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Herland, de Charlotte Perkins Gilman
Herland, de Charlotte Perkins Gilman

UMA EXPEDIÇÃO AO PAÍS DAS MULHERES

 

Ficção científica feminista HERLAND, da autora e ativista Charlotte Perkins Gilman, ganha duas edições simultâneas no Brasil.

 

Uma comunidade utópica, só de mulheres, em um lugar isolado do mundo dos homens há mais de dois mil anos pode remeter ao leitor contemporâneo à Ilha Themyscira da personagem Mulher-Maravilha, mas a origem desse cenário estava, na verdade, em algumas utopias feministas escritas no início do século 20 e que inspiraram o criador da personagem, William M. Marston. Uma delas foi HERLAND, da ativista e escritora americana Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), romance de 1915 que ganhou este ano não uma, mas duas edições nacionais.

 

Na trama, três homens jovens de personalidades conflitantes realizam uma expedição pela América do Sul em busca de uma mítica cidade habitada apenas por mulheres. Jeff é o biólogo sensível, Terry é o machão engenheiro que encarna o pensamento geral dos homens sobre as mulheres no início do século 20. E Vandyck Jennings, o narrador, oscila entre as posições de um e de outro. Após chegarem à cidade e serem por algum tempo confinados até aprenderem o idioma, o trio passa a ser apresentado ao funcionamento da sociedade exclusivamente feminina na qual se encontram. O choque entre a utopia feminista (e algo socialista) e os impulsos cientificistas do trio em certo momento será inevitável.

 

O país feminino é imaginado por Gilman como uma sociedade igualitária, mas é possível pensar que certos elementos de sua visão seriam alvo de contestações das ondas contemporâneas do feminismo – o fato de que cada mulher é capaz de gerar uma filha sozinha torna a maternidade a missão central das cidadãs da TERRA DAS MULHERES, e as características que tornam o governo do lugar em tese melhor do que o do mundo patriarcal seriam, hoje, talvez alvo de contestação por se apararem em clichês que também foram muito usados para a opressão da mulher, como um temperamento mais dócil e compreensivo e uma tendência maior ao afeto.

 

Mas, em sua época, o livro foi, como muitas das grandes utopias do mesmo período, um veículo para discutir o presente com uma narrativa de tons fantásticos. O fato de o livro não ter hoje o mesmo reconhecimento concedido a outros autores talvez seja um sinal de que, cem anos depois, sua mensagem ainda não foi ouvida.

 

Fonte: Zero Hora/Mundo Livro/Carlos André Moreira (carlos.moreira@zerohora.com.br) em 08/06/2018