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Dramaturgia de Henrik Ibsen
Dramaturgia de Henrik Ibsen

IBSEN, O CONSTRUTOR

 

Caixa reúne novas traduções de quatro peças fundamentais de Henrik Ibsen, pai do teatro moderno nascido há 190 anos.

 

Caixa Henrik Ibsen: Inclui as peças ESPECTROS, UM INIMIGO DO POVO, HEDDA GABLER e SOLNESS, O CONSTRUTOR, além de posfácio de Leonardo Pinto Silva, Editora Carambaia, 456 páginas.

 

Embora traduções para o inglês de obras de Henrik Ibsen (1828-1906) estivessem disponíveis na virada para o século 20, James Joyce resolveu aprender norueguês apenas para poder ler o grande dramaturgo no original, tamanha era sua devoção. Quem não tiver a mesma dedicação de Joyce mas quiser entender a fascinação despertada por aquele que é considerado por alguns como o segundo mais influente autor de teatro (depois de Shakespeare) deve conferir a caixa que a editora Carambaia publicou no final de 2017 com quatro de suas mais importantes peças traduzidas do norueguês. Vem em boa hora: em 2018, celebram-se os 190 anos do nascimento de Ibsen.

 

Não é a primeira vez que Ibsen é vertido diretamente de sua língua materna ao português, mas muitos desses textos estão fora de catálogo ou foram feitos para encenações e acabaram não sendo editados. Coube a Leonardo Pinto Silva – que traduziu A MORTE DO PAI, do cultuado romancista contemporâneo Karl Ove Knausgärd – a tarefa de criar novas versões de ESPECTROS (1881), UM INIMIGO DO POVO (1882), HEDDA GABLER (1890) e SOLNESS, O CONSTRUTOR (1892). A caixa tem edição caprichada: cadapeça vem em um volume separado, e o posfácio de Aimar Labaki, que merece ser lido antes por contextualizar a biografia do autor e suas encenações no Brasil, é um opúsculo à parte, no formato dos programas distribuídos antes dos espetáculos.

 

Durante o trabalho, chamaram a atenção de Silva as lacunas existentes nas traduções – não apenas para o português – utilizadas para o cotejo, especialmente no que diz respeito às rubricas, como são chamadas as orientações de cena que indicam como a peça deve ser levada ao palco.

 

- Ibsen era muito cioso de seus escritos, ainda mais os da fase tardia, diante de mutilações e distorções cometidas por diretores, atores e, em especial, tradutores. No desafio que me impus, atrevi-me a dar um sabor machadiano ao texto, para localizá-lo no tempo e no espaço sem prejuízo à leitura de um brasileiro do século 21, mas procurei não recorrer a termos cuja datação no português brasileiro fosse posterior à data da peça – explica o tradutor.

 

Figura influente nas letras europeias no século 19, Ibsen é frequentemente citado como pai do teatro moderno. Filho de um próspero comerciante que perdeu toda a fortuna, o dramaturgo e poeta deixou a Noruega em 1864, retornando definitivamente apenas 27 anos depois. Morou em cidades como Roma, Dresden e Munique, mas suas histórias são ambientadas no país natal, onde é hoje uma espécie de herói nacional.

 

A CAIXA HENRIK IBSEN oferece exemplares de duas fases de sua produção: os dramas realistas contemporâneos (ESPECTROS e UM INIMIGO DO POVO) e os dramas psicológicos e simbólicos (HEDDA GABLER e SOLNESS, O CONSTRUTOR). Compreendem uma amostra representativa em qualidade de uma obra que soma 26 peças – também ficaram célebres PEER GYNT (1867), CASA DE BONECAS (1879) e O PATO SELVAGEM (1884), entre outras.

 

Desafiando a moral da burguesia à qual o próprio Ibsen pertencia, suas peças questionam convenções sociais e enfrentam tabus. Seu teatro aponta as contradições das instituições: a família, o governo, a imprensa. Em UM INIMIGO DO POVO, Dr. Stockmann trava uma batalha individual ao revelar a contaminação de um balneário enquanto é acusado de comprometer, com sua denúncia, a principal atividade econômica da cidade. Ao defender o interesse coletivo, Stockmann torna-se um inimigo público devido a um jogo de manipulação dos poderosos. É do protagonista da peça uma das frases mais célebres escritas por Ibsen: “O homem mais forte do mundo também é o que mais está sozinho”.

 

Para ilustrar a atualidade do tema, Silva brinca que por vezes, durante a tradução, teve de se certificar de que a tela do computador exibia o texto da peça, e não um portal de notícias:

 

- Clássicos são assim, atemporais. Não há um tema controverso que Ibsen já não tenha tratado em sua dramaturgia mais de um século atrás. Claro que havia uma comoção a cada estreia no Teatro Nacional de Oslo, e na peça subsequente o autor ousava ainda mais, respondendo aos críticos. Mesmo assim, era um debate longe da esterilidade pueril que temos hoje. Pensar que involuímos tanto depois de mais de cem anos não é nada alentador e só reforça a importância e a grandeza do dramaturgo norueguês.

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno/Fábio Prikladnicki (fabio.pri@zerohora.com.br) em 15/01/2018.

 

UM INIMIGO NA CASA DE BONECAS

 

Em Skien, cidade natal do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, a diretora teatral gaúcha Camila Bauer teve uma perspectiva diferente sobre o legado do autor que inspira seu próximo espetáculo, co previsão de estreia entre maio e junho de 2018. Ainda sem título, a montagem deriva do projeto UM INIMIGO NA CASA DE BONECAS – A VOZ INVISÍVEL E A VOZ DO INVISÍVEL, que foi um dos cinco vencedores das International Ibsen Scholarships, bolsas oferecidas pelo governo da Noruega para projetos de divulgação da obra do grande escritor naquele país. Camila e sua equipe contarão com i equivalente a R$ 120 mil.

 

Presenciando debates e assisti do a montagens de peças durante a Ibsen Conference, em outubro, a diretora percebeu que a obra dele, repleta de críticas à corrupção e aos descaminhos da sociedade, e talvez mais pertinente hoje ao contexto de países em desenvolvimento do que ao da própria terra natal – a Noruega ocupa o primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. Não por acaso, também foram contemplados pelas Ibsen Scholarships projetos da Colômbia e da Índia, além de um da Grécia e outro binacional (Suécia/Noruega). Em Porto Alegre, onde já realiza ensaios para o ovo espetáculo, Camila observa:

 

- Na Noruega, o feminicídio e a corrupção não são mais assuntos. Estão superados. Naquela semana de atividades, começamos a pensar sua obra sob outra perspectiva, tentando trazê-la ao contexto do Brasil. Por exemplo, relacionado-a com a quantidade de crimes cometidos contra as mulheres por aqui.

 

O trabalho que a diretora prepara será uma montagem de CASA DE BONECAS (1879) com citações a UM INIMIGO DO POVO (1882), duas das mais conhecidas peças do autor. Dividindo opiniões entre os que a consideram uma forma de pré-feminismo e os que percebem nela apenas uma defesa da emancipação do ser humano, CASA DE BONECAS mostra a trajetória de Nora, uma mulher que ao final decide abandonar o marido e os filhos. Pressionado pelas circunstâncias da época, Ibsen chegou a escrever, a contragosto, um final alternativo para ser encenado na Alemanha, no qual Nora decide ficar, mas ele mesmo considerou esse um ato de “violência” com a peça.

 

Baseado na versão original, Leonardo Pinto Silva realizou uma tradução do norueguês especialmente para a encenação gaúcha. CASA DE BONECAS, que não consta na CAIXA HENRIK IBSEN lançada no final de 2017 pela editora Carambaia, será publicada em 2018 pela editora Moinhos, de Belo Horizonte.

 

Camila pretende não apenas preservar o tom contestador do texto como deve intensificá-lo. Estuda, por exemplo, um novo tratamento para Linde, personagem que opta por se enquadrar às convenções sociais esperadas para uma mulher. Seja para desconstruir o realismo de Ibsen,seja para contextualizar sua obra na atualidade brasileira, o espetáculo buscará um distanciamento crítico ao abrir o jogo teatral. Os atores interromperão a ação com comentários ou observações, explicitando que se trata de um elenco brasileiro representando uma peça ambientada na Noruega. Acontecimentos recentes, como o impeachment, serão aludidos.

 

A trilha sonora de Álvaro Rosa-Costa, que também interpretará o papel de Dr. Rank, reforçará essa brasilidade, adaptando a referência à tarantela italiana no original. Nora será compartilhada entre as atrizes Sandra Dani e Janaina Pelizzon. Completam o elenco Nelson Diniz (como Torvald Helmer, marido de Nora), Lauro Ramalho (Krogstad), Liane Venturella (Linde) e a bailarina convidada Fabiane Severo. Carlota Albuquerque ser´responsável pela criação das partes coreográficas.

 

Fonte; Zero Hora/Segundo Caderno em 15/01/2018