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Carta para o Brasil por Lurdes Maravilha
Carta para o Brasil por Lurdes Maravilha

CARTA PARA O BRASIL

Meu prezado esposo
Espero que esta carta te vá encontrar de perfeita saúde. Eu e o nosso filho cá vamos andando bem graças a Deus. 
Como vais por aí no Brasil? Espero que estejas bem e que o teu trabalho esteja a correr como Deus quer.
António, sabes que o meu maior sonho é termos a nossa casinha. Esta ainda vai remediando para mim e para o pequeno. Por enquanto, o Tio Manel empresta-nos esta, mas um dia destes, tenho que lhe pedir para a colmar, porque no fundo da cama caiem umas pingas. Já arrastei a cama para o outro lado. No meu entender , este colmo, não se vai aguentar com as chuvas do próximo inverno. Tu sabes como são aqui os invernos. Contudo, confio em Deus Nosso Senhor e com a sua graça , o sol se encarregará todos os dias de a iluminar e a aquecer. 
Sabes António, o Tio Manel está igualzinho . O tempo não passa por ele. Ainda está aquele homem forte e continua a fumar a onça do tabaco no soalheiro da sua casa. A Tia Maria, está muito trôpega das pernas e já lhe custa muito a fazer o caldo. Pobre mulher, mal pode regar as sardinheiras. Um jardim tão bonito e está a ficar também mirrado. Como diz o velho ditado,” o tempo passa por todos”.
Aqui no nosso cantinho, oiço-os muitas vezes a resmungarem. O Tio Manel ainda gosta do caldo bem adubado, mas quando acabam de rezar o terço tudo se compõe.
Sabes que nas tardes de domingo, o pessoal ainda se junta no terreiro, e lá está o Tio Manel a beber uns copos e a tocar as modas no seu lindo realejo. Eu fico por casa ou vou com as cabras para o monte, mas o Tio Manel leva sempre o nosso menino. Ele gosta muito de o ouvir a tocar. É um homem que ainda vai alegrando a malta cá da terra. Quando vai à feira do "Crasto", nunca se esquece do nosso menino, traz-lhe sempre o biscoito que ele tanto gosta. Nunca se esquece dele! Um verdadeiro avô! O Tio Manel é aquele pai que eu nunca tive ,porque como sabes, assim que ele soube que a minha mãe estava grávida nunca mais quis saber dela. Também nunca o conheci , mas gostava muito de saber quem é o meu pai. A única coisa que sei é que ele viajou para o Brasil. Quem sabe um dia o encontres por ai. Deus lá sabe. Quem sabe!!
Meu estimado esposo, ainda que te diga e espero que não me leves a mal, tenho estranhado muito a tua ausência , pois desde que embarcaste para o Brasil, escreveste-me uma única vez. Já lá vão seis anos. Lembras-te? O nosso menino tinha um mês. E quando te despediste dele, parecia que ele falava contigo através do olhar desejando-te a maior sorte do mundo.
Está lindo o nosso pequeno! Muito lindo e trabalhador!
Este ano já vai entrar para a escola primária, mas já sabe rezar. A Tia Maria ensina-lhe muita doutrina. Todas as noites , no fim da ceia rezamos sempre o terço, pedindo ao Senhor que te traga de volta e que o nosso menino no futuro seja um homem. Como está grande este rapaz! 
Já falta pouco para abrir a escola. A festa da Nossa senhora da Ouvida também está à porta e o tempo é vê-lo passar. Não te preocupes, a Tia Alzira deu-me uma saia velha e com ela já costurei uma mala muito bonita para que o nosso rapazito possa levar os livros e a lousa. O pequeno também me vai cá fazer muita falta, mas este ano ainda me vai ajudar a colher o milho. 
O milho está fraco. A seca foi muita. Este ano, os porcos não vão poder engordar e o unto terá que ser bem governado.
Sabes que eu quero muito que ele faça a quarta classe e que não fique um analfabeto como a mãe. Daqui por uns dias vai ser ele a escrever as nossas cartas. E quando ele já souber, escuso de pedir à nossa vizinha porque ela vem a casa uma vez por mês e além de estudar tem que ajudar os pais nas lides. Ela escreve muitas cartas e nunca diz um não a ninguém.
Amanhã vou levar esta carta ao tio zé e lá seguirá se Deus quiser o seu destino.
Fico com saudades, à espera da resposta a esta minha carta.
Ainda não te disse que todos os dias , à mesma hora, quando o Tio Zé chega com a mala do correio, no seu lindo cavalo, eu já estou no meu cantinho, a espreitar para ver se ele nomeia o meu nome.
Ele abre a mala, retira o maço das cartas, compõe os óculos e todos se calam .Os pescoços esticam-se e as orelhas fitam-se para que nenhum ruído seja mal interpretado . Neste silencio, o Tio Zé vai distribuindo carta por carta, vivendo as alegrias e as angustias dos seus amigos e conterrâneos, todos os dias ali presentes.
Fico sempre para o fim e na luz da minha esperança, ainda peço ao Tio Zé para espreitar bem o fundo da mala, mas por mais que ele a revire com o olhar, a mala fica sempre vazia. E neste vazio, fico também à espera que um dia me respondas e voltes para que o nosso filho te possa conhecer.

Por hoje termino esta carta. Recebe um abraço saudoso do teu filho e outro desta tua esposa que muito te estima.

 

Por Lurdes Maravilha  e sua foto inédita na Aldeia de Colo de Pito.