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Assim Começa o Mal
Assim Começa o Mal

ASSIM COMEÇA O MAL

 

Novo romance do autor espanhol aprofunda um mote insistente na obra do autor, a de que a verdade só pode emergir do confronto entre várias mentiras.

 

O novo romance do espanhol Javier Marías, ASSIM COMEÇA O MAL, lançado recentemente pela Companhia das Letras em tradução de Eduardo Brandão, é organizado a partir de três momentos históricos distintos mas interligados:  o início da década de 1940, o início da década de 1980 e, por fim, a década de 2010, quando o narrador, Juan de Vere, retorna ao passado para contar sua história.  Marías cria um novo narrador, mas seu método narrativo segue inalterado:  longos períodos e parágrafos, digressões de ordem psicológica, especulações sobre o que poderia ter acontecido se tal e tal elemento fossem diferentes, intertextualidade direta com Shakespeare (a começar pelo título) e assim por diante.

 

           

 

Ainda que o romance fique sempre restrito à percepção desse narrador – que relembra sua atuação como secretário pessoal de um cineasta espanhol e sua convivência tensa com a família deste –, alcança frequentemente reflexões sobre a situação política da Espanha pós-Franco.  “Estávamos no bairro de Salamanca”, escreve ele, “pelo qual ainda hoje em dia pululam nostálgicos do ditador, ainda mais quando a morte ainda era recente, apenas cinco anos calendários, que quase todos sentíamos muito mais como vinte, de tão rápido tínhamos nos despedido e nos esquecido dele, com tanta impaciência e saturação”.

ASSIM COMEÇA O MAL é um experimento em torno do fenômeno da linguagem e, mais especificamente, do fenômeno da mescla entre vida e literatura.  Não se pode entender a vida sem que ela seja posta em linguagem, seja fala ou escrita, defende Marías, e onde está a linguagem está a literatura.  O trecho citado acima é exemplar para a defesa do argumento:  apesar da repetição um pouco desastrada de "aindas”, nota-se o ambiente de instabilidade, de incerteza no que diz respeito às percepções do narrador sobre o passado e o presente.  Na cena em questão, Juan de Vere conversa com um amigo um pouco mais velho sobre os atos ilícitos de um terceiro durante a ditadura.  Seu “hoje em dia” remete a 2010, mas a “morte recente” do ditador está em 1980 – um vaivém que fica ainda mais complexo quando o narrador fala da “sensação” coletiva desses cinco anos, que pareciam “vinte”.  De nada adianta, portanto, ao ler Marías, estabelecer pontos cronológicos fixos.  O que este em questão é a temporalidade arbitrária da memória, tornada legível pelo jogo da escritura.

 

                        

 

A vida, assim como a História, não é uma entidade natural, que brota sem esforço.  A vida é uma construção artificial do discurso, que se transforma ao sabor das ênfases.  Vários elementos colocados por Marías ao longo do relato deixam isso claro:  a memória prodigiosa do narrador, que repete e resgata depoimentos de terceiros;  os vários paralelismos entre personagens e situações (com o a relação entre a lei do divórcio e o “divórcio” da Espanha com relação ao seu passado ditatorial); certa consciência autoral que se faz notar nas falas de todos os personagens, por mais distintos que sejam (o uso de citações, de metáforas, a tendência comum à digressão); e, por fim, as várias reflexões do narrador sobre o caráter ficcional da vida, sua organização discursiva contingente, seus múltiplos pontos de vista contraditórios, etc.

Uma dessas reflexões diz o seguinte:  “Uma forma supersticiosa de explicar o inexplicável, a literatura consiste nisso, o mais das vezes, mais ou menos”.  “Explicar o inexplicável”, ou ainda, conferir naturalidade àquilo que é irremediavelmente artificial.  O contexto desse dito é central para o romance, pois diz respeito ao relacionamento que move a narrativa:  o contato entre o jovem de Vere e seu empregador, o cineasta Eduardo Muriel.  A gradual mudança na dinâmica desse contato representa também a complexificação da trama, pois no início é Muriel quem mais fala.  Quando Muriel passa à posição de ouvinte, sendo questionado por Juan e tendo que responder, o romance deslancha e adensa ainda mais seus propósitos.

Juan dialoga não apenas com Muriel, mas também com a esposa deste, Beatriz, e com outros frequentadores da casa, como o professor Rico e o médico Van Vechten, entre outros.  Fragmentos de conversas retornam, são confrontados, aqueles que eram obscuros vão, aos poucos, com mais conversas, sendo esclarecidos (ou ainda mais obscurecidos).  Aqui se nota uma das matrizes principais não só deste romance, mas de toda a poética de Marías – sua insistência dialógica, que remonta até Platão, a noção de que a “verdade” só pode emergir a partir da concatenação progressiva das “mentiras”, que vão se desgastando a cada confronto.  Marías, filósofo de formação, não esconde um fascínio ambivalente por essa técnica minuciosa de busca das origens.  Suas estratégias narrativas mostram  um escritor atento à tradição, que reconhece que a validade da arte romanesca está em sua indisciplina – reconhecendo também, por outro lado, que essa arte deve ser tomada com responsabilidade e conhecimento de causa.

 

Fonte:  ZeroHora/por Kelvin Falcão Klein/Doutor em Teoria Literária em 22/11/2015