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Heidegger e Musil: Pensadores em Tempos Sombrios
Heidegger e Musil: Pensadores em Tempos Sombrios

HEIDEGGER E MUSIL: PENSADORES EM TEMPOS SOMBRIOS.

 

Evento em Porto Alegre, no último dia 10 de setembro, discutiu as implicações da publicação de escritos inéditos que reforçam o passado antissemita do filósofo alemão Martin Heidegger (1889 – 1976).  O professor Laurence Hemming, da Universidade de Lancaster, discutiu o “judaísmo cristão” de Heidegger com a participação dos professores Kathrin Rosenfield e Paulo Faria (UFRGS) e Ernildo Stein (PUCRS).

 

Publicados no ano passado, os Cadernos Negros de Martin Heidegger (1889 – 1976) formam um volume de 1250 páginas de anotações, muitas delas com estilo telegráfico e inacabado – e entre elas 13 referências a judeus e “judaidade” (cada uma com cerca de uma a três linhas).  Tais rascunhos truncados exigem, para sua compreensão, uma cuidadosa contextualização.  O que significam os termos “judeu” e “judaidade” para o filósofo?  Heidegger entende por “judeus” tanto o cristianismo quanto os bolcheviques e, em particular, Marx enquanto pensador, que levou a filosofia de Hegel até as últimas consequências.  Isso já fica claro durante a confrontação aguda do autor com o cristianismo nos anos 1930.  Nesse sentido, é preciso lembrar que Heidegger destaca Aristóteles (não o homem, mas a obra)  como “totalmente não grego” e “produzido pela filosofia árabe-judaica e cristã”, em particular aquela “ressecada metafísica do entendimento escolástico” já denunciada, mas também praticada, por Hegel.

 

Frases divulgadas pela internet, como a anotação sobre a “peculiar predeterminação da judaidade para a criminalidade planetária” desencadearam novas polêmicas.  Em A Introdução do Nazismo na Filosofia (E Realizações), o francês Emmanuel Faye mostra que a relação de Heidegger com o nacional-socialismo não foi um equívoco temporário, mas sim que toda a obra do filósofo seria uma “doutrina hitleriana” e um plano para destruir o pensamento.  Críticos menos contundentes, porém, se perguntam se essa frase específica não seria uma crítica à propaganda antissemita nazista.  Peter Trawny, editor dos Cadernos Negros, acha mais plausível a primeira interpretação, embora admita a possibilidade da segunda.  E, em geral, Trawny argumenta que o antissemitismo de Heidegger contamina toda a obra, ao contrário do editor-geral da Obra Completa de Heidegger (Gesamtausgabe), von Herrmann.

 

Para quem não fala alemão e não tem acesso à volumosa obra de Heidegger, é quase impossível situar-se nessa guerra de opiniões.  No debate de 10 de setembro, Laurence Paul Hemming, da Universidade de Lancaster, junto com Ernildo Stein e Paulo Faria, situaram o problema além das apologias e acusações.  Conhecedores de longa data da obra e também dos Cadernos Negros, eles comentaram a equívoca mistura de frases antissemitas com as críticas que Heidegger lançou contra o nazismo e contra posturas e abusos “racionais” que hoje ameaçam a convivência planetária.  Heidegger nos legou uma das análises mais penetrantes dos esquecimentos que debilitam a história da filosofia ocidental – o esquecimento do Ser e de modos de pensar-e-sentir anteriores e alheios à metafísica platônica.  É essa metafísica, replicada pela cultura judaico-cristã, que teria enredado o Ocidente no (ab)uso da razão tecnológica.

           

Tudo isso não elimina, mas agrava o problema.  Heidegger assumiu a Reitoria da Universidade de Friburgo em 1933 e nunca se retratou de sua desastrada, embora breve, aliança com o regime nazista.  A crítica não é de hoje – pensadores como o romancista Robert Musil falaram, desde o Putsch da Cervejaria, em 1923, contra o projeto totalitário e racista do nazismo e a docilidade cega dos intelectuais.  Em seus Diários, Musil antecipou como o fascismo se aproveitaria da intelectualidade, de vagas fórmulas (pseudo)científicas – de livros como o de O. Spengler sobre a Decadência do Ocidente, da filosofia de salão do Ministro Rathenau, do sentimentalismo dos círculos musicais e poéticos (Wagner, Stefan George) – e do clima geral de imprecisão:

Muito tempo antes dos ditadores surgirem na realidade, nosso tempo já preparou sua veneração espiritual.  Vide Stefan George.  E também Kraus e Freud, Adler e Jung.  Vejamos ainda Klages e Heidegger.  O denominador comum é provavelmente um desejo de domínio e liderança.  Será que há traços comuns entre os líderes?  Por exemplo, [a exploração de] valores ‘firmes’ tão ambíguos que podemos pensar coisas bem diversas sob o mesmo rótulo ‘firme’...” (Diário de Robert Musil, 1938).

 

Não se trata de ataque pessoal – Musil tem apreço pela contribuição de Freud, pela beleza dos versos de George, pela verve jornalística de Kraus, e assim por diante.  O que o romancista lamenta é a incapacidade de os intelectuais assumirem seu papel – principalmente devido às confusões mentais que seus conceitos provocaram no público, facilitando as manipulações do nazismo.  E Musil não se exclui do rol dos acusados – seus diários falam eloquentemente dos próprios equívocos.

 

Que justo Heidegger não tenha falado alto e claro (nem antes, nem durante, nem depois) continua sendo um problema.  Pois sua obra prega a importância do cuidado com a linguagem, uma vez que demonstrou a falta de essência (biológica, racial, moral) da humanidade.  E é nessa falha que a suspeita se infiltra, convocando-nos a refletirmos sobre nossos próprios comprometimentos e silêncios.

 

Décadas depois de Musil, Sloterdijk observou que Heidegger fala em um tom de profeta cujos vaticínios emergem de meditações em silêncio reverencial.  Musil transforma a investigação dos próprios ressentimentos e frustrações em anamnese dos vícios que acometem as ações (e omissões) e a linguagem (e os silêncios) de seus contemporâneos:  é a autoinvestigação que lhe permite adivinhar o que se aloja no fundo das promessas de eficácia tecnológico-econômica entrelaçadas na propaganda do Partido Nazista.  É essa lucidez seca que lhe permite protestar – como uma das raras vozes de repúdio – contras as respostas (ou faltas de resposta) dos intelectuais à anulação (implícita e explícita) do estado de direito, dando voz ao perigo da omissão e do consentimento de tantos escritores, artistas, jornalistas e editores.

 

Fonte:  ZeroHora por Kathrin Rosenfield/Professora da UFRGS/06/09/2015