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Análise de Poemas e de Prosa - Parte II
Análise de Poemas e de Prosa - Parte II

Análises morfológicas e fonológicas de poemas de vanguarda

A partir dos pressupostos de Chklovski, segundo os quais um poema deve ser analisado tendo como base a Linguística e os aspectos a essa ciência intrínsecos, Roman Jakobson, também integrante do Formalismo Russo, difundiu a ideia de que a função poética da linguagem consiste na ambiguidade que se alcança através da concisão do signo.

 

Isso equivale a dizer que, como a poesia é uma expressão de linguagem reduzida, os vocábulos devem ser utilizados de forma a permitir que o leitor o expanda, seja em sua própria construção morfológica e fonológica, seja no seu significado (semântica), ou, ainda, na organização sintática do verso do qual o signo faz parte.

 

Essa proposta dos formalistas vai ao encontro dos interesses de poetas europeus que intentavam um novo jeito de fazer poesia que se distanciasse dos modelos tradicionais. A linguagem poética, portanto, era um dos alvos preferidos desses poetas, visto ser o instrumento fundamental da poesia.

 

Surge, assim, mais especificamente no início do século XX, a poesia de vanguarda*. O termo tem origem na expressão francesa “avant-garde”, expressão militar que significa “linha de frente”.

 

*Vanguarda: Fig. [...] que exerce ou procura exercer um papel pioneiro. Desenvolvendo técnicas, ideias e conceitos novos, avançados, especialmente nas artes. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

 

 Felippo Marinetti (1876-1944)

 

O futurismo é um movimento artístico e literário surgido oficialmente em 20 de fevereiro de 1909, com a publicação do Manifesto Futurista, do poeta italiano Filippo Marinetti, no jornal francês Le Figaro. (www.brasilescola.com)

A Vanguarda

Dentre os movimentos de vanguarda, destaca-se o Futurismo, movimento iniciado por Felippo Marinetti, e que expressava uma postura utópica dos artistas envolvidos com a modernidade e o surgimento de uma nova era, e que negavam o passado e as tradições socioculturais, especialmente as que representavam ideologias burguesas.

Filiaram-se aos movimentos vanguardista e futurista poetas como Vladimir Maiakovski, Ezra Pound, James Joyce, Fernando Pessoa e, no Brasil, Oswald de Andrade, Haroldo e Augusto de Campos, Ferreira Gullar, Décio Pignatari entre outros. Movimentos como Dadaísmo, Concretismo, Neoconcretismo, Poesia Experimental, Poesia Práxis e Poesia Visual têm origem na poesia de vanguarda.  

Os Vanguardistas

Conheça agora quem foram os principais vanguardistas e futuristas da época:

 

 

Um dos poetas de Vanguarda: Felippo Marinetti (1876-1944) – Também atuou como escritor, editor, ideólogo, jornalista e ativista político. 

Os poetas de vanguarda acabaram por semear o que o teórico e poeta Octavio Paz chamou de “tradição da ruptura”, considerando que existe uma continuidade do projeto artístico de ser, constantemente, uma reação contra uma fórmula anterior. Assim, romper com a tradição torna-se, em si mesmo, um ato de tradição, configurando-se uma “tradição da modernidade”.

 

(PAZ, Octavio. Signos em rotação. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2005.)

 

As propostas pelo Formalismo Russo, fundamentadas na Linguística, tornaram-se extremamente profícuas na análise de poemas vanguardistas, visto que os formalistas indicavam compreender o texto poético também através de uma análise morfológica e fonológica, e é exatamente essas estruturas do signo que os poetas de vanguarda alteravam para romper com a tradição da linguagem.

 

MANIFESTO da literariedade

Acompanhe agora o Manifesto  Escrito por Roman Jakobson

"A poesia é linguagem em sua função estética. Deste modo, o objeto do estudo literário não é a literatura, mas a literariedade, isto é, aquilo que torna determinada obra uma obra literária. E, no entanto, até hoje, os historiadores da literatura, o mais das vezes, assemelhavam-se à polícia que, desejando prender determinada pessoa, tivesse apanhado, por via das dúvidas, tudo e todos que estivessem num apartamento, e também os que passassem casualmente na rua naquele instante. Tudo servia para os historiadores da literatura: os costumes, a psicologia, a política, a filosofia. Em lugar de um estudo da literatura, criava-se um conglomerado de disciplinas mal-acabadas. Parecia-se esquecer que estes elementos pertencem às ciências correspondentes: História da Filosofia, História da Cultura, Psicologia etc., e que estas últimas podiam, naturalmente, utilizar também os monumentos literários como documentos defeituosos e de segunda ordem. Se o estudo da literatura quer tornar-se uma ciência, ele deve reconhecer o 'processo' como seu único 'herói'.

EIKHENBAUM, Boris et alii. Teoria da Literatura: formalistas russos. Trad. Ana Mariza Ribeiro. et alii. Porto Alegre: Globo, 1978.

Eu

à poesia

só permito uma forma:

concisão,

precisão das fórmulas

matemáticas.

Às parlengas poéticas estou acostumado,

eu ainda falo versos e não fatos.

Porém

se eu falo

"A"

este "a"

é uma trombeta-alarma para a Humanidade.

Se eu falo

"B"

é uma nova bomba na batalha do homem.

 

(De V Internacional – tradução: Augusto de Campos)

<http://www.culturapara.art.br/opoema/maiakovski/maiakovski.htm>.

Vladimir Maiakovski, poeta que comungou das ideias de Jakobson, explorou sistematicamente as propostas formalistas, como se percebe no poema abaixo, no qual expõe a relação entre poesia e concisão da linguagem, além de explorar possibilidades morfológicas no texto.

IMAGENS históricas

 

Oswald de Andrade (1890-1954) - Um dos maiores representantes da Semana de Arte Moderna de 1922.

 

O Modernismo brasileiro da primeira fase ou “fase heroica”, que teve início com a Semana de Arte Moderna de 1922, tem em Oswald de Andrade um de seus maiores representantes. O poeta é, também, um dos escritores que mais e melhor utilizou uma estética vanguardista, especialmente no tocante a uma redefinição da palavra poética, o que possibilita uma análise formalista de seus textos.

 

 

Para esta aula, destacamos o poema “Vício na fala”, para elaboração de uma análise morfológica e fonológica. Avance para conhecer o poema.

 

Vício na fala

 

Para dizerem milho dizem mio

Para melhor dizem mió

Para pior pió

Para telha dizem teia

Para telhado dizem teiado

E vão fazendo telhados

 

(ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.)

 

O poema de Oswald de Andrade tem como motivo a própria língua portuguesa e a diferença entre escrita e oralidade. Apresentam-se em oposição os signos “milho” x “mio”; “melhor” x “mió”; “pior” x “pió”; “telha” x “teia”; “telhado” x “teiado”. Temos, assim, para análise, a exploração de fatos linguísticos morfológicos e fonológicos para evidenciar, no texto, a realidade de determinados falantes, não sendo necessário contextualizar socialmente tais falantes para que o leitor entenda a proposta. No entanto, não há dúvidas de que os falantes que se representam no poema pertencem a uma classe social desfavorecida, observando-se o último verso, no qual o signo “telhados”, ao complementar o verbo “fazer”, indica trabalho braçal.

Análise semântica de um poema de Mário Quintana 

Considerando a Linguística a ciência fundamental para análise do texto poético, os formalistas russos incluíram, na compreensão da poesia, os estudos de semântica.

A relação entre significante (forma gráfica) e significado (conceito), proposta por Ferdinand de Saussure, é utilizada largamente nas análises formalistas. Apesar de se autodenominarem “morfologistas”, como vimos, os formalistas russos não se limitavam ao estudo morfológico do signo (estrutura, formação, flexões e classificação das palavras). Os estudos do léxico, da sintaxe e da fonologia também fazem parte da análise, como exemplificamos acima. Da mesma forma, a semântica, área da Linguística que estuda a significação das palavras no contexto em que se apresentam deve ser instrumento de análise.

 

Ferdinand de Saussure (1857-1913) - Graças aos seus estudos e ao trabalho de Leonard Bloomfield, a linguística adquiriu autonomia, objeto e método próprios. Seus conceitos serviram de base para o desenvolvimento do estruturalismo no século XX. (http://pt.wikipedia.org)

 

Poeminha do Contra

 

Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão...

Eu passarinho!

 

(QUINTANA, Mário. Prosa e Verso. São Paulo: Globo, 1978)

O texto do poeta gaúcho Mário Quintana compõe-se de quatro versos. Os três primeiros não surpreendem o leitor, visto se organizarem através de uma linguagem coloquial e prosaica, e com signos que não apresentam ambiguidades ou desvios em relação ao uso cotidiano da fala. No entanto, o último verso causa estranhamento no leitor por um processo semântico que precisa ser apreendido no ato da leitura. O signo “passarinho” decorre do verbo “passarão”. Tal associação, aparentemente inadequada, encontra fundamentação na proposta semântica elaborada.

 

O signo “passarão” define a transitoriedade de pessoas que estão “atravancando” o caminho do eu lírico. Há, claramente, uma adversidade que deveria ser solucionada com outro signo oposto que indicasse a permanência do sujeito que fala, sua perenidade, sua eternidade. Entretanto, o poeta apresenta ao leitor o signo “passarinho”, provocando a “desautomatização” do texto. O leitor, então, recorre à semântica para compreender o processo criativo.

O signo “passarinho” pode expandir-se no seguinte campo semântico: liberdade, leveza, beleza. Entendemos, assim, que mais do que permanecer em um determinado contexto de vida (enquanto os outros “passarão”), o eu lírico manter-se-á em estado de volatilidade e liberdade, o que se opõe, semanticamente, ao signo “atravancando”.

Consideramos necessário destacar ainda, para enriquecimento da análise, a oposição entre os sufixos presentes nos signos “passarão” e “passarinho” como recurso morfológico e fonológico, os quais inserem, na percepção do leitor, mais uma dicotomia entre o eu lírico (“eu passarinho”) e o objeto de quem fala (“eles passarão”).

Frase atribuída a Mário Quintana (1906-1994)

 

 

“[O Trágico Dilema]

 

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro”. <http://pensador.uol.com.br>.

 

O Método Formal – Análise de Narrativas

A POESIA

Sem dúvida, a poesia é o objeto primeiro de estudos dos formalistas russos, pela concisão da linguagem e, em consequência, a possibilidade de expansão da palavra poética.