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Ensinar Literatura na Era do Enem
Ensinar Literatura na Era do Enem

ENSINAR LITERATURA NA ERA DO ENEM.

 

Uma virada está ocorrendo no ensino, como todo mundo sabe mas nem todo mundo tem percebido, e nós estamos longe ainda de ter uma formulação clara.  Vai uma contribuição para a necessária conversa.  A manchete geral é assim:  estamos saindo do Paradigma do Vestibular e entrando no Paradigma do Enem.

 

O Paradigma do Vestibular esteve de pé por mais de quatro décadas.  Começou a existir nos anos 1970, quando passou a existir o vestibular Unificado.  Foi o tempo do Milagre Brasileiro, no contexto da ditadura militar, com crescimento econômico forte, impulsionado a endividamento externo e resultando em industrialização forte, mecanização da lavoura, êxodo rural, inchamento das cidades – termos esses hoje em dia com cara de passado remoto, mas bem próximos historicamente.

 

No âmbito de uma extensa reforma de ensino, que acabou com o antigo Ginásio e introduziu uma Profissionalização de araque no antigo tempo do colégio e do clássico, a Universidade expandiu vagas e inventou o Vestibular Unificado:  dali por diante, todos os alunos passaram a prestar as mesmas provas, independentemente do curso que desejavam.  (Bem diferente do modelo anterior, feito para muito poucos candidatos, porque pouca gente completava o ensino médio de então:  antes de 1970, o aluno prestava provas apenas das matérias relevantes para a área que ia cursar, e essas provas, escritas e orais, eram preparadas em cada faculdade ou instituto, pelos mesmos professores que iam lecionar para os ingressantes.)

 

E foi o Vestibular Unificado que inventou a prova de Português, com uma parte específica para os conteúdos de Literatura – e agora as perguntas eram de resposta fechada, com cinco alternativas, uma delas certa e as demais erradas.

 

Parece agora uma coisa banal, mas é preciso desbanalizar para enxergar:  esse modelo de prova, adequado para exames massivos, aplicados a milhares de candidatos, é também um crime contra o pensamento criativo – ele sugere que a resposta certa é apenas uma, “objetiva”.  Só isso já renega uma das dimensões essenciais do aprendizado, especialmente naquilo que lida com as artes e o pensamento, como a literatura.

 

Os professores começaram a dar aulas de literatura tendo no horizonte este Vestibular Unificado, preparando os alunos para ele.  Pergunta crucial:  quem definiu os programas dessa prova?  Resposta:  cada Universidade grande, com um exame de ingresso influente na região.  Assim foi a UFRGS no nosso Estado e assim foi com as demais federais Brasil afora.

 

Bem, com todos os percalços assim ocorreu, e assim se estabeleceu o Paradigma que agora agoniza, para dar lugar ao novo modelo, o Paradigma do ENEM, que virou o vestibular geral para quase todas as grandes universidades brasileiras (e para programas federais, como o Ciência sem Fronteiras), que passa a ser a fonte de todas as definições para o Ensino Médio daqui por diante e que, para ser bem honesto, ninguém conhece bem (E que está em discussão, como se lê em www.basenacionalcomum.mec.gov.br).

 

Deste novo momento alguma coisa se pode saber pela prática das provas do ENEM, numa sequência que já tem mais de 10 anos de vida.  Primeiro:  Literatura continua a ser um apêndice de Língua Portuguesa, ambas convivendo obrigatoriamente com Artes e Educação Física, não me perguntem como ou por quê.  Literatura precisa ser um pedaço de Português?  Minha resposta é sim, na generalidade da vida escolar, mas eu gostaria que ela tivesse relativa autonomia nos anos finais da escolaridade, quando os jovens têm condição de (e interesse em) entender conexões históricas com outras áreas da vida cultural.

 

Segundo:  o Enem induz interdisciplinaridade, ao contrário do modelo estanque do Vestibular.  Daqui pode nascer coisa boa, mas não necessariamente.  Para a Literatura, interdisciplinaridade precisa ser com as Humanidades, obviamente, e não só com Português e Artes (e Educação Física!).

 

Terceiro:  ficam eliminados do horizonte as leituras ligadas a interesses não hegemônicos, como aqueles que nossa preguiça mental e o imperialismo interno chamam de “regionalismo”, palavra que eu só uso com luvas para evitar contaminação.  Quem vai ler na escola sulina os Simões Lopes Neto e os Erico Veríssimo?

 

Quarto:  as perguntas com conteúdo literário do Enem aboliram a preocupação com os termos (banais) da história da literatura, o que é ok, mas são respondíveis sem leitura de livros (de contos, de poesia, romances), o que é ruim.  No geral, a prova traz fragmentos de texto, e a pergunta é no fundo de leitura direta daquele fragmento, exigindo leitura gramatical e não leitura literária.

 

Em suma, um novo momento se abre agora, para o ensino da literatura.  Jogou-se fora o modelo de historiografia trivial, em favor da mera decodificação, nas provas.  O que fazer?  Diga lá.

 

Fonte:  ZeroHora/Luís Augusto Fischer/Professor de Literatura e escritor em 22/11/2015.