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Cibersolitários
Cibersolitários

 

CIBERSOLITÁRIOS

 

Esses dias eu estava em pé, na cozinha da casa da minha mãe, atrás de comida e teclando no iPhone, quando penetrou no recinto a Aracy, faxineira da casa e, antes de boa tarde ou qualquer coisa, saiu lascando: larga um pouco esse telefone, fala com a gente, hoje em dia fica todo mundo grudado no telefone.  Aracy tem 61 anos como eu e, como eu, trabalha, tem filhos, amigos, contatos, agenda cheia e, celular.  Aracy tinha razão.  Aí eu perguntei pelo Zé, marido dela, pela filha, netos, pelos parentes de Veranópolis e outros assuntos importantes.

Há anos alguém já falou que, na Web e nas redes sociais, a gente está sozinho e, ao mesmo tempo, acompanhado de milhões de outros sozinhos acompanhados por milhões.  Há décadas, o célebre pintor norte-americano Edward Hopper, com suas telas hiper-realistas, foi batizado de “o pintor da solidão americana”.  Ele retratava pessoas solitárias em quartos de hotéis, bares e calçadas de domingos, por exemplo.

Há décadas, Carlos Drummond de Andrade poetava sobre a solidão acompanhada nas grandes cidades e Mario Quintana escrevia que o único problema da solidão era como preservá-la.  Os poetas, antenas da raça, sempre adiante.  Só e acompanhado, sempre assim, desde o início, o ser humano.

A década de 1990 foi chamada de “a década do eu”, do “eu me amo”, não posso viver sem mim”, e agora entramos, definitivamente, na era da solidão acompanhada dos cibersolitários, dependentes de fotos, vídeos, WhatsApp, Facebook, Twitter, Instagram e outros meios de conexão e desconexão.  Quem não se comunica, se trumbica, nos ensinou o grande pensador, filósofo e mago da comunicação Abelardo Barbosa.

Pois é, estamos teclando mais que falando, estamos com mais vida virtual do que real.  Melhor abrir o olho.  O olho físico.  Se o Sérgio Porto chamou a TV de máquina de fazer doido, do que chamaríamos os smartphones que se tornaram atores principais dos nossos filmes, nos deixando como meros coadjuvantes ou nos permitindo, no máximo, umas pontas ou figurações?  Parece que ninguém é mais interessante que o smartphone, da manhã à noite.  Tomara que isso seja mentira, exagero, paranoia.

Em mesas de bar, restaurantes, quartos de hospital, sala de velório, suíte de motel, cinema, teatro, reuniões de família (família é quando uma pessoa ou grupo dorme debaixo do mesmo teto, com ou sem algum “pet”) em qualquer lugar, o onipresente e onisciente celular está.  Dr. Google faz o papel do velho “amansa burro”, Aurélio, dicionário, e dispensa a gente de andar com o CD da Encyclopaedia Britannica para saber de tudo e de todos, a toda hora e em todo lugar, tipo assim, Deus Nosso Senhor.

Tudo bem, o mundo digital é uma realidade ainda muito nova, com efeitos positivos e negativos ainda não suficientemente conhecido e avaliados, mas acho que a Aracy tem razão, melhor largar um pouco o celular e ter umas conversas de verdade sempre que possível.  Conversas com os outros, de preferência.  O psiquiatra, às vezes, é a última pessoa com quem tu falas antes de começar a falar sozinho.  Se cuida.

 

A PROPÓSITO...

O casal foi discutir a relação no restaurante.  Tocou o celular dela.  Atendeu.  Dez minutos de papo.  Tocou outra vez.  Atendeu.  Mais doze.  Ele queria falar sobre a falta de conversa entre eles.  Ligou para o celular dela, para garantir atenção.  Ela viu o nome e não atendeu.  Esperava ligação urgente da filha.  Sabia que a conversa dele ia ser longa e, possivelmente, chata.  Ele não deixou recado na caixa de mensagens e iniciou a falar sobre a escassez de diálogo do casal.  O celular dela tocou.  Assunto urgente da filha.  Atendeu, ouviu durante trinta e dois segundos.  Depois, passou a falar sem parar mais que o nego do leite e papagaio  de propaganda.  Ele conversou com o vinho.  Papo ótimo.

 

Fonte;  Jornal do Comércio/11, 12, 13/09/2015/Jaime Cimenti