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Em Alto-Mar, de Edmondo De Amicis
Em Alto-Mar, de Edmondo De Amicis

A GRANDE VIAGEM

 

Chega ao Brasil Best-Seller da emigração italiana rumo à América do Sul. Lançado no fim do século 19 na Europa, o livro narra o contexto das viagens de um povo que marcaria profundamente as identidades de Brasil, Uruguai e Argentina.

 

Livro: EM ALTO-MAR, de Edmondo De Amicis, Editora Nova Alexandria, 320 páginas.

 

EM ALTO-MAR é a tradução brasileira do primeiro romance que trata o tema da grande imigração italiana – entendida como fenômeno histórico de massa – na América do Sul. Com seu título original, Sull’Oceano, foi publicado em 1889 pelo escritor italiano Edmondo De Amicis, já famoso pelo sucesso do romance pedagógico Cuore (Coração, no Brasil).

 

Graças à obstinação da tradutora Adriana Marcolini, com apoio do Programa de Ação Cultural da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo e em coedição com o Instituto Italiano de Cultura, hoje o público brasileiro dispõe de uma obra que, na Itália, tornou-se em pouco tempo um best-seller, sendo traduzido em seguida em vários outros países.

 

De Amicis, no final do século 19, era o escritor mais emblemático do jovem Estado italiano. Seu estilo informal, descritivo e sentimental, revelava-se claro e eficaz para alcançar um público de leitores ainda limitado, mas em significativo crescimento. Era considerado o autor de consumo do momento. A ocasião para escrever o romance se apresentou em 1884, quando foi convidado pelo diretor do jornal portenho Nacional a proferir um ciclo de conferências sobre a unificação política italiana para os peninsulares imigrados na Argentina.

 

Seguindo o exemplo de escritores como Robert Louis Stevenson e Jules Verne, que nos anos anteriores produziram apreciadas narrativas de viagem relativas à imigração inglesa nos EUA, o livro é essencialmente o relato de uma travessia oceânica. Organizado como um verdadeiro jornal de bordo, conta os 22 dias que De Amicis passou no transatlântico Nord America (Galileo, na ficção do livro), que, de Gênova a Montevidéu, trasportava 1,6 mil emigrantes italianos na terceira classe e poucas outras dezenas entre a segunda e a primeira. A grande maioria se dirigia para a Argentina e, da capital uruguaia, seria transportada para Buenos Aires em embarcações menores.

 

Nas páginas do romance, aparece nitidamente o microcosmo humano pouco homogêneo da sociedade italiana da época, formada por valores, costumes e dialetos peculiares. Um país em movimento com suas diferentes proveniências regionais, profissões e motivações para deixar a pátria. O autor se confronta com histórias de amor surgidas a bordo, co o nascimento de uma criança, mas também com o imaginário coletivo ligado ao pavor da morte, ao perigo de possíveis tempestades e ainda mais de epidemias. Mas o que mais salta aos olhos é a ênfase que o autor reserva aos sentimentos ambivalentes de ressentimentos e, ao mesmo tempo, de esperança, que acompanhavam a grande maioria dos passageiros.

 

O ponto de vista de De Amicis é claro: a miséria é o denominador comum da emigração massiva, e justifica então a escolha de partir como a única via para escapar da fome. Escrever um relato de viagem desse tipo significava, principalmente, enfrentar a grande questão social da época, ligada à emigração que na década de 1880 assumiu dimensões apocalípticas no recém-unificado país europeu. Os desembarques de italianos nos portos americanos passaram dos 60 mil de 1884 aos mais de 200 mil em 1888, aumentando nos anos sucessivos. O mesmo Brasil, que de 1875 até a I Guerra Mundial, deu acolhimento a 1,2 milhão de italianos, tornou-se nesse período o segundo maior destino na América Latina, depois da Argentina.

 

Até então, porém, os poucos romances sobre o tema tratavam, sobretudo, de trajetórias individuais edificantes, de empreendedorismo e espírito de aventura. Faltava uma observação mais profunda sobre as necessidades econômicas e sua dramaticidade. De Amicis, distanciando-se do tom conciliador habitual, apresentava com coragem e em tom polêmico à burguesia italiana a falência das políticas de um Estado nascido com promessas e altas expectativas, que assistia impotente ao êxodo de massas de energias construtivas e vivas, protagonistas de uma primeira forma de revolução silenciosa. A crítica social é econômica mas também uma crítica de valores, pela traição dos ideais “ressurgimentais” aos quais ele mesmo aderiu.

 

De Amicis captura o aspecto humano e traumático da experiência migratória, registrando com grande sensibilidade os estados de ânimo contrastantes, as esperanças e o pavor em frente ao desconhecido, mas também a coragem e a vontade de resgate social para essa multidão, até esse momento, anônima. Enfim, sentimentos e perturbações universais que acompanharam e acompanham o destino de imigrantes de ontem e de hoje em todo o planeta.

 

Fonte: Zero Hora/Caderno Doc/Antonio de Ruggiero (Professor de História Contemporânea e pesquisador da história da imigração italiana na América latina na PUCRS) em 25/02/2018.