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Boa Viagem! Por Solange Depera Gelles
Boa Viagem! Por Solange Depera Gelles

Boa Viagem!

(Solange Depera Gelles)

Luana entrou no quarto de Sarah sem bater na porta. A moça estava olhando a agenda.

- Está triste?

- Não mãe. Só estava pensando que poderia ser diferente.

- Diferente como?

- As pessoas não deveriam saber o dia de sua viagem.

- Nos antigos escritos consta a história de uma mulher que perdeu o filho de uma maneira trágica. Revoltada ela olhou para o céu e começou a brigar com Deus. Disse que era injusto perder o filho de maneira tão dolorosa, sem aviso, sem preparo. Logo em seguida, arrependeu-se e chorando pediu perdão. Deus começou a falar com ela. Perguntou-lhe como seria a maneira correta de morrer. E ela humildemente respondeu que deveria ser como uma viagem, com festa de despedida, preparo da família e amigos para aquela viagem sem volta. Deus pensou por uns minutos e decidiu que iria fazer um teste com a sugestão da mulher. O teste ficou para sempre. As pessoas recebiam ao nascer uma agenda com a data de sua viagem, então, todos começaram a fazer boas ações, as pessoas começaram a amar-se mais, respeitando o próximo porque sabiam que um dia partiriam.  Enfim, foi muito melhor que o esperado.

- Essa palavra morte é muito forte.

- Forte e desagradável. Acho que eu prefiro assim. Quando seu avô viajou, eu pensei que iria chorar, mas ele estava tão feliz ao entrar no trem. Eu e minha mãe ficamos acenando até o trem sumir na curva.

- Você chorou?

- Chorei, porque ele ia viajar e o bilhete era só de ida. Mas aonde quer que ele esteja, sei que está muito bem.

- Eu não queria viajar agora! - lamentou Sarah.

- Sua passagem aqui foi tão linda. Se eu pudesse iria em seu lugar.

- Tem razão, minha passagem foi muito linda! Fui tão amada, foram 19 anos de felicidade. Será que vou gostar de lá?

- Não sei responder isso, mas sei que daqui quatro anos estarei lá com você.

- E lá, você será minha mãe ainda?

- Acredito que não, lá seremos almas irmãs. Na verdade aqui já somos almas irmãs. Eu não poderia ter recebido de Deus filha melhor que você!

- Vou sentir sua falta!

- Também sentirei a sua, fazemos tantas coisas juntas...

- Faltam dois dias para dia 14.

- Vamos dar uma festa ou você prefere algo só para a família?

- Vou me encontrar com meus amigos amanhã à tarde. Podemos jantar naquele restaurante japonês que você gosta?

- Vou ligar para a vovó e combinar.

Luana saiu do quarto e viu Sarah ajoelhar-se para fazer uma prece de agradecimento.

No dia seguinte Sarah encontrou-se com os amigos, foi uma farra. Acabaram chorando porque não iriam mais ficar juntos. À noite o jantar foi como uma volta ao passado, cada momento de Sarah foi contado detalhadamente pela avó, pela mãe, pelo pai e por seu irmão mais novo.

Finalmente dia 14 chegou. Na estação, a família e algumas amigas mais íntimas não cansavam de abraçá-la. O trem chegou e várias pessoas embarcaram. Sarah deu um último abraço em sua mãe e ao entrar no trem esbarrou em Alessandro.

- Desculpe. - disse Sarah sem jeito.

- Foi um prazer. - respondeu Alessandro.

- Um prazer?

- Um prazer, pois graças ao seu esbarrão terei companhia durante a viagem, eu posso sentar com você?

- Claro! Meu nome é Sarah.

- Eu sei. - respondeu Alessandro.

- Como sabe? - perguntou Sarah.

- Está é minha agenda. Veja no dia 14.

Sarah abriu a agenda de Alessandro   no dia 14 e estava escrito:

“Viajar com Sarah”

Os dois se olharam e sorriram. Sarah entendeu que a viagem não era o fim, e sim o começo. Um belo começo!

Na estação sua mãe disse baixinho quando o trem fez a curva:

- Boa viagem!