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Era uma vez um Natal... por Lurdes Maravilha
Era uma vez um Natal... por Lurdes Maravilha

 Foto Inédita na minha aldeia em Colo de Pito

Era uma vez um Natal…

Era uma vez a minha aldeia pincelada com lindos matizes brancos de neve. Na serra, o sol espreguiçava-se muito envergonhado e ainda teimava ficar agasalhado no algodão brando das nuvens. Estava um dia muito frio e a brisa selvagem do vento trazia consigo um aroma doce de Natal.
As ruas ainda espreitavam muitos sonhos embrulhados no laço verde da esperança e neste sentir, cada família esperava com alegria a chegada do menino Jesus.
No céu desta minha bela aldeia, as lareiras já exaravam a libertação de um fumo forte provocado pelo peso da lenha molhada e nos olhos escorriam lágrimas com o sal do ardume.
Tudo tinha que estar preparado para a noite de consoada e nesta azáfama todos ajudavam na lide das tarefas. 
No fundo calvo da frigideira, as rabanadas já borbulhavam e a mãe ajeitava as brasas para que estas ficassem bem douradinhas. O aroma da canela vaporizava-se pelos deliciosos pratos de aletria, estendidos em cima da caixa da farinha. 
Nesse dia, a mesa era adornada com uma toalha de pano vermelho, guardada para estas ocasiões. Era uma das vezes em que a mesa estava sempre mais recheada e nela havia também uma laranjada que escorria como mel pela garganta.
Chegara então a noite de consoada e à volta da mesa, a família reunia-se em comunhão com a cumplicidade e o amor que a unia. 
O alimento era agradecido em oração e no final pedia-se sempre a bênção aos pais, avós ou parentes mais velhos. Toda a família se reunia e quem não a tinha consoava sempre na casa do vizinho.
Num prato grande e comum, colocava-se a açorda de couves com bacalhau. Cada um sabia respeitar o seu espaço para meter a colher e neste civismo complementava-se a refeição da ceia de Natal. 
Tudo era repartido em fatias de igualdade e cada boca salivava o doce da vida na essência das gotas da paz.
Nessa noite, a família ficava reunida até mais tarde e os pais contavam- nos sempre a história do menino Jesus. Cada um de nós, ouvia a história com muita ansiedade e a cada instante espreitávamos a chegada do menino Jesus. 
O menino Jesus nunca entrava pela chaminé, mas sim pelo buraco da fechadura porque para Deus nada era impossível. A chave era retirada do buraco para que o menino Jesus tivesse mais espaço para a sua entrada.
Perto da lareira aguardavam oito, nove, dez e mais sapatinhos esperando que o menino Jesus colocasse no seu interior o saquinho de confeitos coloridos. As franjas dos cabelos agitavam-se na testa em movimentos circulares, e num reflexo tenso fitávamos o olhar no sapatinho para que este não saísse do seu lugar. O menino Jesus gostava de ver tudo bem arrumado e só assim deixaria o seu presente.
A mãe cantava docemente aquele lindo cântico de Natal e na sombra leve da média luz da lanterna, resplandecia a paz serena no seu rosto. Era um hino belo de glória e louvor que todos o sabíamos de cor. Depois, rezava-se as contas do terço, mas as nossas cabecitas já balanceavam de sono como as ondas leves de um trigal acerejado. Neste dormitar, cada um de nós procurava o aconchego no regaço doce daquele único e velhinho avental. E, naquele abraço gigante que só a nossa mãe tem, ficávamos abraçados aos sonhos do nosso Natal.
Por fim, chegava a hora do descanso. O vento bradava de mansinho e apoiados uns nos outros, vencidos já pelo cansaço subíamos as escadas íngremes e escorregadias que nos levavam ao nosso leito. 
Amanhã, era o dia de Natal e tínhamos que acordar bem cedinho para irmos à missa beijar o menino Jesus. Não me lembro se havia um relógio, mas lembro-me que havia um galo que cantava muito cedo na capoeira e nesse instante, vínhamos todos a correr para a lareira à procura do nosso sapatinho. Que encanto! E, como Deus é pai e nunca se esquece dos seus filhos, lá estavam os nossos lindos sacos de confeitos vestidos com roupas do mais belo arco íris. 
Esta era a nossa única prenda e no seio de cada família numerosa ficávamos sempre muito felizes e agradecidos.
Nas nossas famílias havia sempre um presépio de Natal adornado com amor, partilha e união.
Era este o nosso lindo e verdadeiro Natal!

Por Lurdes Maravilha