio da central para a direita; volto para a central; caio para a direita; desvio pelo acostamento; volto na direita; é triste. Tudo parado.

A pista do centro começa a andar, que inveja, estou na da direita. Dou um jeito, entro na central. No mesmo instante ela para e a pista que eu estava começa a fluir. Não é mole. Que raiva.

Após umas cinco trocas de pistas, o trânsito trava por completo, não se move nem para frente, para trás ou para os lados. Estou completamente encaixotado.

Chega a informação que tombou um caminhão de carga, dois quilômetros à frente.

Pego o livro de contos.

Onde parei?

Acho à página:

 

A Presidência

 

Domingo à noite:

 

Em um hospício qualquer, um louco, conversando com as paredes:

 

♣♥♣

 

No quarto 1:

 

– Hahahahahahá, que alívio. Agora estou livre das minhas atribuições presidenciais.

– Como me sinto bem, após ter transferido meu cargo. Ainda bem que o louco do quarto ao lado aceitou. Coitadinho, nem sabe o que lhe espera.

– Ser presidente da república é duro, cansa muito, tem que trabalhar bastante e com muita vontade.

– Sabe, é verdade que não consegui fazer muita coisa, mas de uma me orgulho. Acabei com o analfabetismo no país.

 

♣♥♣

 

No quarto 2:

 

– Ehhhhhh, esse nervosismo não passa. Que estranho. Sempre fui calmo, tranquilo, mas agora. Que ansiedade. Minhas mãos estão suadas, e tudo isso só porque estou deixando a presidência.

– Como é engraçado. Quando o amigo do quarto ao lado disse-me que poderia me passar a presidência, eu quase não quis. Achava melhor aventurar-me, junto com o Napoleão, do quarto 26, pelas estepes russas.

– Mas não foi que o danado me convenceu. E agora estou assim nervoso. Vocês não fazem ideia de como trabalhei.

 – Foi uma tarefa difícil, mas acho que fiz uma boa presidência. Se não fui perfeito, pelo menos um mérito eu tenho. Consegui acabar com a fome. Podem ter certeza, ninguém mais morre subnutrido neste país.

– Só uma dúvida me preocupa. Será que o músico do quarto 38 será um bom presidente?

– Tomara que consiga.

 

♣♥♣

 

No quarto 38:

 

– La, lala, la, lalalala, la.

– Que legal. Do mesmo jeito que assumi a presidência, ou seja, cantando, estou deixando-a. Como é bom cantar.

– Ser presidente também foi bom, pude fazer bastante em prol da cultura. Mas o que me agradou mesmo, foi ter erradicado do pais o vício doentio da corrupção.

– Foi uma tarefa árdua, mas a partir do momento que me propus a fazê-lo, com muita força de vontade e ajuda, consegui.

– Só um detalhe me preocupa. Será que o escritor do quarto 212, para quem passei o bastão, fará um bom trabalho?

– Ele é muito sonhador. Vive sempre nas nuvens, imaginando histórias, criando personagens. Torço por ele.

 

♣♥♣

 

Segunda à tarde:

 

– Caros internos, estamos aqui reunidos para o enterro de nosso amigo e irmão, José, escritor convicto. Um apaixonado pelo nosso país, que um dia sonhou que, como ele, os loucos poderiam presidir esta nação, e dar ao povo, tudo que ele precisa e merece.

– Sonhou com um país sem analfabetismo. Onde ninguém mais passaria fome. Onde pessoas honestas viveriam tranquilas.  Uma pátria sem corrupção, sem impunidade.

– Um lugar onde todos seriam socialmente iguais, com oportunidades iguais, e o principal, sem violência.

– Infelizmente morreu durante um banho de sol no pátio, vitima de uma bala perdida.

– Deus o tenha.

 

♣♥♣

 

– O louco! Que história louca de loucos.

– Nada do trânsito fluir.

Deito no banco do meu carro, ligo o som, chega o sono.

Durmo e sonho.

  

♣♥♣

 

– Bom dia São Paulo.

 

– Ah! Que lindo dia, que manhã maravilhosa. Como é bom acordar nesta grande metrópole.....................................................