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Backstory por Ceres Marcon
Backstory por Ceres Marcon

 BACKSTORY

A palavra em inglês significa, em termos gerais, “os acontecimentos passados da vida de um personagem”. O que aconteceu em sua vida pregressa para se tornar um assassino, um justiceiro, um sedutor, um estuprador, um glutão, um anoréxico e por aí a fora.

Todos nós temos um passado. Um amontoado de situações boas e ruins que nos forçaram a agir de uma determinada maneira. O que somos hoje é o reflexo de nossas ações no passado, das decisões que tomamos de forma voluntária ou forçada. Elas são nosso guia, hoje, para tudo o que decidirmos escolher, porém nem tudo o que somos fica à mostra para que todos vejam. Nós temos segredos que guardamos em nossos porões e que não deixamos que venham à tona, por nada nesse mundo.

As personagens que criamos possuem, também, seus porões. Acontecimentos que os levam a zonas limites e os tornam especiais. É por essas personagens que o leitor se apaixona, vibra por sua redenção ou queda.

Quando você começa a escrever uma história, já se perguntou o que seu personagem fez enquanto criança? Se ele teve algum trauma? Se ele passou por alguma situação que o fez agir de forma impensada e isso lhe trouxe alguma sequela psicológica ou física? Por que ele é calmo em determinados momentos e explode em outros? Onde nasceu? Por que ainda mora no mesmo lugar, ou por que resolveu mudar de cidade? Ele conhece o amor? Como ele define o amor? Ele é capaz de matar? Como ele se sentiria se matasse? As perguntas são infinitas. E é assim que começa uma backstory.

Algumas dessas informações têm, em um primeiro momento, a incumbência de afetar diretamente a construção da trama. Outras integram a biografia do personagem, que pode ou não ser passada ao leitor, mas é imprescindível ao escritor, porque, sem ela, ele não conseguiria dar vida ao personagem. Nem tudo o que coletamos para formarmos nossas personagens será utilizado, mas sem esses dados não conseguiríamos construí-las de forma verossímil e o leitor não se identificaria com elas.

Cada personagem vai criar uma backstory diferente, porque não existem personagens iguais, assim como não existem pessoas iguais. Podemos encontrar alguns padrões semelhantes, mas a forma como lidam com os acontecimentos é particular e única.

Muitos escritores só se preocupam em fazer esse exercício da backstory durante a escrita. É quando percebem as informações que faltam e que são indispensáveis para continuarem o processo da escrita. Em alguns casos, a personagem tem uma reação inesperada e o autor não sabe explicar os motivos daquela atitude. Mesmo nesse caso, o processo de descoberta da backstory vai passar  por uma série de perguntas e respostas obrigatórias a respeito da personagem. Os por quês e os O quês estarão lá, a espera de alguma solução.

Para você ter certeza de que uma backstory faz diferença em um texto, vamos usar uma das histórias mais conhecidas dos HQ’s: “Batman”. E vou usar apenas uma pergunta para isso: por que Bruce Wayne se transformou no Batman?  Você vai buscar na sua memória tudo o que sabe sobre ele para chegar à resposta. Sem isso, seria impossível para o escritor determinar quais atitudes seriam aceitas pelos leitores e quais seriam rejeitadas. Segundo Linda Seger “descobrir o passado de uma personagem é como descobrir o passado de um novo amigo. Essa informação confere profundidade ao relacionamento.”.

backstory não precisa aparecer na narrativa de forma direta e nem sempre é essencial para o enredo da história. No caso de “Batman” ela aparece de forma gradual, sem excessos. A construção de uma backstory não é garantia de que a utilizamos de forma adequada. Muitas vezes, enquanto escrevemos, surgem dúvidas com as quais não havíamos no deparado antes. Perguntas que esquecemos de fazer ou uma virada nas atitudes da personagem que nos levam a pensar nos por quês e a rever a backstory. Aos poucos, vamos completando as lacunas e transformando nossa personagem em alguém real.

Afinal, qual a quantidade de informações colocadas na backstory que precisamos utilizar?

Começamos pelo cuidado no uso dos flashbacks, as famosas retrospectivas, que sobrecarregam a narrativa com um amontoado de referências ao passado. Esse recurso, muitas vezes, cria um vai e vem confuso no texto, deixando-o monótono e tirando o foco da história que é o presente. Não significa que não devem ser utilizados, mas, sim, observar o quanto necessário é fazermos uso dessa ferramenta. É no presente que existe a carga dramática.

“Revelar tudo o que aconteceu para a personagem pode atrapalhar aquilo que é mais importante: a revelação da personagem no presente”.

backstory se encontra em um lugar mais profundo. É a metáfora do iceberg, ou seja, o que é dado a conhecer ao leitor é apenas a ponta, a parte exposta fora da água; o restante é o contexto que lhe determina o sentido, fica submerso. Essa parte que fica fora do alcance do leitor precisa ser conhecida pelo autor, caso contrário lhe faltará subsídios para elaborar a narrativa com precisão e segurança.

Nós criamos a backstory e ela não precisa ser trabalhada de forma cronológica, mas é essencial que responda a questões básicas sobre o que aconteceu com sua personagem. Aos poucos, conforme o texto andar, você pode retornar e aprimorar cada ponto que achar necessário.

Outra questão se refere a quais as situações que precisam de informações na backstory?

Sempre que a personagem passar por profundas mudanças no presente, precisamos ter certeza do que lhe aconteceu antes. Por que vai seguir uma direção no lugar de outra? Por que vai complicar se pode facilitar?

As transições na vida não surgem do nada. Observe sua própria caminhada. Quantas vezes o passado lhe ofereceu experiências que modificaram suas atitudes no presente, ou para melhor ou para pior? Se nós temos atitudes motivadas por essas experiências, nossas personagens também têm.

backstory envolve momentos de descoberta. Até que ponto nossa personagem chegará? Qual o limite que lhe daremos? É um trabalho constante para o escritor de ir e vir, até ter certeza de qual caminho será o melhor escolher.

É a backstory que enriquece o texto, que confere profundidade à personagem. “Ela é o segredo para a criação de uma personagem verossímil.”.

 

  

Informações contidas no livro: “Como Criar Personagens Inesquecíveis” de Linda Seger.