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Enquanto o Sono Não Vem, Livro Censurado
Enquanto o Sono Não Vem, Livro Censurado

ERA UMA VEZ A VERDADE

 

O Ministério da Educação recolheu das escolas o livro ENQUANTO O SONO NÃO VEM, de José Mauro Brant, por entender que a obra não é adequada a crianças de sete a oito anos – o conto A TRISTE HISTÓRIA DE EREDEGALDA aborda o tema do incesto e tem cenas de tortura: um rei deseja casar com a mais bonita de suas três filhas, que, ao recusar a proposta do pai, é presa em uma torre, proibida de beber água. Afinal, o que pode e o que não pode na literatura infantil?

 

Ao abordar um assunto polêmico como a retirada de um livro do currículo escolar, ocorre-me um ensaio do escritor israelense Amos Oz. Chama-se COMO CURAR UM FANÁTICO. No olho do furacão de outra grande polêmica, o romancista declara que o problema de um fanático é a certeza.

 

Não é para fanáticos a escolha de um repertório literário para o público infantil. Para acompanhar as minhas dúvidas, recebo a visita de alguns ficcionistas disfarçados de psicólogos. Wilfred Bion pinçou, nas cartas entre o poeta John Keats e a irmã, um dos conceitos mais úteis para a psicanálise e a vida. Ele chamou de “capacidade negativa” o talento de suportar o tempo necessário em que não sabemos. Atropelá-lo com alguma certeza precipitada pode ser fatal para a capacidade de elaboração e conhecimento.

 

Mas uma espera também é feita de procura e, nessa hora, convém ler, ouvir, informar-se. À mesma época de Bion, Bruno Bettelheim foi fundamental para a retomada do interesse dos contos de fada junto às crianças. Na década de 1970, pais e educadores ainda tinham um ranço com essas histórias repletas de terror e violência. Eles estavam convictos de que fariam mal. Bettelheim mostrou a importância delas para a vida emocional. Ao invés de provocar sequelas, elas proporcionaram uma capacidade de lidar com os terrores, porque, através da história, a criança pode representá-los. E o que mais podemos diante da dor, da tristeza e da morte, senão falar sobre isso?

 

Bettelheim já não estava sozinho. Maud Mannoni foi outra que engrossou o caldo desse feijão de letras. Para ela, os contos tradicionais não eram piores do que aqueles que habitam normalmente a cabeça de uma criança. Censurá-los seria mostrar um desconhecimento da infância como ela é. E, pior, abrir mão de um instrumento fundamental como previra Bettelheim.

 

Não há, portanto, assunto a ser evitado com uma criança, especialmente se ela se interessar por todos os assuntos da vida, o que inclui a dor, o sexo, a morte. Por isso, espanta a retirada do livro ENQUANTO O SONO NÃO VEM, de José mauro Brant, das leituras aprovadas para alunos entre sete e oito anos. O motivo: um dos contos aborda o assédio sexual de uma menina por seu pai.

 

A questão já não é de conteúdo, mas de forma. Podemos e devemos ter dúvidas sobre o quanto Brant ou qualquer outro escritor da infância respeita em sua obra a construção de uma boa metáfora, justo o que a criança precisa para se sentir à vontade diante dos assuntos mais doloridos. Mas, se voltar a moda de censurar histórias pelo seu conteúdo, corremos o risco de abrir mão do que é mais sagrado no universo de uma vida: a verdade. E, por conseguinte, no universo da leitura, onde o que vale é uma boa história, banhada de ritmo e símbolos, arte capaz de fomentar sem ameaça o pensamento, o sentimento e, sobretudo, a imaginação. René Diatkine lembrou-nos de que nada pode ser mais saudável do que poder contar para si mesmo outra história.

 

Sei que não sou isento. Há anos venho abordando temas polêmicos em minhas histórias para crianças. Já falei de sexo e de morte para os bem pequenos e, com frequência, eu o fiz na contramão de pais e educadores. Acabo de publicar um livro chamado MONSTROS E LADRÕES, que põe em cena a violência urbana de nossas cidades repletas de insegurança. O meu maior desafio continua sendo contar uma história com poesia, estrutura, sonoridade e humor. O livro faz parte de um projeto pedagógico chamado Tá Ligado, mas a minha responsabilidade como pessoa foi não mentir. E, como escritor, tentar fazê-lo com arte e capacidade simbólica suficiente para dissipar a crueza de alguma versão inapropriada. Aprendo muito com os contos de fada e suas tramas postas em um passado indeterminado e, assim, seguro.

 

Tenho dúvidas de se vai interessar a todas as crianças e quando o fará, já que necessidades são dinâmicas e individuais. Felizmente, tenho recebido a companhia de muitos educadores e pais que já não duvidam de algumas quase certezas: convém dizer a verdade e contar uma boa história pode ser a melhor forma de consegui-lo.

 

 

Fonte: ZeroHora/caderno PrOA/Celso Gutgreind/ Psicanalista e escritor, autor de Monstros e Ladrões (Edelbra) em 18/06/2017.