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Dilan Camargo e a 61ª Feira do Livro
Dilan Camargo e a 61ª Feira do Livro

DILAN CAMARGO

SER  PATRONO DA 61ª FEIRA DO LIVRO

 

O momento em que fui anunciado como o patrono da 61ª Feira do Livro de Porto Alegre foi um desses acontecimentos que os ganhamos pela graça da vida, e quase de graça, embora uma vida já gasta, como os seixos que rolam no leito dos rios.  Nasci e cresci à beira do rio Uruguai, em cidades com nomes de origem indígena, como uma das minhas ancestrais paternas.  Nasci em Itaqui, que significa “pedra boa de afiar”, pedra d’água, pedra rolada, moldada no rumo das correntezas, das águas que nunca param.  Nasci num lugar que me ensinou a estar sempre bem afiado diante do destino e a nunca parar, a buscar sempre o dia de amanhã.

Cresci em Uruguaiana, cidade que soube juntar o rio Uruguai à devoção pela Senhora Sant’Anna.  Aprendi a nadar nas suas águas, a favor da correnteza.  Aprendi a pescar nas suas margens os peixes esquivos e invisíveis.  Essas águas me ensinaram a seguir o curso da vida, a não me contentar com as superfícies, mas a mergulhar nas profundezas, lá onde a vida é arisca e primitiva.  Da Senhora Santa’Anna aprendi as difíceis artes da aceitação, da bondade e do perdão do mundo.

Tenho dito que sou um pequeno escritor de pequenos leitores, sejam adultos ou crianças.  Sou escritor numa pátria em que isso significa ser um ilustre desconhecido, e em que a leitura é uma prática minoritária, enquanto a tagarelice sobre a importância da leitura soa como uma retórica abusiva.  Não que os escritores precisem ser elevados a celebridades, mas que também se celebre, em todos os meios, a capacidade de cerebração, a atividade intelectual e artística que se manifesta pela palavra literária.  Para que a leitura, com efeito, e com afeto seja uma prática social relevante, é necessário o reconhecimento dos que criam conteúdos de leitura, os escritores.

Nesse contexto, ser escolhido patrono é um presente que se ganha uma só vez, mas que vale por uma vida inteira.  Abrange os significados de reconhecimento e de homenagem, que não se pede, não se exige, não se espera, mas que se sonha.  Embora meus crimes cometidos contra a língua portuguesa, hoje estou patrono e baterei a sineta na praça.  Baterei a sineta com entusiasmo e pulso para que o seu som chegue ao coração da Feira, desperte mentes adormecidas, alegre o riso e a fantasia das crianças e chame homens e mulheres para a festa civilizatória do livro na praça.  Vou caminhar pelas alamedas e chamar os artistas das palavras.  Poetas, contistas, romancistas, cronistas, dramaturgos, trovadores, oradores, cantadores e contadores.  Vou pedir que eles nunca deixem de incendiar as suas asas imaginativas para nos conceder o dom de visitar as regiões mais profundas da nossa subjetividade, conduzidos por suas palavras.

 

      

 

Quero ser o anfitrião da casa dos livros, da mesa farta de leituras, dos novos mundos que se abrem num virar de páginas.  Quero visitar os livreiros, esses vendedores de sonhos, de encantamentos, de novas hipóteses de vida.  Esses, cujo negócio não cria fortunas de papel-moeda, mas que nos transferem tesouros de papel que se convertem em conhecimento, entretenimento, saber, cultura e arte.

Desejo receber cada leitor que vá à praça, movido pela busca de uma palavra nova, lúcida, terna.  Vou pedir no ouvido dos adultos e das famílias, pais, mães, tios, tias, madrinhas, padrinhos, que eles apresentem o livro para as suas crianças.  Que leiam para elas e com elas, e descubram, juntos, a magia da palavra viva, de coração a coração.  Vou oferecer minhas mãos agradecidas diante do olhar luminoso e do carinho das professoras, porque conheço as suas almas de aves que proclamam a palavra poética no cotidiano das suas salas de aula.  Sim, a palavra poética, que reinventa e celebra a vida.

Serei aquele, em busca da palavra.  Aquela, que expresse ternura e lucidez.

 

Fonte:  Correio do Povo/caderno de Sábado em 24 de outubro de 2015.