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Educação e Respeito por Francisco Marshall
Educação e Respeito por Francisco Marshall

EDUCAÇÃO E RESPEITO

 

É uma cruzada de mal educados a que ora hostiliza a educação. Suas duas bandeiras, o ataque ao que chamam de “ideologia de gênero” e a agressão de políticos contra a escola, agremiam bárbaros que atacam o que não têm e nos colocam mais um desafio: educar a quem hostiliza a educação. Não há outra saída, pois não se pode querer vencer com luta campal a quem quer queimar bruxas, combater livros, censurar a arte, manietar docentes e promover o ódio. Mesmo que os mal educados, hoje muito petulantes, provoquem e peçam umas palmadas e cantinho do castigo, o antídoto será dar-lhes aquilo de que carecem: educação, serenidade, humor e amor.

 

Eis mais uma cena patética deste filme surreal a que ora assistimos, o Brasil atual: na semana em que crianças se divertiam com fantasias de monstros, fantasmas e bruxas, outros monstros reais, sem fantasia mas com muita fantasmagoria, fizeram boneco de vudu para queimar como bruxa uma educadora e filósofa, Judith Butler, que visitou o país para falar de paz. Foi diante de um centro cultural de primeira qualidade, o Sesc Pompeia, em São Paulo. Vergonha internacional. E mais uma foto mórbida para nossa galeria de horrores.

 

O que chamam de “ideologia de gênero” é o estandarte de gente paranoica, o fantasma agressivo de quem não tem informação e o grau mínimo da dignidade, qual seja, a capacidade de respeitar o outro. Afinal, é disso que trata o estudo das relações sociais mediadas por questões de gênero e sexualidade: de conhecimento e respeito, e da busca de soluções educadas para o convívio social harmônico. Sabemos dos traumas individuais e sociais causados pelo preconceito e pela intolerância, e sabemos da qualidade do antídoto, capaz de superar com eficiência a essas violências desnecessárias: sensibilidade e civilização.

 

Onde há caça às bruxas, o problema real não é a existência de bruxas, mas de gente perturbada que quer caçar o que não existe. Nesse caso, como no do ataque politiqueiro às escolas, moralistas hipócritas assustam a sociedade com mentiras e agressões. Podem enganar a alguns, com sua aparente moralidade, que mal dissimulam imorais agressores da cultura, ou com nomes insidiosos, que declaram o oposto do que são, como aquele movimento que põe políticos ignorantes dentro das escolas, para eles, no estranho mundo da educação, e dizem fazer o inverso do que cometem: levam partidos e ideologias ruins para a escola. Criam novos problemas, atacam a civilização e roubam-nos tempo e energia que seriam melhor empregados para enfrentarmos os reais problemas da educação, ainda graves e urgentes.

 

No século III d.C. viveu no Império Romano o biógrafo erudito Diógenes Laércio, autor de VIDAS E DOUTRINAS DOS FILÓSOFOS ILUSTRES, um ótimo guia para a filosofia antiga. É dessa obra frase atribuída a Sócrates: só há um bem, o conhecimento, e um mal, a ignorância. Em grego, episteme (ciência, conhecimento elaborado) ou amathia (falta de aprendizado). Há séculos a humanidade enfrenta esse jogo insólito, em que os que apostam na ignorância perdem pelo que são e os que apostam no conhecimento ganham pelo que ainda poderemos ser, melhores e mais felizes.

 

Fonte: ZeroHora/Francisco Marshall /Historiador, arqueólogo e professor da UFRGS (marshall@ufrgs.br) em 12/11/2017.