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Bullying em 1964! por Elton da Fontoura
Bullying em 1964! por Elton da Fontoura

 

É inadmissível que uma pessoa, principalmente um Escritor, não seja, se não voraz, um insaciável leitor. E assim deverá ser para todo o sempre.

Dias atrás fui convidado a orientar uma senhora, mãe de dois filhos pequenos, a usar o básico do computador. Perplexo, descobri que não havia um único livro no interior daquela casa. O inadmissível também acontece!

Minha história como Escritor é recente. Escrever um livro, construir uma história, só pôde se concretizar graças aos retalhos de papel que compus desde tenra idade, e logicamente, à leitura.

Segundo o Escritor e Pensador inglês, Samuel Johnson(1765), a maior parte do tempo de um Autor Literário, é atuar como leitor, revolver no mínimo, metade de uma biblioteca, para criar nem que seja, um só livro. Os Escritores contemporâneos possuem a tecnologia virtual ao seu favor.

Se minha história como Escritor é recente, a de leitor aproxima-se do cinquentenário, com direito a prefácio trágico e epílogo dramático.   

Aos seis anos de idade, fui matriculado no primeiro ano primário em um colégio Marista, sem conhecer absolutamente nada sobre a arte de ler. Inclusive, estive ameaçado de repetir o ano por não ter assimilado o fundamento da leitura. Repetir o ano? Um procedimento utópico nos dias de hoje!

Diariamente o irmão Mário, professor que usava um hábito preto, emoldurado pelo litúrgico colar branco em volta do pescoço, chamava os alunos com maior dificuldade para lerem diante dos demais. Eu sempre estava incluído na chamada, óbvio!

 Subíamos o tablado com as cartilhas abertas, e tentávamos soletrar aquele emaranhado de palavras. Eu até achava que sabia ler, o que me atrapalhava eram as letras!

Alguns alunos conseguiam, e eram convidados a sentar. Os demais, permaneciam sofrendo gozações generalizadas, próximas ao bullying atual.Hoje, curtindo minha velhice,recordando o trauma da época, suspeito que sozinho no meu quarto, com o mínimo que já havia assimilado, teria sucesso. Eu era extremamente encabulado diante de plateias acima de duas pessoas. Quando me tornei professor, foi sem sombra de dúvida, o paradoxo da contradição. Minha saudosa mãe diria: a dor ensina a gemer.

Dando sequência, foi ao apagar das luzes que uma luz se acendeu. Escrevi um pleonasmo eu sei, mas foi o que de fato aconteceu. Era a penúltima chamada naquele final de ano. De quarenta e tantos alunos, apenas três foram convidados a subirem o palco. Logicamente, um deles era eu!

Posicionei-me e encarei os rivais torcedores. Não eram apenas as pernas que tremiam. Fui o primeiro a receber ordens de ler a cigarra e a formiga. E de repente, não mais que de repente, até eu me surpreendi! Consegui ler uma palavra, uma frase, duas linhas, um parágrafo. Eu havia assimilado, por encanto, a junção e fonética das letras! Hoje tenho consciência de que o Irmão Mário, durante o ano letivo, me apresentou o bê a bá, mas quem me ensinou a ler estava ao meu lado, invisível. Fantasias de Escritor? Tenho convicção que não! Os invisíveis, não só nos ensinam a ler, como instruem muitas outras coisas ao longo de nossa vida, quando por dificuldades justificadas ou necessidade extrema, merecemos aprender. Acredite se quiser!

 Dando continuidade, ouvi aplausos somente do Irmão Mário. Aplausos inaudíveis certamente eclodiram, mas nem o meu discernimento atual seria capaz de ouvi-los.  É preciso mais do que maturidade para escutar o lado de lá.

Os olhos de uma criança, com quase sete anos, conhecia naquele momento, a mediocridade comportamental de uma sala repleta de alunos decepcionados! O bullying havia acabado! Esta cena jamais saiu da minha memória.

O sino soou anunciando o final da aula. Reuni meus materiais, guardei-os de qualquer jeito na pasta e ao invés de aguardar o ônibus, preferi caminhar, aproximadas dez quadras até em casa. A euforia caminhava ao meu lado. E não houve durante o percurso, aglomerado de letras que eu não havia lido, ou tentado pelo menos.

Vieram às férias, e o compromisso aumentaria ao ingressar no segundo ano primário. O desafio porvir era escrever o que aprendera a ler.

Minha mãe então criou uma estratégia rara para manter o meu recém-aprendizado. Serei pretencioso se substituir rara por inédita?

Eu precisava valorizar o meu recém-aprendizado. No entanto, estar parcialmente alfabetizado, na minha cabecinha, ainda era uma atividade lúdica.

Por curiosidade, busquei em uma pilha de livros, o acervo do meu pai. Eram na totalidade, livros kardecistas. Fui logo alertado que ainda não era o momento. Lógico que não era! Só consegui assimilar que aquele português era outro idioma.

Vieram então os gibis do Walt Disney, obtidos por meu saudoso pai, ou arrecadados na vizinhança. Porém, em outra valiosa arrecadação, me tornei voraz por leitura: Batman, Superman, Fantasma, Zorro cowboy, Zorro de espada, e outros heróis do tipo. Reconheci que a partir daquele momento, havia adquirido um conhecimento que jamais foi superado: Saber ler, compreender e acompanhar o que lia.

Em fevereiro, no meu aniversário, recebi do padrinho meus primeiros livros, cada qual, com mais de trezentas páginas: Moby DickTarzan e A Ilha do Tesouro.

Neste meio tempo, em uma manhã chuvosa, interrompi a leitura para atender um pedido de minha mãe.

− Filho! Preciso fazer o almoço. Lê o jornal pra mim?

É lógico que não me neguei, mas fiquei surpreso. Jornal? Leitura de véio?

Estrategicamente, ela me pediu que lesse as notícias do nosso time, ela que nunca se interessou por futebol. Procurei a palavra Grêmio nas manchetes e li todo o noticiário. É evidente que muitas perguntas eu fiz.

Ela interrompia seus pensamentos e olhava pra mim.

− Lê antes!

Eu relia, e ouvia o significado sobre aquela palavra, sinônimos e até analogias. Quando não sabia, me pedia que sublinhasse para perguntar ao pai à noite.

Foi com estas perguntas noturnas, que fui orientando a consultar o dicionário. Levei algum tempo para assimilar o uso do amansa burro, como dizia meu pai, mas nunca desisti de tentar ou procurar ajuda, e assimilar o mistério ordinário das primeiras, segundas, terceiras letras... Em poucos dias, havia decorado o alfabeto.

Quando já estava prestes a concluir o segundo ano, a professora, que não era uma freira, resolveu nos desafiar: A primeira Redação.

Lembro-me que anos mais tarde, surgiu a Dissertação. Algum tempo depois, foi substituída por Composição. Técnicas diferentes? Não! Seis por meia dúzia.

Dando continuidade à Redação, o tema era: O Índio. No frigir dos avos, a primeira Redação a gente nunca esquece, mas era na verdade, um auto ditado, com raras conjunções. Uma espécie de explanação sem recheio, lógico! 

De forma instantânea, me veio à mente como se fosse memória fotográfica, o gibi do Zorro e seu cavalo Silver. Atentem que não é o Zorro de espada com o Tornado.

As estórias do Zorro cowboy eram repletas de rivalidades contra as tribos Comanches e Apaches. Mas havia, eventualmente, histórias líricas, já que Tonto, o fiel companheiro Apache do Zorro, envolvia-se com seus conterrâneos e ancestrais.

Continuando a Redação, segurei o lápis com a minha canhota, e comecei a descrever as aldeias indígenas americanas, com detalhes do ambiente, moradia, vestimentas, acessórios e costumes, além das armas de pesca, caça e guerra. Estava tudo registrado na minha lembrança. Viajei, não na maionese, mas às páginas dos quadrinhos editados na época em preto e branco.

Algum tempo depois, minha viagem foi interrompida quando o sino soou. Ao erguer a cabeça, constatei que a professora, com os braços cruzados, estava paralisada ao meu lado, com expressões de surpresa. Alguns colegas, em frente e no outro lado da classe, estavam estáticos, me olhando.

Com os olhos arregalados, gaguejei:

− Que que foi?

Ela sorriu e apanhou delicadamente o meu caderno. Começou a folhear. Eu havia escrito seis páginas.

Alguns dias depois, em uma visita de minha mãe à escola para saber do meu desempenho até então, a professora revelou com moderada exaltação, que a redação mais próxima à minha, em termos de conteúdo, não havia preenchido meia página.

− Ele lhe falou mãe, do desentendimento que tivemos na sala de aula dias atrás?

Minha mãe oscilou a cabeça afirmativamente.

Era o segundo conflito que eu promovia diante dos mestres daquela escola.

Alto lá! Dois desentendimentos com mestres da escola? Guri problema? Quais foram eles?

Voltamos ao primeiro ano primário, mais especificamente, ao primeiro dia de aula da minha atual existência.

Foram meses de preparação psicológica que antecederam esta inesquecível data. Lembro vagamente ter ouvido de meus pais, o alerta para dois problemas que fatalmente eu iria enfrentar: Primeiro, minhas primeiras horas sem a presença deles, e segundo, o preconceito que na época ainda existia contra os canhotos. No dicionário, quem usa o braço direito é destro, quem usa o esquerdo é sinistro!

Há no prefácio de minha atual reencarnação, uma passagem que ocorreu quando eu tinha um ano, um pouco mais! Fui presenteado pelo padrinho com um kit. Um prato, com algum desenho infantil, uma pequena mamadeira e uma colher de metal com a concha virada, para que a criança não necessitasse dobrar o braço ou a mão. Foi neste dia que descobriram que eu era sinistro!

Dando continuidade à primeira aula, no pátio do colégio, fomos instruídos a fazer fila e tomar distância. O irmão Mário me ordenou que usasse o braço direito para regulamentar o afastamento correto do colega da frente. Olhei para os demais, e os imitei. Mas nem por isso chorei, como muitos desesperados. Inclusive, um ruivinho atrás de mim, berrava! Olhei para um pretinho mais a frente, e sorrimos. Grande parte daqueles guris, não foram devidamente preparados para separarem-se algumas horas de seus pais.

Subimos em fila ao primeiro andar. Deveríamos entrar na aula em silêncio, mas lágrimas ainda gritavam. Escolhemos nossos lugares. Sentei-me na primeira classe central, ao lado do ruivinho, que ainda chorava.

O Irmão Mário ordenou que nos levantássemos para rezar o Pai Nosso. Após concluirmos, a ordem era que todos sentassem menos eu.

− És muito grande para ficares na frente. Lá atrás há um lugar vago.

Retirei a pasta no subsolo da classe e me encaminhei para o fundo. Voltamos a sorrir! O lugar vago era ao lado do pretinho. Dois preconceitos estavam naquele momento, solidificando uma forte e duradoura amizade. Eu e o Sadi, o sinistro e o negro,fomos colegas de classe, até o quinto ano.

Antes de mandar suspender o choro que persistia, o Irmão Mário apontou pra mim e perguntou:

Como é o teu nome?

− Elton.

− Levante-se e faça o sinal da cruz.

Olhei para o Sadi. Pus-me de pé, e pausadamente executei o sinal sagrado, tentando descobrir onde eu havia errado.

− Com a outra mão! – Ordena enérgico o padre.

Minha memória fotográfica firmou a imagem dos meus pais me alertando sobre a perseguição aos sinistros.

“Eles não vão aceitar que tu escrevas com a esquerda. Vão tentar te mudar, mas tu não deixas. Diga: Deus me fez canhoto de pé e mão!”

E então eu criei meu primeiro desentendimento com o mestre Irmão Mário. Refiz o sinal, com a esquerda.

O padre engatou a primeira e em desabalo parou diante de mim, segurando com força o meu braço direito.

− É com esta mão!

O meu sangue Farrapo deve ter fervido, porque voltei a fazer com o esquerdo, e acrescentei:

− Deus me fez canhoto de pé e mão!

O mestre se encanzinou.  Pegou-me pelo braço, não lembro qual, e me puxou em direção à porta gritando:

− Fiquem em silêncio.

Desci as escadas sendo literalmente puxado. Quando alcançamos o pátio, desembocamos diante de bancos onde estavam conversando várias mães, entre elas, a minha.

O Irmão Mário abriu uma das folhas de uma grande porta dupla, e me levou a cabresto para a sala do Diretor. A esta altura, minha mãe já estava quase nos alcançando. Entrou praticamente junto.

− O que aconteceu com meu filho?

O padre ignorou a pergunta e dirigiu-se ao superior.

− Ele não acatou minhas ordens Diretor?

− E que ordens foram estas, Professor? – Perguntou minha mãe.

− Ele se recusou a fazer o sinal da cruz com a mão direita.

Ao relembrar aquele diálogo, percebo a ignorância, a imaturidade evolutiva de um sacerdote. Graças a Deus, tive uma educação sólida. Poderia ter crescido complexado, poderia ter questionado e culpado o criador. Estávamos em 1964!

Voltando a minha mãe, ela aproximou-se da grande escrivaninha, e falou resoluta.

− Meu filho nasceu e vai continuar canhoto. Se vocês são preconceituosos e irão persegui-lo, eu tiro ele do colégio agora.

Não tenho notícias do Colégio São João, mas no ano de 64, era uma das mais conceituadas Escolas de ensino particular de Porto Alegre.

A ameaça da minha Godinha, apelido carinhoso que eu chamava minha mãe, fez com que a imaginação dos irmãos maristas idealizasse o cofre se abrindo, e algumas cédulas e moedas saíssem voando pela janela.

Moral da história? O sinistro nunca mais foi perseguido.

De quarenta e poucos guris que frequentavam a minha turma, somente eu era canhoto, e o Sadi, o único negro. Fomos companheiros de classe, e grandes amigos, durante os próximos cinco anos.

De lá para cá, os canhotos foram se multiplicando, e eu já não estou sozinho no mundo.

− Tá, e o outro desentendimento qual foi?

− A inocência de um aprendiz a leitor, diante das manobras publicitárias.

No dia em que a Irmã Dulce, a professora, devolveu as Redações corrigidas, notei que havia vários erros assinalados em vermelho, apesar do conceito Ótimo, desenhado no topo da página. Guardei-a dentro da cartilha.

À noite, após conferir e elogiar meu desempenho, meu pai sugeriu que eu pesquisasse no amansa burro, a grafia correta das palavras que eu havia errado e reescrevesse no caderno para mostrar à professora.

Lá pelas tantas, encontrei um substantivo que foi assinalado como erro. Eu tinha absoluta certeza que havia escrito certo. Não conferi no dicionário e passei adiante, me sentindo orgulhoso por ter descoberto o equívoco da Irmã! – Devaneios de guri!

No dia seguinte, ao entrar na sala de aula e antes de ocupar meu lugar, cumprimentei a Irmã Dulce, sentada atrás de sua mesa. Nunca ousei perguntar por que irmã, se não estava vestida de freira. Outra vez, devaneios de guri!

Coloquei a redação sobre a mesa, e interpelei por que a palavra flexa estava errada.

− Porque se escreve com ch!

− Não senhora, é com x!

Ela insistiu e eu continuei convicto, categórico.  Voltei a abrir a pasta e retirei um gibi do Zorro de espada. Na quarta capa, havia uma publicidade. Uma indústria que fabricava utensílios plásticos denominada Flexa Carioca. Acredito que já tenha sido extinta.

A Irmã Dulce sorriu, ergueu-se, alinhou meus cabelos, e pediu silêncio à turma.

Após me deixar encabulado, mostrando aos meus colegas as seis páginas que eu havia escrito, ela tentou da forma mais didática possível, diante de nosso rudimentar conhecimento, explicar que logo marcas não possuem uma regra formal, podendo se apresentar com diversas grafias e até letras, que na época, ainda não figuravam em nosso alfabeto. 

Eu entendi, mas não aceitei.  Rebelei-me, desta vez com palavras de indignação e não apenas com gestos, como ocorreu com o preconceituoso Irmão Mário.

Aos sete anos, descobrira que algo fervia dentro de mim. Hoje eu sei que corre nas veias, o sangue Farrapo, revolucionário, excêntrico e idealista, responsável pelas dificuldades extremas que sou obrigado a aceitar, além das inconformidades sem fundamento e injustiças. Hoje, o véio pensador, recorda que o sangue que ferveu muitas e muitas vezes durante minha atual existência, ferverá até o Patrão Maior me chamar, porque as inconformidades e injustiças que desfilaram e desfilam na minha estrada, são infundadas, cruéis e infinitas.

Minha rebeldia diante da Irmã não continha fundamentos externos. A culpa, logicamente não era dela, mas unicamente do que o guri, inexperiente, enxergava como correto.

“Como eu vou aprender desta maneira? Não se escreve do jeito que leio?”

Eu parecia um político bem intencionado na tribuna, defendendo uma emenda. Político bem intencionado é ficção, mas em 1965 quem sabe houvesse!

Foi difícil me convencer a sentar para que ela desse início a aula. Devaneios de um guri?

Deveria ter mostrado meu descobrimento a meu pai, antes de bater boca com a doce Irmã Dulce.

Li muitos livros, revistas e jornais, próprios e impróprios, durante estes cinquenta anos como leitor. Escrevi muitos retalhos em folhas soltas, pequenas crônicas e artigos aqui e ali, como um anônimo autor.

Muitas leituras alcançaram o epílogo. Escrevi e concluí muitas ideias. Mas, de forma natural, fechei prematuramente vários autores, além de enviar à lixeira, infinitas bolas de papel. Hoje analiso que o processo de ter lido e escrito sistematicamente, foram os exercícios essenciais para a formação de um futuro e pretencioso Escritor.

Com os pés mergulhados na fria e salgada água do Balneário Gaivota em 2012, aos 54 anos de idade, devaneios literários assolaram minha mente investigativa. Olhando o horizonte, um roteiro criou-se por encanto. Saí das águas, atravessei a ponte, e voltei para casa. No caminho, o roteiro se estendeu.

De repente surge aos meus pés, submersos na gélida água à beira mar, uma lendária garrafa de Tequila.

Segundo o estiloso rótulo, ela partiu da região da Ligúria, na comuna italiana. Dentro dela, havia um fragmentado pergaminho, supostamente forjado em pele de cordeiro. A composição da água marinha a tornou inviolável.

Fui até a pedra da noite e quebrei-a. Enterrei os cacos, sentei-me na areia e li o que parecia um presságio: “Sonhe em ser Escritor! Ass.: Gênio de Rua”.

Desde guri, escrever migalhas de letras em retalhos de papel, foi um hábito impulsivo, pois a vida estabelecia prioridades. Compromissos familiares, profissionais e sociais, sempre me afastaram do solitário e comprometido ambiente de um autor literário.

Ao me aposentar, decidi morar sozinho, a três minutos do mar. Da noite para o dia, me senti perfeitamente ambientado à solidão.

E foi neste silencioso balneário, que o Filme de Letras começou a ser projetado em minha mente investigativa.

Escrever o que foi publicado em Gênio de Rua, tornou-se mutável, paliativo, apesar de todas as cenas terem uma fundamental relevância no todo da história. Porém, o que ocorreu nos bastidores, e nos arredores dos cenários ali descritos, não foi nada paliativo, pelo contrário, tornou-se definitivo, irrevogável, eterno.

O mar testemunhou, do além e aquém, o primeiro roteiro mental de @ à Quiara.

− E-mails à Quiara?

Este foi o primeiro título de Gênio de Rua. Calisto enviaria mensagens eletrônicas à Quiara, sobre os mais diversificados assuntos, e caberia a ela, concordar ou não, contrapor, criar um clima de atrito, resmungos, até permear o inevitável romance. Seriam apenas os dois, cambiando “pseudofilosofias”.

 E foi assim que me vi diante do computador, compondo o roteiro do meu primeiro livro. Não imaginava que seria o primeiro, nesta reencarnação.

Após concluir o itinerário dos assuntos a serem abordados, o capítulo um teve início. Porém, absolutamente nada do que fora programado, aconteceu. Uma reviravolta de trezentos e sessenta graus foi o que aconteceu, e o destino da história, por conta própria, tomou um rumo literalmente inusitado. Acreditem se quiserem!

As letras, palavras, frases, parágrafos, páginas, foram sendo preenchidas por ideias que se acumulavam ordenadamente, como se fossem ditadas. Caso tenha sido psicografado, não serei surpreendido.

Personagens começaram a surgir por todos os ângulos possíveis, e uma história com pinceladas de história, começou a moldar-se. Quase cento e quatro mil palavras foram escritas, distribuídas em setenta e três capítulos, quatrocentas e cinquenta e duas páginas.

Mas em muitas atribulações de percurso, eu tropecei. Logicamente, era presumível que isso ocorresse.

Os Bastidores de um Escritor possui alguns fragmentos que são comuns a todos os autores literários, mas, também é verdade, que cada um deles possui suas peculiaridades, assim na terra, como no céu.

Surge o Balneário Kaburé, um cenário fictício, no meio do nada e próximo à coisa nenhuma. Fictício?

Afora o nome, o Balneário Kaburé, localizado no litoral sul do Rio Grande do Sul, poderia não ser fictício, se não estivesse esquecido e adormecido em um ambiente inóspito!

Mas este livro não tem nada a ver com esta crônica, embora, pensando bem, tem tudo a ver!