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Do Modernismo à Contemporaneidade em Portugal
Do Modernismo à Contemporaneidade em Portugal

 

Do Modernismo à Contemporaneidade em Portugal

 

 

        Ricardo Reis

        Álvaro de Campos

        Alberto Caeiro

    • RICARDO REIS
    • Latinista cuja poesia sofre grande influência de Horácio e do Epicurismo.
    • É um homem cujo interesse intelectual é formado pelo amor à Antiguidade Clássica e às suas orientações filosóficas e poéticas. 

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
    (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
    Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
    E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
    E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
    Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
    Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
    Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o  bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
    Pagã triste e com flores no regaço.

 

 

  •  Retomada de características da poética clássica vêm à tona no poema citado: a valorização da vida campestre, a percepção da natureza como espaço acolhedor e de aprendizagem e  o paganismo.
  • Elementos da filosofia clássica:

–     Heráclito  a doutrina do panta rei

–     Aurea mediocritas

  • As duas noções - a mutabilidade do mundo e o equilíbrio – unem-se na representação do amor no poema, como uma experiência profunda, porém contida e racional.

 

 

  • O Presencismo

–   Fundação da revista Presença (1927), por José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca.

 

 

Movimentos poéticos do século XX: um breve percurso apresentaremos um panorama dos principais movimentos poéticos surgidos em Portugal durante o século XX. Destarte, abordaremos a obra de alguns escritores que se posicionaram de modo independente em relação a tais movimentos. Por fim, falaremos sobre a prosa de José Saramago, que muito merecidamente obteve o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, tornando-se o primeiro – e, até então, único – escritor de língua portuguesa a obter esta premiação.

O Presencismo

Começaremos o nosso passeio na década de 20, a partir de um movimento chamado Presencismo. O seu nome deriva da revista à qual estava atrelado, Presença, cujo primeiro número foi lançado em 1927, por seus fundadores, os escritores José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca. A revista continuava a linha aberta pelo Orfismo, no sentido de postular um fazer literário afastado dos lugares-comuns e das convenções. Cabe afirmar que em Presença foram publicados textos de nomes relevantes do Orfismo, como os de Fernando Pessoa e os de Almada Negreiros.

É a partir da senda aberta pelo Orfismo que os presencistas defendiam o predomínio de uma, nas palavras deles, literatura viva contra a literatura livresca, ou seja, uma literatura tradicional e vinculada aos postulados de uma tradição já decadente. Urgia a criação de obras originais e inovadoras, como defende José Régio, em seu artigo “Literatura Viva”:

“Em Arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é, pois, ter uma personalidade e obedecer-lhe”.

ORPHEU 2

Por conta dessa faceta do Presencismo, a crítica literária contemporânea afirma que foi este o movimento responsável pela consolidação do Modernismo em Portugal, após a sua implantação pelo grupo de Orpheu, na década de 10, no século XX. As concepções do Presencismo postulavam, ainda, a predominância do enfoque estético na arte, para além de quaisquer julgamentos morais ou historicismos.

Chamam a essa perspectiva de “literatura artística” e a ela ligam concepções abstratas e metafísicas de arte, em torno de um profundo rigor crítico, que orientava esse fazer estético. Retomam, assim, o ideal da Arte pela Arte, vendo-a de modo transcendente e fora de canais ideológicos.

No manifesto do movimento presencista, a questão da arte pela arte vem à tona:

O ideal do artista nada tem a ver com o do moralista, do patriota, do crente ou do cidadão: quando sejam profundos e quando se tenham moldado de uma certa individualidade, tanto o que se chama vício como o que se chama uma virtude podem igualmente ser poderosos agentes da criação artística: podem ser elementos de vida de uma obra. Não sei se deveria ser assim — mas é assim. Consulte quem quiser a história da literatura de qualquer povo”.

À postura do Presencismo opor-se-ia outro movimento artístico português, um pouco depois daquele momento: o Neorrealismo.

O Neorrealismo em Portugal

O Neorrealismo é marcado por uma arte cujo enfoque dá-se em torno de critérios ideológicos, em franca contraposição aos critérios estéticos do Presencismo.

O movimento trouxe à tona algumas propostas da literatura realista oitocentista, como a defesa do engajamento do escritor e a percepção da obra literária como um instrumento de denúncia e de reflexão acerca dos problemas e desvios da sociedade.

Posicionavam-se contra a metafísica e contra o psicologismo, contrapondo-se ao rigor crítico do Presencismo, em nome do que viam como a necessidade de humanizar a arte.

Os neorrealistas reuniram os seus principais artigos em torno da revista Sol nascente, cuja publicação inicial data de 1937.

No ano seguinte, foi publicado o primeiro texto que empregou o termo “Neorrealismo”, em Portugal: o artigo de “Do neo-realismo”, do escritor Joaquim Namorado.

A principal influência do Neorrealismo português foi a descoberta, por parte dos escritores lusitanos, da ficção produzida nos Estados Unidos, durante a década de 30.

 

Outra influência importantíssima foi a da literatura brasileira criada à mesma época, com o seu cunho ideológico, participativo e regionalista presentes nos romances. Um dos principais autores desse movimento brasileiro a impactar a literatura neorrealista foi Jorge Amado.

Em torno de uma literatura focada na crítica social e nos elementos já descritos, os neorrealistas portugueses criaram obras nas quais, nos moldes da literatura americana e latino-americana que seriam importantes fontes de influência, houve a recusa em apresentar heróis mistificados

 

Outro elemento importante do Neorrealismo foi o diálogo entre a prosa literária e a linguagem cinematográfica, que apareceria nas formas de estruturação de muitos romances neorrealistas.

 

Alves Redol, publicado em 1940, é considerado o primeiro romance neorrealista português. Há, na obra, um nítido diálogo com o estilo literário do brasileiro Jorge Amado. O romance narra a vida dos gaibéus, camponeses pobres da região do Ribatejo.

José Cardoso Pires e o Neorrealismo

O escritor José Cardoso Pires destaca-se em uma obra marcada pelas narrativas curtas, concisas e ágeis, pela denúncia social e por uma problematização do Neorrealismo.

Segundo Massaud Moisés, Cardoso Pires propôs em seus textos um realismo diferente, que não se circunscreve à objetividade, mas se pauta em uma dimensão relacionada, ao mesmo tempo, ao cotidiano e a uma:

 

“dimensão transcendente, numa autêntica radiografia do real. Por isso, o psicológico e o relacional das situações enfocadas emergem do próprio caráter das personagens, à semelhança daquele surrealismo que focalizando a realidade duma forma obsessivamente precisa, acaba por torná-la irreal ou supra-irreal”. (MOISES, Massaud. História da Literatura Portuguesa).

Escritores com independência em relação aos movimentos literários

A literatura portuguesa possui vários escritores de destaque que mantiveram certa independência em relação aos movimentos literários.

Dentre eles, destaca-se Jorge de Sena, cuja obra apresenta uma visão múltipla e fragmentada do mundo, em torno da mescla entre o real e o ideal, bem como entre a história e o mito. Essa multiplicidade, entretanto, não afastava uma  visão profundamente analítica dos seres, dos sentimentos e  do mundo, em sua escrita.

Sophia de Melo Breyner Andresen é outra poetisa portuguesa de grande destaque, com uma obra complexa, na qual tentou, segundo as suas palavras, buscar “olhar por dentro das coisas”, indo para além das aparências do mundo. O signo do mar é recorrente na obra de Andresen e alude a múltiplas imagens, como a subjetividade, a natureza, a insustentabilidade do real e a própria linguagem.

Sua poesia está repleta, ainda, de uma dicção panteísta, na qual o ser entra em simbiose com o natural. E além dessas diversas facetas, a obra de Andresen abarca também temas clássicos e históricos, porém, ainda afastados da objetividade, em uma obra que tenta ir ao âmago dos seres e das coisas.

É importante destacar, também, o poeta Eugênio de Andrade, cuja obra nos revela um lirismo comedido tecido em grande requinte verbal. Sua poesia é repleta de sinestesias e de ambiguidades e constrói-se em torno das reflexões acerca dos limites e das possibilidades da linguagem poética, na busca de uma “poesia pura”, que se sobrepusesse ao real empírico. Há a procura pela essência do ser e da eliminação de todos os excessos que o impedissem de ser percebido.

Na prosa contemporânea portuguesa, cabe o destaque da obra de Agustina Bessa Luís, que contribui para a inovação da prosa literária portuguesa. Há, em sua obra, uma representação do real na qual este afirma a sua identidade com o ideal. Outro ponto importante de sua narrativa é a problematização da figuração do tempo e do espaço narrativo, pois a linearidade tempo-espacial é dissolvida e substituída pela multiplicidade da representação do espaço e do tempo, através da ubiquidade e da ucronia, que embaralham os planos do espaço e do tempo, do real e do ideal. Assim, as referências convencionais são dissolvidas.

O nome de António Lobo Antunes também é de extrema relevância para a literatura portuguesa. Seus romances pontuam a crise do homem moderno frente aos novos modos de viver e à falta de aparatos que o tranquilizem. A representação da memória, da problematização da subjetividade e do deslocamento é constante em suas narrativas, que utilizam uma linguagem experimental e o recurso da simultaneidade. Um dado importante na obra de Lobo Antunes é a narrativa que, a partir da fala de um narrador, se estende a outros pontos de vista, a partir do olhar de personas variadas.

 

 

José Saramago

 

A narrativa de José Saramago apresenta uma linguagem literária e uma estruturação extremamente inovadoras.

Sua obra é escrita em uma linguagem em que predomina o discurso indireto livre e a abundância de vírgulas, em parágrafos geralmente extensos. Essa estrutura constrói uma narrativa próxima à linguagem cotidiana, mas, ao mesmo tempo, experimental, com a multiplicidade de vozes presente, em uma construção polifônica, na qual se embaralham as vozes do narrador e das personagens.

A polifonia não se apresenta apenas nesse embaralhamento, mas no fato de suas narrativas trazerem à tona discursos diferentes, em constante tensão. Essa postura é capaz de levar o leitor ao questionamento de determinadas ideias tidas como verdadeiras, percebendo-se o seu caráter artificial, ou ainda de orientar o leitor a uma reflexão mais aguda acerca de suas próprias certezas.

O discurso literário, em Saramago, pode ser, pois, percebido como um instrumento de questionamento. A leitura de sua obra propõe, em um movimento duplo, a releitura das versões estabelecidas pelo discurso histórico, ao mesmo tempo em que propõe a desestabilização do senso comum. Sua obra, entretanto, é marcada por um veio fantástico, que não a leva ao puro entretenimento, mas que faz da fantasia um instrumento agudo de reflexão.

Em O Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago escreveu, em torno de um narrador em terceira pessoa, sobre a vida de Jesus, em uma versão contraposta ao texto bíblico. Nessa obra, Saramago questiona muitos dogmas da igreja católica ao pensar sobre a existência de um Jesus humano e perplexo frente às contradições de sua vida. Talvez esta tenha sido a obra mais polêmica de Saramago, chegando mesmo a sofrer censura. Clique na seta e conheça um trecho dela.

Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas umas e outras para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem a fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado. Tendo, pois saído para o pátio, Deus não pôde ouvir o som agónico, como um estertor, que saiu do varão no instante da crise, e menos ainda o levíssimo gemido que a mulher não foi capaz de reprimir. Apenas um minuto, ou nem tanto, repousou José sobre o corpo de Maria. (SARAMAGO, José. O Evangelho Segundo Jesus Cristo).

No trecho anterior, podemos verificar a imaginação literária questionando um dos principais dogmas do Cristianismo, a virgindade de Maria, que é apresentada na narrativa como uma mulher comum, que sofre em uma sociedade patriarcal, na qual a mulher possui um lugar inferior. Saramago faz da literatura um instrumento para pensar novas possibilidades e ao ousar fazê-lo em torno de dogmas religiosos sofreu uma série de consequências.

No romance As intermitências da morte, Saramago escreve a partir de um lugar-comum, o caráter nocivo da morte, tentando questioná-lo. Também em uma narrativa em terceira pessoa, conta em um romance tripartido, sobre uma decisão da morte - com m minúsculo, diz a própria personagem, pois a Morte com M sequer poderia ser imaginada pelos mortais.

 

A decisão da morte é tirar férias, dada a reação terrível que provoca diante das pessoas diante do quadro, entretanto, o caos instaura-se entre os homens da região na qual a morte serve. Segue-se, então, para a segunda parte do romance, na qual a morte tenta diminuir o impacto terrível que provoca nas pessoas ao enviar um cartão roxo, com a função de anunciar o dia de sua chegada. A situação também será caótica...

Por fim, na terceira parte, a morte encontra alguém que ignora o seu cartão roxo. Trata-se de um músico, por quem ela toma a forma de uma mulher. A relação entre o músico e a morte/mulher assume proporções inesperadas, até que:

 

"Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez.

Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu."

A arte seduz a morte, metaforicamente, e o romance termina, em um apelo cíclico, como começou: “No dia seguinte ninguém morreu”. Frente à precariedade humana, a Arte é o que permite a reflexão e a continuidade, justificando a existência e a tornando mais suportável, é possível inferir na narrativa.

Fim