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Desabafo de uma Professora por Suely Sette
Desabafo de uma Professora por Suely Sette

DESABAFO DE UMA PROFESSORA POR SUELY SETTE

Quantas vezes precisei refazer trajetos.
E em todas às vezes fiz com o mesmo entusiasmo. A paixão que me levava, era a certeza e a vontade de mudar a face das coisas que me encaravam desafiadoramente.
Quantas vezes, num pretexto bem organizado de arrumar a sala, eu conseguia arrancar de meu aluno lágrimas de alívio, ao partilhar comigo os desalinhos de sua vida tão covardemente atropelada pela falta de estrutura familiar e social. Convivi com realidades cruéis e brutais que me faziam gelar a alma.
Precisei ser firme, forte, corajosa!
Eu pisava com amor e cuidado em coraçõezinhos sofridos, e muitas vezes já embrutecidos pelas mazelas da vida.
Eu varava madrugadas elaborando trabalhos adaptados a realidade de meus alunos.
Eu precisei trazê-los para a minha casa e muitas vezes dividir com eles mais que o pão que mata a fome. Dividia o pão da cultura que trazia a confiança antes tão fugidia.
Trabalhei com realidades cruéis!
Vivi momentos de riscos e apreensão!
Chorei sozinha a dor que ali também era minha.
E quantas vezes um processo iniciado, já em andamento, precisou ser interrompido pela desumana lei da contratação.
E eu mais uma vez via nos olhinhos que me interrogavam perguntas que eu não tinha como responder.
Sem condições de parar de trabalhar e acreditando no ideal que ainda hoje me preenche, eu recebia em minha casa os que podiam comparecer.
Era a hora de fazer do cansaço a força para continuar.
Enfim, entre escolas de teatro fundadas na raça e peças duramente encenadas, que ainda tenho gravadas em fitas cassete eu olho o passado e me convenço que dei o melhor de mim.
Sei que consegui semear ideais e com eles contribui para realização dos sonhos.
Sei, pois muitos desses sonhos vieram ter comigo mais tarde na pessoa de um dentista, médico, policial e na nobreza de um atendente de hospital que ao me reconhecer disse:
- Eu não desisti professora, estou estudando tarde, mas eu chego lá! 
Realidades assim é a força motriz que me faz continuar.
Os que não pude acompanhar, estejam onde estiverem, se os encontrar um dia me olharão nos olhos, e bem lá no fundo hei de ver a semente ainda viva, com vontade de mudar o mundo.
Se eu pudesse recolheria hoje meus meninos, e mesmo sem conhecer suas vidas, seus caminhos eu os abraçaria com um nó na garganta, e a certeza de que na cartilha de suas vidas contaram roteiros próprios, diferentes e profundos.
Se um pedido mais, Deus me concedesse, eu pediria para cada um deles, um anjo capaz de soprar-lhes na alma a chama que deixei, assim viveria com a certeza que vingou em suas vidas a semente plantada.
Procurei em meio a todo tipo de dificuldade sobrepor-lhes a coragem de prosseguir. Fui às casas, algumas sem nenhuma estrutura, só dificuldades. Guardei cada rostinho, lembro-me deles com carinho e vontade de rever um a um.
Uma lembrança me desperta, eu fui além das metas que tracei, lutei com toda coragem, superando adversidades. Sei que fiz minha parte e a paz que me invade me faz ver que eu consegui, combati o bom combate.
Deus que me ama e me vê, me dá a certeza de que eu fiz o que não pude, superei a mim mesma, isto é a verdade que me ajuda a viver!
Entre filmes, livros, músicas, como “Meu Guri”, de Chico Buarque de Holanda, eu levava para a sala realidades conhecidas para eles e com elas o combustível da esperança, fé e desejo de mudança.
A maravilha do esporte nas aulas de educação física, sempre contando com a ajuda valiosa de voluntários, heróis abnegados que davam mais que o tempo, a competência para apitar e dirigir o futebol e outros esportes que salvam vidas.
Procurei cursos que me levavam além de minha qualificação profissional. 
Compus com eles uma cartilha própria, real onde os textos apresentados nasciam das aventuras por eles vivenciadas e contadas nas rodas de convívio.
Ali nascia o jornalzinho do dia, editado ao vivo e vivenciado integralmente pelos protagonistas da vida real.
Dali saia o texto que mais tarde seria interpretado pela classe envolvida e empolgada, pois não era uma história de lago azul ou bosque florido. Era sim, a história de suas vidas desenhada na lousa, ilustrada em cada rosto encantado, que tocava na realidade exposta e partilhada em cada gesto, em cada palavra.
Assim vivi meu tempo de acreditar!
Assim vivo o meu tempo de esperar!
Assim sem ditados ou notas, sem rótulos ou números, vivi um tempo bom que vale ser lembrado.
Meu aluno tem nome, e a essência que é pessoal e intransferível.
Eu e minhas vivências!
Ditar palavras não poderia, pois sabia que nem sempre quem ouve entende o que foi falado.
Eu e meu carrinho de supermercado. Subia todos os dias as ladeiras que me levavam da escola para casa carregada de cadernos e em companhia da madrugada, vasculhava-os anotando de cada aluno a dificuldade apresentada. Isto era um parâmetro para as próximas aulas onde estas dificuldades eram discretamente trabalhadas.
Mais tarde nascia o projeto de trazer os pais para dentro da escola, da sala de aula. Isto fez toda a diferença, mudou mentalidades, apontou caminhos, promoveu e reaproximou pais e filhos. Foi um projeto abraçado por toda a escola, que contaminada pelos resultados foi parceira no processo de mudanças.
Obrigada meu Deus por cada intuição acertada!
Se mais ficou por fazer, sei que não foi por querer.
Fiz o que me competia na eterna vontade que ainda vive em mim, de fazer a diferença!
Obrigada Senhor por ser força quando esta me faltava!
Obrigada pelo pouco que ensinei e o muito que aprendi com cada anjo criança que cruzou meu caminho! 
Valeu a caminhada!
Obrigada!

Suely Sette 04/07/2014
Direitos autorais preservados.