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Bier! Um Conto de Elton da Fontoura
Bier! Um Conto de Elton da Fontoura

BIER!

 

Nathália, sentada em torno de uma minúscula mesa no fundo da lanchonete, demonstra o lado impaciente da incerteza. Quando não está com sua atenção focada no celular, acompanha o movimento de veículos e pedestres pelo vidro embaçado da grande janela ao seu lado.

Muitos minutos se passam, até que outra adolescente, Greice, exausta, invade o corredor e para diante dela.

− Oi Nati, desculpe o atraso!

Vagarosamente, Nathália ergue as sobrancelhas e olha para o relógio de pulso. Greice implora:

− Já pedi desculpas! Não me xinga outra vez!

− Já estou acostumada. Fui apenas conferir se a tua média de atraso continua estável. – Esboça um disfarçado sorriso. − O que houve desta vez? Outro lobo-marinho encalhado?

Greice desvencilha-se da mochila e atira-se no assento em frente.

− Pesquisas de última hora. – Ouve-se um profundo suspiro. − Desta vez a onda não encalhou ninguém, mas me trouxe um presente!

− É mesmo? Deixa ver se adivinho! Um deus marinho, mixado pelo encontro da água salgada com a água doce, provindo da Mesopotâmia!   

Greice olha para a amiga, mostra a língua, e encena feições de deboche. Abre o fecho superior da mochila, e de lá retira uma garrafa, colocando-a sobre a mesa.

Nathália petrifica-se no verde escuro do casco, estende o braço e apanha o vasilhame, detalhando o estiloso rótulo, um pouco deteriorado.

− Bier Straße Kilchberg. Zofingen, Suíça. – Olha intrigada através do vidro. − Bier Straße Kilchberg? Não conheço esta cerveja.

− Estrada da Cerveja. Esse “ß” no Strabe, são dois “ss” no idioma alemão. Strasse significa Estrada. Zofingen é uma comuna localizada no cantão da Argóvia, na Suíça.

Nathália, surpresa, volta a olhar o rótulo.

− Obrigado pelas informações Dona “Wikipédia”! Tu chamas isso de presente?

− Observastes que há uma mensagem dentro dela?

Nathália intensifica o olhar, ergue a garrafa e a sacode, enquanto Greice analisa:

− De onde terá vindo? Na Suíça não tem mar! A nascente do Rio Reno é nos Alpes, leste Suíço, mas desagua na Noruega, Alemanha, Bélgica, direção contrária ao Brasil.

− Que romântico! Tu achas que ela veio da Suíça?  Deve ter sido arremessada por algum marinheiro bêbado, ancorado no porto de Rio Grande. Que apaixonadas palavras contém essa mensagem?

− Não sei! Não consegui abrir.

− Mas isso é fácil − Nathália levanta-se e vai em direção à porta de saída.

− O que vais fazer? – Exaspera-se Greice.

− Procurar um lugar seguro para quebra-la!

− Não!!!! Quero esta garrafa intacta! Devolva ela aqui.

− Porque queres uma garrafa de cerveja, vazia, lacrada, com uma carta de amor dentro?

− Vamos tirar a mensagem sem quebrar! E como sabes que é carta de amor? Pode ser uma pesquisa marítima, um náufrago à deriva, o mapa de um tesouro, sei lá!

Nathália solta uma gargalhada.

− Óh bruxa das dezesseis luas! Como irás tirar esse pergaminho do amor, sem destruir este lindo jarro alcoólico? – Nathália volta a sentar-se. − Se conseguirmos tirar a rolha, assim mesmo não iremos resgatar a mensagem.

− Vamos procurar o senhor Larri. Ele pode nos ajudar!

− O relojoeiro? Desde quando ele é encantador de serpentes?

− Quer parar de zombar do meu presente? Não é todo dia que encontro na beira do mar, uma garrafa com uma mensagem dentro! – Greice ergue-se, apanha a mochila e ordena:

− Vamos lá falar com ele.

Algumas quadras depois, as gurias param diante da loja do “Cuco”. Ao entrarem, uma suave campainha ecoa na mal iluminada recepção. Por trás da cortina, um idoso falseia, ao andar em direção a elas.

− Boa tarde! No que posso ajudar, minhas jovens?

Greice coloca a garrafa sobre o balcão.

− Preciso que o senhor tire esta mensagem de dentro da garrafa.

Larri olha para o objeto, e sem muito pensar, caminha alguns passos para a esquerda, abaixa-se, apanha algo e retorna.

− O que o senhor vai fazer? – Greice protege o souvenir, abraçando-o.

Larri admirado olha para ela, com uma pequena marreta na mão.

− Quebrá-la! Não queres a mensagem?

− Se fosse simples assim, eu já teria feito! Quero que o senhor tire, sem quebrar a garrafa!

O relojoeiro fecha os olhos e sacode a cabeça, contrariado. Falseia novos passos, e recoloca a marreta em baixo do balcão. Retorna, empunhando uma diminuta sacola plástica. Olha para as meninas e pergunta:

− Pelo menos a rolha eu posso tirar?

− Lógico! – Graceja Nathália. – Presumo que mágico o senhor não é!

O relojoeiro sorri, falseia mais alguns passos, desta vez para a direita, abaixa-se e escolhe uma ponteira cilíndrica de aço, com diâmetro menor que o gargalo. Apanha também um pequeno martelo. Coloca o cilindro sobre a rolha, e com leves batidas, a empurra para dentro. Faz várias dobras na sacola em sentido vertical, e imerge lentamente o fundo para o interior da garrafa.  À medida que a saca é introduzida, emborca o vasilhame, e ao mesmo tempo, sacode, para que o plástico e a mensagem fiquem paralelos.

Greice e Nathália, sem entender, olham-se apreensivas.

Larri ao verificar que a sacola e o papel estavam lado a lado, dobra a abertura do restante do plástico, na parte de fora, envolvendo o gargalo pelo lado externo. Começa então a soprar. Um reduzido balão se forma, empurrando a mensagem para uma das laterais do vidro. Quando o papel já está prensado, retira a boca do gargalo, comprime a abertura e puxa lentamente a sacola de volta. A mensagem foi se moldando ao balão, sendo sugada até sair um pouco amarrotada.

Larri sorri, e entrega o pergaminho, soltando a garrafa perto delas.

− Pronto, guria bonita! Era só isso que tu querias?

− Era sim senhor! Estou impressionada! Muito obrigada. Quanto lhe devo?

− Um terço do tesouro que está nesse mapa!

Greice sorri encabulada. Olha para Nathália, que curva-se enquanto emite sonoras gargalhadas.

− Essa mensagem é um mapa do tesouro, senhor Larri?

O relojoeiro olha para elas, e duas ruidosas risadas ecoam.

Greice, trêmula e ansiosa, empurra e retira o barbante, desenrola, e soletra:

“Sie haben gewonnen ein Bier.”

Franze os olhos, apanha o celular na mochila, acessa a internet, e no tradutor, pressiona o idioma alemão. Copia a frase e em seguida, executa a tradução.

“Você ganhou uma cerveja.”

Decepcionada, murmura algo inaudível!

Atira o papel sobre o balcão, apanha a garrafa e dirige-se à saída.

− Brincadeira boba! Podem beber a minha parte!