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Entrevista com Martha Richter
Entrevista com Martha Richter

ENTREVISTA COM MARTHA RICHTER

 

COM TANTOS CORTES NA CIÊNCIA, O BRASIL FICARÁ PARA TRÁS”.

 

Curadora do Museu de História Natural de Londres, a paleontóloga gaúcha Martha Richter fala sobre a atual encruzilhada da pesquisa científica no Brasil e sobre os desafios dos museus hoje.

 

Cabe a uma cientista brasileira zelar por 6,5 milhões de fósseis de animais e uma coleção de esqueletos humanos com 300 anos de idade em um dos museus mais prestigiados do mundo. Martha Richter, bióloga e paleontóloga gaúcha radicada na Inglaterra, é a curadora-chefe da Seção de Vertebrados Fósseis e de Antropologia do Museu de História Natural de Londres. Na instituição, criada em 1753 e hoje o terceiro museu mais frequentado da Inglaterra, transitam cerca de 5,2 milhões de visitantes por ano, ou mais de 14,2 mil por dia.

 

A paleontóloga é uma das grades especialistas mundiais em fósseis de peixes, mas não estuda apenas isso. Em 1997, atuou em uma expedição na região de Santa Maria que descobriu um dos dinossauros mais antigos do mundo: o Saturnalia tupiniquim. Passados mais de 20 anos, ainda mantém raízes no Brasil: faz pesquisas no país – o estudo de maior relevância o corre na Bacia Sedimentar do Parnaíba, localizada entre os Estados do Ceará, do Maranhão e do Piauí e onde, 240 milhões de anos atrás, havia um imenso lago.

 

Formada em Biologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre em geociências pela mesma instituição, doutora em paleontologia pelo King’s College (Inglaterra) e pós-doutora pela Universidade de Tübingen (Alemanha), já foi professora na UFRGS, na UFAM, na UFMT e na UFRJ e chefe do Laboratório de Paleontologia do Museu de Ciências da PUCRS. No Museu londrino de história natural ela trabalha desde 2004.

 

Ferrenha defensora da pesquisa científica e da liberdade de expressão, Martha critica os cortes de verbas que o governo impôs ao Ministério da Ciência e Tecnologia e Comunicações no Brasil e alerta: há um grande perigo em desmotivar jovens cientistas que podem fazer carreira no país.

 

A entrevista a seguir foi concedida no fim de abril, durante uma passagem sua por Porto Alegre.

 

 

Que descobertas a senhora e outros cientistas realizaram na Bacia do Parnaíba e como elas contribuem para entender a evolução das espécies?

Essa bacia tem rochas que se formaram em um enorme lago que existia antes da separação do Brasil e da África, há cerca de 240 milhões de anos. Nesse lago, viviam anfíbios gigantes, muitos peixes e tubarões de água doce, além de répteis terrestres ao redor. As rochas se formam quando um peixe que vive dentro do lago cai para o fundo e é recoberto por lama. Em milhões de anos, mais e mais lama se acumula nesses esqueletos, de fora a compactá-los até virarem pedra. Na maior parte dos casos, o material que encontramos é novo para a ciência, nunca descoberto. Esses achados são muito importantes. Temos mais de 3 bilhões de evolução na vida na Terra, com muitas lacunas a preencher.

 

 

É essa a descoberta mais importante de sua carreira até hoje?

Quando trabalhava como chefe de laboratório da PUCRS, fomos a Santa Maria em busca de fósseis. No Rio Grande do Sul, conhecia-se só um dinossauro, encontrado em 1946. Descobrimos o segundo naquela expedição, o Saturnalia tupiniquim. Depois, muita gente foi trabalhar no Interior e descobriu vários outros. Houve interiorização da pesquisa científica, ainda mais com a criação de novas universidades. Por isso é importante que o governo apoie novas pesquisas. A população de dinossauros gaúchos está aumentando (risos).

 

 

A senhora tem uma visão sistêmica das geociências. O senso comum coloca o ser humano como um não animal, como se estivesse acima de outras espécies. Somos tão diferentes?

Fico contente em fazer parte da natureza. Não sou um alienígena que chegou ao planeta. Vejo semelhanças entre eu e outros animais: sou mais parecida com um macaco do que com uma vaca, por exemplo. Essa afinidade precisa ser explicada. E a explicação é genética. Se você examinar o sangue, verá que somos nada além de seres biológicos. Ser um animal não é uma ofensa, não vejo necessidade de ser parte de outra coisa. Não sou nada especial que nunca foi visto em outro ser. Pensar-se diferente é algo perigoso. Sentir-se dissociado do meio ambiente faz com que a pessoa não se sinta responsável pelo que provoca.

 

 

Essa dissociação da natureza explica a agressão ao meio ambiente?

Sim. O ser humano modifica muito o meio ambiente. Precisamos viver de forma menos destrutível. Porque, se perdermos a biodiversidade do planeta, nós acabamos junto. Não teremos recursos para dar conta da mudança climática. Desde a Revolução Industrial, a atmosfera já recebeu mais de 30% de gases do efeito estufa do que antes. É demais. Quanto mais quente a atmosfera, mais vapor de água do mar ela absorve e mais energéticas são as tempestades. As pessoas acham que o aquecimento global não é tão grave, confiam muito na tecnologia, como se ela fosse salvar tudo. Não é bem assim.

 

 

Muito se debate sobre o futuro de museus, que precisariam se renovar para adaptar ao futuro. Fala-se, inclusive, na transformação em espaços de convivência. O museu precisa se reinventar?

Só posso dar o exemplo de Londres. Há 350 museus lá. Grande parte oferece acesso livre. Recebemos ajuda do governo para pagar salários, mas para todas as outras atividades e para manter o prédio precisamos gerar renda. Quando você vai a um museu, você quer ver certas coisas. Se você não encontra o que esperava, pode ser frustrante. É preciso alcançar um equilíbrio, avaliar os anseios da sociedade. Acho ótimo você atrair as pessoas para vivenciar coisas que talvez não sejam usuais para elas. Você pode chamá-las porque elas gostam da festinha, da música. E usar o evento como chamariz para divulgar ideias. Mas não é o único caminho.

 

 

Como tornar os museus economicamente viáveis?

Não é uma questão só econômica. O Brasil não é um país pobre. É uma questão doutrinária de se pensar como os impostos devem ser usados. Os museus na Inglaterra só podem funcionar sem cobrança de entrada porque o governo ajuda a mantê-los. A arrecadação complementar vem da pesquisa científica: os pesquisadores podem concorrer a bolsas de agências fomentadoras. Fazemos também consultorias, principalmente para a área de mineração, e temos muitos eventos pagos, como noites no museu (uma “noitada com dinossauros”, no Museu de História Natural de Londres, para um adulto e uma criança, sai por 120 libras, cerca de R$ 600,00). Alugamos partes do museu para festas particulares. Vendemos exposições itinerantes para outros países e temos lojas que vendem produtos relacionados à história natural.

 

 

No ano passado, houve a polêmica do Queermuseu, no Santander Cultural. A senhora acompanhou?

Precisamos ter uma visão aberta. A realidade precisa ser inclusiva, não podemos achar que só o que pensamos e fazemos é aceitável. Fora a violência você tem de mostrar, às vezes chocar. É preciso mostrar a realidade que pode não ser a sua, mas de outro, para que se entenda científica ou culturalmente. Sou contra fechar as portas à realidade do outro. Você não pode dizer que apenas você tem razão. Isso gera violência, desarmonia, guerra. Se há uma exposição que você considera feia, não vá. Mas outras pessoas podem querer discutir aquele tema. Se você esconde um tema hoje, amanhã pode esconder outro, e aí nunca se discutirá nada, por medo de ofender alguém.

 

 

Como é ser uma cientista mulher e brasileira? Já sofreu algum obstáculo?

Em nenhuma carreira, você agrada a gregos e troianos. O que acho é que as mulheres são discriminadas na direção das empresas, onde, além de serem cobradas para serem boas dirigentes, sofrem porque a licença maternidade é algo às vezes visto como indesejável. Na ciência, acho importante os movimentos que têm chamado a atenção para a inclusão de pessoas não brancas e de etnias variadas.

 

 

O Brasil amarga sucessivos cortes na ciência. O orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia aprovado para 2018 é igual a 40% do orçamento de 2013. A senhora tem acompanhado essa situação?

A falta de dinheiro para a pesquisa e para a educação gera desesperança. Isso é muito perigoso porque, quando os jovens percebem que não terão oportunidade de melhorar de vida estudando, buscam outro jeito, que será desconstrutivo para a sociedade. O Brasil tem muio dinheiro e gera muito dinheiro. Só o Rio Grande do Sul, que é 6% do território nacional, já é maior do que a Grã-Bretanha inteira. Lá, há quase 70 milhões de pessoas. Aqui, 11 milhões. Há muita terra potencialmente produtiva, há uma economia que gera muitos recursos. Para onde eles vão? Por que não chegam na educação? Essa não é uma questão econômica, mas doutrinária. As pessoas não acham contraprodutivo enriquecer mais do que o restante da população. Mas é. Você vai estacionar seu Mercedes na beira da favela? Por que não crescemos todos juntos, em uma economia em que todos terão esperança de melhorar de vida?

 

 

Quais os prejuízos de se investir menos em pesquisa?

Com tantos cortes na ciência, o Brasil ficará para trás. Outros países avançam rapidamente. O pior que pode acontecer é você criar doutores e laboratórios, como se fez no passado recente, para depois cortar a verba. Porque aqueles que estão fazendo pesquisa, em um processo alimentado ao longo de décadas, não poderão mais adquirir os insumos. Isso gera desesperança. Imagina você pesquisar o câncer e não ter dinheiro para comprar pipeta? O Brasil já é potência em matemática e tem tudo para ser o mesmo em outras áreas. Tem de mudar a doutrina concentradora de renda.

 

 

A senhora dividiu seu percurso acadêmico entre o Brasil e o Exterior. Que diferenças notou?

Na Inglaterra, a ciência tem centenas de anos. O Brasil demorou mais. Por isso, temos de apoiar os doutores que se formam fora do país e querem aplicar esse conhecimento na volta. Tem de haver jeito de apoiá-los, senão eles vão embora, ou trocam de ofício. A tradição na Europa gerou uma inércia positiva, não de ficar parado, mas de continuar. A ciência já se estabeleceu lá, as pessoas já viram os benefícios científicos chegarem a elas. Quando não se veem esses benefícios, parte-se para outras crenças. Temos de ter cuidado com isso.

 

DESCOBERTA: O Saturnalia tupiniquim

 

É uma das mais de 20 espécies de dinossauros fossilizados descobertos no Brasil – e um dos cinco encontrados no Rio Grande do Sul. Foi encontrado por Martha e seus colegas pesquisadores na região de Santa Maria, tinha 1m50cm de comprimento e vivia na região há mais de 200 milhões de anos, época em que África e América formavam um único continente – denominado Pangeia.

 

Fonte: Zero Hora/Caderno DOC/Marcel Hartmann (marcel.hartmann@zerohora.com.br) em 10/06/2018