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Crianças São Mais Livres na Periferia
Crianças São Mais Livres na Periferia

CRIANÇAS SÃO MAIS LIVRES NA PERIFERIA          

 

FUNDADORAS DO MOVIMENTO SLOWKIDS DEFENDEM MAIS TEMPO PARA BRINCADEIRAS E MENOS TAREFAS NA INFÃNCIA,

 

Em 2011, a produtora cultural Tatiana Weberman teve a ideia de exibir filmes ao ar livre, em parques.  O SlowMovie foi pensado para adultos, mas ela percebeu que as crianças se divertiam bastante no evento.

 

Por isso, junto à produtora audiovisual Juliana Borges, ela decidiu criar o SlowKids, em 2013, para estimular os pais a repensar a rotina dos pequenos.  Na visão delas, os pequenos estão sem tempo para brincar livremente.  Passam os dias divididos entre uma série de tarefas em lugares fechados e atrações exibidas em tablets, TVs e celulares.

 

Há três anos, o Slowkids faz campanha nas redes sociais para mudar o modo de agir dos pais e realiza eventos em parques de São Paulo com atividades para as crianças curtirem ao ar livre e “desacelerarem”.  Já foram seis edições, sempre gratuitas, que recebem até cinco mil pessoas.  A próxima será no último domingo do mês (maio), dia 29, no parque Villa-Lobos, zona oeste da cidade de São Paulo.

 

 

 

Por que as crianças brincam menos?

Tatiana:  As famílias transformam as crianças em miniexexutivos e enchem a agenda delas de atividades para suprir qualquer falta de tempo.  Pensam que se a criança está sem fazer nada, não está se desenvolvendo.  E é justamente ao contrário: a criança precisa desses momentos para estimular a criatividade, brincar, fantasiar, ter amplitude de percepção de espaço.

 

Juliana:  A criança brasileira é uma das que ficam mais tempo em frente às telas: média de cinco horas por dia.  Tem mães que dão tablete para crianças de dois meses, sendo que o ideal seja o uso após os dois anos de idade.  Hoje, 33% das crianças são obesas ou têm sobrepeso.  Isso é muito relacionado com ficar na frente do computador, do videogame.  A criança que sai, corre e gasta energia não vai ficar assim.

 

Como avaliam o uso das áreas públicas, como parques?

Tatiana:   Os momentos nos quais as famílias passam momentos de qualidade juntos, longe de aparatos tecnológicos, é hoje muito reduzido.  No parque, você vê os filhos brincando e o pai n o celular.  Os números são cada vez mais alarmantes: 80% das crianças passam menos de duas horas por dia ao ar livre. Elas estão muito enclausuradas.  Em vez de ir a um parque ou praça, as famílias preferem levar as crianças para shoppings, um ambiente marcado pelo consumo excessivo.  Nós estimulamos a troca de brinquedos em vez da compra.  O compartilhamento das coisas é o futuro.

 

A forma dos pais lidarem com as crianças muda de acordo com a região da cidade?

Juliana:  Sim.  Fomos em locais como Parelheiros e cidade Tiradentes e montamos a estrutura usada nos eventos em parques, o Erê Lab (espécie de playground).  A forma como eles brincavam lá era diferente das crianças da zona oeste.  Eles são mais soltos.  Aqui, os pais brincam mais junto dos filhos, às vezes querem interferir.  A criança quer seguir a trilha pela parte de baixo do brinquedo e a mãe manda ela ir por cima.  Lá, os pais deixam as crianças brincarem sozinhas e vão fazer outra coisa enquanto isso acontece.

 

Tatiana:  Na periferia, as crianças já brincam nas ruas, mas não têm acolhimento do espaço público.  Lá não tem essa questão da agenda superlotada.  Eles são mais livres, com m ais domínio corporal, pois sobem em árvores, brincam mais.

 

Vocês percebem resultados do trabalho realizado com os pais?

Tatiana:  Agora que começou a se falar sobre deixar as crianças brincarem.  Antes, todo mundo achava que estava tudo bem.  Mas aí vieram os casos de crianças com problemas de falta de atenção, que não querem brincar.  O trabalho que estamos fazendo é o de colher grãos para fazer uma grande feijoada, até as pessoas tomarem consciência e mudarem seus comportamentos.

 

Juliana:  Em um evento Slowkids, choveu e começaram a se formar poças de água, que viraram uma diversão.  Vimos muitas crianças rolando naquela lama, brincando.  Mas também muitos pais que não deixavam, diziam “cuidado, não vai lá, pula a lama, vai sujar o sapato”.  Já outros se divertiam juntos e ficaram tirando fotos dos filhos com o celular.

 

Tatiana:  Muitos pais não tem repertório de brincadeiras.  Vamos publicar no site coisas como “o que fazer com os filhos em casa quando chove”, com brincadeiras para fazer no parque, um piquenique legal, para munir os pais de informações.  Às vezes eles querem mudar, mas não sabem o que fazer.

 

 

 

Fonte:  Revista Folha de S.Paulo/Rafael Balago em 21 de maio de 2016.