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Cidades Invisíveis
Cidades Invisíveis

CIDADES INVISÍVEIS

 

Acaba de ser lançado no Brasil pela editora Carambaia, em edição de luxo e numerada, o livro SALÕES DE PARIS, volume que reúne as crônicas mundanas de Marcel Proust (1871-1922).  Publicados originalmente em jornais, muitas vezes sob pseudônimo, para não queimar o filme do aspirante a escritor sério, os textos falam de moda, costumes e maledicências cotidianas em geral, mas também de arte, literatura e política – nada muito diferente do que os cronistas de amenidades fazem hoje em dia, com um pouquinho mais de estilo talvez.

O escritor aproveitaria muito dessa rotina de locomotiva social (nunca teve um emprego fixo na vida) para recriar o ambiente onde se movem os personagens de sua obra-prima, EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO.  No livro, as idiossincrasias da aristocracia francesa do final do século 19 ganhariam densidade e profundidade psicológica.  O narrador já não era mais o garoto deslumbrado com duquesas, barões e seus salões refinados, mas um homem maduro lidando com as perdas e a decadência que o tempo costuma impor.  Viu nobres decaírem, novos ricos ascenderem, mulheres lindas ficarem caducas, homens invejados tornarem-se figuras dignas de pena.  Tudo o que um dia fora sólido desmanchava-se no ar – e em breve duquesas, barões, seus criados e ele mesmo estariam todos juntos embaixo da terra.

                          

O tempo achata tudo o que não é presente ou futuro em uma única dimensão – das pirâmides do Egito à casa da nossa infância.  Por conta disso, a Paris da Juventude de Proust e a Porto Alegre da minha dividem hoje o mesmo continente imaginário.  Há pistas nas cidades que as substituíram, mas boa parte delas se perdeu, morreu ou foi derrubada (muito mais aqui do que lá, infelizmente).  Foi o que pensei nesta semana enquanto assistia ao documentário UM FILME SOBRE O BOM FIM, do diretor Boca Migotto.  A certa altura da vida, percebemos que os cenários da nossa juventude vão desaparecendo, como uma estampa em um tecido exposto muito tempo ao sol.  No caso do meu Bom Fim, o Escaler, a rádio que deixou de existir, o cinema que fechou as portas, tudo isso permanece arquivado na memória afetiva de muita gente, mas está desbotando.

No final de EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, o narrador percebe que só há um jeito de manter vivos para sempre os salões mais chiques de Paris – assim como duquesas, barões e a sua juventude: transformando as memórias individuais em patrimônio coletivo.  Um filme sobre o Bom Fim faz mais ou menos isso por aquela Porto Alegre ingênua e rebelde dos anos 80.  A nostalgia do espectador talvez seja menos do bairro do que de si mesmo.  Como todas as nostalgias, essa é também apenas de fachada.  Mas não é sempre que um filme pode prometer para boa parte do seu público: acomode-se na poltrona, abra os olhos e volte no tempo.

 

Fonte:  ZH/Cláudia Laitano (claudia.laitano@zerohora.com.br) 29/8/2015