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Federico García Lorca, Um Poeta Universal
Federico García Lorca, Um Poeta Universal

FEDERICO GARCÍA LORCA, UM POETA UNIVERSAL

                                                                                                    

Federico García Lorca é o poeta espanhol mais representativo do século XX.  Nascido em uma família da elite de Granada, Andaluzia, em 1898,  ano em que a Espanha vivia uma profunda crise econômica com a perda de suas últimas colônias ultramarinas, o jovem Lorca interessou-se desde cedo pela música e pelas letras e já aos 20 anos publicou seu primeiro livro de poemas IMPRESSIONES Y PAISAJES (1918).  Sedento de novas experiências, também aos 20 anos, foi morar em Madri na famosa residencia de estudiantes em que viviam Salvador Dalí, Luis Buñuel e Rafael Alberti, artistas com quem fez amizade e parcerias pessoais e artísticas.  Esse jovem talento promissor ficou conhecido principalmente como poeta e dramaturgo, mas destacou-se também como músico, conferencista e desenhista.

 

Lorca tinha um espírito cosmopolita, mas ao mesmo tempo se preocupava com o povo e com as raízes do folclore popular de sua terra.  Assim, resgatou, por meio de pesquisas in loco, manifestações culturais do interior da Andaluzia como canções de ninar e músicas antigas, as quais transcreveu e popularizou, levando-as aos ambientes letrados.  Ao fazer esse movimento de resgate da história da Andaluzia profunda, Federico desafiou a ordem vigente ao dar voz em sua obra aos que não eram ouvidos, como as mulheres, os ciganos, os negros, os pobres, o povo.

 

Enfim, Federico foi um poeta que trouxe uma alma andaluzamente universal à tona desde seus primeiros versos, um homem sensível que tinha, antes de tudo, sangue pulsante em  suas veias e que teve a sua vida interrompida prematuramente no início da Guerra Civil Espanhola (19 de agosto de 1936), ao ser assassinado pelas tropas do general Francisco Franco na mesma Granada que o viu nascer.  Contudo, a Guerra Civil, que instaurou uma ditadura militar na Espanha por quase 40 anos, não calou a voz de Federico, que renasce em cada pessoa que lê as suas obras, escuta as canções que resgatou ou vê representadas as suas peças teatrais.  Enfim, as vozes dos gênios felizmente parecem sobreviver às atrocidades das guerras, da ignorância e das ditaduras.  Mas o que tem Lorca que outros poetas não têm?

 

Diria que, sem dúvida, a obra de Federico é muito passional, porém, ao mesmo tempo, é fruto de uma técnica esmerada.  Há na obra lorquiana um trabalho de arquitetura bem construído que confronta, por meio de imagens vivas, de cores, a vida e a morte, a dor e a alegria, o passado e o presente, o eterno e o efêmero, o que provoca em seus leitores esse efeito de passionalidade exacerbada que desperta os cinco sentidos, desperta o nosso duende.  Segundo o poeta, em sua conferência JUEGO Y TEORÍA DEL DUENDE (1930), não é raro que qualquer coisa que maravilhe os sentidos seja festejada na Andaluzia com um “Olé!” e logo com um comentário do tipo “Eso tiene duende!”.  O duende é a expressão maior da arte andaluza, é a força interior que habita o corpo humano e que se esconde no mais profundo de seu ser, o seu caráter divino que se manifesta em momentos ímpares e irrepetíveis.

 

Para Federico, é possível alcançar o duende através dos pés frenéticos da bailaora, da voz afiada do cantaor e das mãos afiadas do tocaor de flamenco que, por sua arte cortante como uma navalha, fazem com que ultrapassemos nossos medos e alcancemos uma região desconhecida, latente e nova em que a vida parece esvair-se e por isso se mostra em sua máxima presença e plenitude, o duende nos faz transcender.  Logo, deferentemente do anjo ou da musa que são inspirações conhecidas da arte clássica que tocam os poetas desde um plano mais elevado, o duende, que defendo ser o que diferencia a obra de Lorca da de outros poetas, não é inspiração alheia ao ser humano.  O duende é o próprio humano-deus adormecido no corpo e acordado em momentos de limite nos quais se contrastam o feio e o belo, a vida e a morte, a alegria e a tristeza, o passado e o presente, o ser e o não ser que a arte apaixonada pode provocar.

 

Enfim, para despertar o duende deve haver paixão, porém, diz Lorca que “se é verdade que sou poeta pela graça de Deus – ou do demônio – também o é pela graça da técnica e do esforço, e por perceber absolutamente o que é um poema”.  Logo, esse equilíbrio entre seu duende incontrolável e sua técnica de poeta provoca a passionalidade tão característica de suas criações.

 

A passionalidade de Lorca o faz um receptáculo de duende, porém é a sua técnica de poeta que propaga esse duende a seus leitores.  Se o duende necessita de um corpo vivo para manifestar-se, nunca o encontraremos no poema escrito.  Contudo, a organização imagética, sonora e temática da obra lorquiana busca esse corpo vivo, esse momento único que se realiza na pessoa do médium, no caso o próprio leitor, que se transporta ao aqui e agora do poema ao invocar o duende no momento da leitura.  Federico é o poeta mais andaluz da Andaluzia e, por isso, o mais universal ao ser capaz de despertar em nós leitores, ainda hoje, esse duende misterioso e inebriante.

 

 

Fonte:  Correio do Povo/CS/Hugo Retamar ( Professor do Colégio de Aplicação da UFRGS e especialista em García Lorca) em 20/8/2016