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Felicidade. Um Conto de Amor/Luiz Amato
Felicidade. Um Conto de Amor/Luiz Amato

  Conto: FELICIDADE. UM CONTO DE AMOR

  Autor:  Luiz Amato                             [5]

 

 

FELICIDADE. UM CONTO DE AMOR

 

Sempre fui muito tímida.

Enquanto minhas amigas de escola transavam com uma naturalidade a toda prova, eu não o conseguia. Não deixava nenhum amasso passar dos beijos.

Eu era bonita, cabelos castanhos cacheados bem soltos e olhos esverdeados. Não havia problema para os garotos me paquerarem.

Tive alguns namoricos, mas nada sério. Lembro-me de Carlos, um dos mais bonitos da escola, e dos mais pacientes também. Fomos duas vezes ao drive-in, e ficamos juntos no baile de inverno, trocando beijos. Mas foi só. A timidez me impedia.

A semana passada, decidi fazer uma viagem de férias. Afinal estou com  27 anos, solteira, sem namorado e, como diz Sara, minha melhor amiga, invicta. Isso mesmo. Ainda sou virgem.

 

 

O chacoalhar do trem começa a me dar sono, mas a paisagem é tão bonita, que forço os meus olhos a permanecerem abertos.

Estou percorrendo o Canadá em uma deslumbrante viagem ferroviária. Como sempre estou só. Mas já me acostumei.

O vagão é um luxo. Gastei um pouco mais do que pretendia, porém primeira classe é tudo de bom.

Algumas pessoas circulam pelo corredor. Na penúltima parada, subiu um cara de roupas esportivas, própria para esportes de inverno. Que dó, vai ferver aqui dentro. O ar condicionado funciona muito bem.

Claro que não pude deixar de reparar seu belo rosto, mesmo com a barba a fazer.

Ele sentou três bancos atrás do meu. Quem sabe sonharei com ele.

 

 

Ao chegarmos à próxima parada, vem o informe de que ficaremos retidos, nas quatro horas seguintes. Deslizamentos de neve obstruíram a linha férrea.

O chefe do trem, um senhor baixo e com uma linda expressão de vovô, passa informando que um lanche será disponibilizado no café da estação. A maioria se dirige para lá, inclusive o belo rapaz. Fiquei olhando-o. Acho que ele notou.

 

 

Após um tempo decidi descer.

A temperatura estava baixa. Uma fina nevasca empasta a paisagem. Sinto muito frio.

Como do nada, ele aproximou-se, com um casaco aberto nas mãos.

– Can I help you? (Posso ajudá-la)?

Eu o encaro pasma.

– Como? Ah, desculpe. Oh. Sorry. I'm confused (Desculpe-me. Estou confusa).

– Que bela surpresa. Você é brasileira?

Espantada, quase gaguejando, respondi:

– Sou. Nascida em Florianópolis, Santa Catarina. E você, de onde é?

– Eu sou canadense mesmo, de Toronto.

– Canadense? Mas você fala tão bem o português.

– Aprendi com meus pais. Antes de imigrarem para o Canadá, moravam em Curitiba. Mas vamos para dentro do salão. Você está tremendo.

Ele envolveu-me com o grosso casaco. Para uma pessoa tímida eu até que estava me saindo bem.

Sentamos numa mesa no fundo, onde um bule de porcelana florida expele espirais de fumaça. Um convidativo cheiro de leite com achocolatado, fez minha boca encher d’água. Ele deve ter percebido, pois sorriu.

– Deixa que eu lhe sirva. Você quer com açúcar ou adoçante?

– Açúcar. Eu detesto o sabor residual que a sacarina deixa.

– Sério? Pois então somos dois. Também não gosto.

Eu levei a xícara à boca, deixando que o calor invadisse meu corpo. O chocolate quente está uma delícia. Enquanto eu bebia, ele contava sobre a sua vida.

O calor do líquido me aqueceu, dando-me uma sensação de conforto. Sua voz, serena, ajudava. De perto eu percebi que ele era mais bonito do que eu pensara.

– Desculpe-me. Não quero parecer chata. Mas estamos aqui, conversando como velhos amigos e eu nem sei o seu nome.

Ele sorriu.

– É que quando começo a falar sobre a minha vida e a família, esqueço-me do resto.

Levantando-se, fez uma reverência, como os antigos cavalheiros.

– Muito prazer, meu nome é José, herdado de meu avô. Meu sobrenome é Barretis.

Na hora fiquei corada. Pensei em fugir. As pessoas nas mesas próximas sorriam da mesura que ele fizera.

Sentando-se, aproximou a cadeira, segurando-me às mãos.

– Ah! Mil desculpas minha senhora, ou será senhorita? Eu não queria em hipótese alguma que passasse vergonha.

– Senhorita – consegui articular.

Minha tez permanecia vermelha, mas eu começava a gostar da brincadeira.

– Senhorita então – elevou a voz para que todos ouvissem.

– Vejo que você é bem extrovertido.

– Você acha? – riu gostoso.

Quase encostando à boca no meu ouvido sussurrou:

– E qual é o nome dessa linda e doce senhorita?

Pela primeira vez, não me sentia embaraçada com um homem, e pior, com público. Sem reservas, entrei na brincadeira:

– Esta donzela, comunica-lhe com humildade milorde, que foi batizada como Maria.

Ele mostrou um largo sorriso.

– Não se surpreenda – sussurrou, levantando-se.

– Então milady. Eu poderia saber de qual ramo dos baronatos você descende? Será dos Tudors? De onde trouxe essa beleza angelical. Ou então dos Stuarts? Tens a boca mais linda do que a da mais linda delas.

Eu sorria encantada.

– Ouso ir mais longe ao tempo milady. Olhando-te bem, vejo que podes ser descendente de Guinevere, a paixão de Arthur e de Lancelot. Acertei?

– Não milorde, sou apenas Maria. Maria Clara S. dos Anjos.

Ele dirigiu-se a plateia:

– Mas é claro. Esse pobre mortal pede desculpas por não ter percebido antes. Sua beleza, sua doçura. Anjos. Tu és um anjo.

– Lindo anjo, suplico-te que me deixais permanecer ao teu lado.

Ele sentou-se na cadeira, coladinho nela.

As pessoas do café aplaudiram, gritando vivas.

– Gostou?

– Você é bem maluquinho, mas estaria mentindo se não dissesse que adorei.

– Que bom. Vamos tomar mais chocolate.

O tempo de espera passou como em um instante. Não havia como ser diferente. Ele era engraçado, adorável e tão intenso.

 

Quando o trem partiu, José sentou-se comigo. Eu tinha ainda três horas e meia de viagem. Ele desceria uma hora antes.

Quem olhasse para nós, diria: – Que belo casal. Devem estar em lua de mel.

Nós riamos, empurrávamos um ao outro. Trocas de confidências eram naturais. A felicidade pairava sobre nós.

Chegando próximo de seu destino, ele anotou todos os seus dados possíveis. Fone, endereço, e-mail, fone do trabalho, enfim, tudo.

Dobrou o papel, colocando-o dentro de minha bolsa.

Com um sorriso irresistível, fez-me jurar que ligaria para ele assim que chegasse em casa.

Claro que eu ligaria. Mesmo eu não deixando transparecer, estava muito encantada por ele.

Chegara a hora da despedida. Acompanhei-o até a porta do vagão. O trem diminuía a velocidade, entrando na estação.

Sem que eu esperasse, ele puxou-me para si, beijando-me. Eu correspondi ao beijo.

Ele olhou-me. Semblante cheio de ternura.

– Acho que estou apaixonando-me, milady.

As portas abriram-se. Ele sorriu, descendo para o pátio da estação.

Fiquei ali parada, olhando-o. Quando o trem partiu, ouvi suas últimas palavras:

– Eu estou muito feliz.

 

Essa história que conto para vocês aconteceu há doze anos atrás. Mesmo sendo casada hoje, mãe de três lindas crianças, sinto uma saudade gostosa daquela viagem.

 

Meu muito obrigado a todos que leram.

 

Milady Maria Clara S. dos Anjos Barretis. Casada e muito feliz com meu marido (continua meio maluquinho até hoje), lorde José Barretis e nossos três lindos pirralhos: Tatá, Chica e Kiko.

 

Viva a felicidade.