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Análise de Poemas e de Prosa - Parte I
Análise de Poemas e de Prosa - Parte I

 

Método Formal – Análise de Poemas e de Prosa.

 

O Formalismo Russo recusa as tendências de compreensão do texto poético vinculado a questões sociais ou à biografia do autor.

O signo poético passa a ser privilegiado na análise, e o crítico adota diversas perspectivas da linguagem, colocando em evidência aspectos Semânticos, Morfológicos e Fonéticos da palavra.

Os críticos impressionistas

 

Stéphane Mallarmé condensou essa proposta com a ideia de que o livro deve ser entendido como expansão total da letra.

 

Tzvetan Todorov (1939

“A letra e o signo verbal serão considerados por nós como a base de toda a literatura. Uma das consequências dessa decisão será que o conhecimento da literatura e o conhecimento da linguagem são simultâneos e que só poderemos falar do discurso literário na medida em que possamos falar do verbo em geral, e inversamente.” (TODOROV, Tzvetan. Estruturalismo e poética. São Paulo: Cultrix, 1970. p. 22)

 

 

 

 

 

Discurso Literário

O Formalismo gerou diversas correntes críticas para as quais o fundamental é o estudo do texto em si mesmo e não suas relações extrínsecas. Dentre essas correntes, o Estruturalismo empenhou-se em aprimorar as propostas iniciais dos formalistas. E é através das bases estruturalistas que o signo poético se expande na análise morfológica, sintática.

 

Osip Brik (1888-1945)

 

O trabalho do crítico Osip Brik foi de extrema importância para a consolidação dos métodos de análise formalista, pois, em seus estudos sobre a versificação da poesia russa, destacou o verso como um complexo linguístico rítmico e sintático. Brik propunha que não fossem analisadas apenas as rimas, as aliterações e as assonâncias, mas que a análise focasse também os “planos sonoros” do texto, como o uso, no signo poético, das vogais fortes.

Contra o pensamento de que a literatura perderia sua função se fosse desvinculada de aspectos sociais, Osip Brik apresentou argumentos em defesa da análise formalista do texto poético, entre os quais o de que tudo o que o poeta escreve não possui valor como expressão do seu “eu”. Considera-se, nesse caso, que, tanto a subjetividade do autor (suas emoções mais individuais) quanto a sua relação com o mundo exterior não importam na análise. O que realmente interessa aos formalistas são os elementos que compõem o texto.

 

Além de apresentar estudos sobre elementos da poesia como rima, ritmo, harmonia e metro, também elabora teorias sobre o verso livre, evidenciando o conceito de prosa poética.

 

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Poeta, contista e cronista brasileiro.

 

 

Estranhamento – Análise do poema “Uma nuvem de calças”, de Vladimir Maiakovski

O Poema

 

Outra proposta dos formalistas russos é o estranhamento, característica imanente ao texto poético.

 

Uma nuvem de calças (fragmento)

 

Glorifica-me!

Os grandes não se comparam a mim.

Em cada coisa que eles conseguiram

Eu carimbo um nada.

 

Eu nunca quero

ler nada.

Livros?

O que são livros!

 

Antes eu acreditava

que os livros eram feitos assim:

um poeta vinha,

abria levemente os lábios,

e disparava louco numa canção.

Por favor!

Mas parece,

que antes de se lançarem numa canção,

os poetas têm de andar por dias com os pés em calos,

e o peixe lento da imaginação,

lateja ligeiro no bater do coração.

E enquanto, com a filigrana da rima, eles cozem uma sopa

de amor e rouxinóis,

a estrada sem língua apenas sucumbe

por não ter nada a gritar ou a dizer.

 

(...)

 

http://www.bazardaspalavras.com.br/orange/kazan/liter

O Argumento

Nesse processo, o autor consegue promover no leitor a “desautomatizaçao”, ou seja, causa no leitor um desconforto ao retirá-lo do senso comum da comunicação, levando-o a deparar-se com a “consciência linguística da literatura.”

Pôster URSS, Planos Quinquenais (1932)

 

O exemplo acima serve para ilustrar o efeito combinatório dos signos.

A Leitura

O autor Ivan Teixeira, no ensaio intitulado “O Formalismo Russo”, destaca esse efeito combinatório de signos, explicando que “o desconforto dos enunciados inovadores integra o complexo de propriedades que atribuem valor estético ao texto”.

 

Evidenciamos, no fragmento do poema “A nuvem de calças”, do escritor russo Vladimir Maiakovski, esse processo de estranhamento (ostranenie), tendo em vista as combinações inusitadas entre os signos utilizados.

VEJA MAIS:

 

http://textoterritorio.pro.br/alexandrefaria/recortes/cult_fortunacritica_2.pdf

 

UMA NUVEM DE CALÇAS (FRAGMENTO) 2

Glorifica-me!

Os grandes não se comparam a mim.

Em cada coisa que eles conseguiram Eu carimbo um nada.

Eu nunca quero ler nada. Livros?

O que são livros!

Antes eu acreditava que os livros eram feitos assim: um poeta vinha, abria levemente os lábios, e disparava louco numa canção.

Por favor!

Mas parece, que antes de se lançarem numa canção, os poetas têm de andar por dias com os pés em calos, e o peixe lento da imaginação, lateja ligeiro no bater do coração.

E enquanto, com a filigrana da rima, eles cozem uma sopa de amor e rouxinóis.

A Análise

Evidenciamos, no fragmento do poema “A nuvem de calças”, do escritor russo Vladimir Maiakovski, esse processo de estranhamento (ostranenie), tendo em vista as combinações inusitadas entre os signos utilizados.

O poema de Maiakovski exige do leitor algum conhecimento dos processos de criação literária, a fim de que ele seja instigado a desvendar a imprevisibilidade do texto, buscando, através da análise, compreender o efeito estético que causou estranhamento no ato da leitura. O título do texto já anuncia a proposta estética elaborada pelo poeta: “Uma nuvem de calças”. Ao associar os signos “nuvem” e “calças”, o autor obriga o leitor a desfazer-se temporariamente da imagem acionada comumente na imaginação ao ouvir/ler o signo “nuvem”: leveza, distanciamento, volatilidade etc.

 

 

Uma nuvem de calças (fragmento)

 

Glorifica-me!

Os grandes não se comparam a mim.

Em cada coisa que eles conseguiram

Eu carimbo um nada.

 

Eu nunca quero

ler nada.

Livros?

que são livros!

 

Antes eu acreditava

que os livros eram feitos assim:

um poeta vinha,

abria levemente os lábios,

e disparava louco numa canção.

(...)

A concretude do signo “calças” propõe que o signo “nuvens” seja lançado na realidade humana e cotidiana. Retomamos, então, a proposta de Chklovski, teórico que cunhou o termo “estranhamento”, e segundo a qual o poeta não cria novas imagens, pois elas já existem historicamente e são apreensíveis pelo leitor. O que o poeta faz é “singularizar o texto”, inaugurando novas imagens a partir de imagens conhecidas, sem que esse processo esteja vinculado a uma proposta didática.

 

Explicação Expandida

O conceito de “estranhamento”, proposto por Victor Chklovski, contradiz uma ideia anterior sugerida pelo teórico Aleksandr Potebnia e adotada pelos poetas simbolistas, segundo a qual a função da literatura é agrupar imagens heterogêneas e explicar o desconhecido pelo conhecido. Potebnia cunhou a sentença que marcou o início dos estudos de teoria literária: “A arte é pensar por imagens”. Desenvolvendo seu pensamento, argumentou: A poesia assim como a prosa é antes de tudo, e sobretudo, uma certa maneira de pensar e conhecer”.  De acordo com Chklovski, as imagens poéticas não devem acionar um conhecimento, mas provocar um estranhamento no leitor que o conduza à densidade da percepção estética.

 

(CHKLOVSKI, Viktor. A arte como procedimento. In: Teoria da Literatura: os formalistas russos. Porto Alegre: Globo, 1976.)

 

Uma nuvem de calças (fragmento)

 

Glorifica-me!

Os grandes não se comparam a mim.

Em cada coisa que eles conseguiram

Eu carimbo um nada.

 

Eu nunca quero

ler nada.

Livros?

O que são livros!

 

Antes eu acreditava

que os livros eram feitos assim:

um poeta vinha,abria levemente os lábios,

e disparava louco numa canção.

(...)

 

Na primeira estrofe, o eu lírico se posiciona acima daqueles a quem chama “grande”. “Glorifica-me!”: sugere, propõe, ordena, implora. Estabelece sua relação com o leitor. O verso “Eu carimbo um nada” provoca mais um estranhamento, agora desencadeado por um desvio, visto que a função de um carimbo é imprimir palavras ou imagens.  

 

A segunda e a terceira estrofes exigem que o leitor reelabore a ideia construída culturalmente a respeito dos livros e da figura do poeta, exatamente como proposto pelo formalismo russo. Desfaz-se a imagem do autor inspirado e da poesia como ato sublime. Maiakovski, no texto, renuncia aos livros e, ainda, reconhece que também ele participava de uma concepção geral de que o poeta possui uma espécie de dom divino. O estranhamento, neste caso, dá-se pelo fato de que tais conceitos são estabelecidos através de um texto poético, ou seja, o próprio instrumento da poesia é utilizado como contra-argumento do fazer poético.

 

Uma nuvem de calças (fragmento)

 

Glorifica-me!

Os grandes não se comparam a mim.

Em cada coisa que eles conseguiram

Eu carimbo um nada.

 

Eu nunca quero

ler nada.

Livros?

O que são livros!

 

Antes eu acreditava

que os livros eram feitos assim:

um poeta vinha,abria levemente os lábios,

e disparava louco numa canção.

(...)

 

Na terceira estrofe, o poeta Maiakovski intensifica a densidade estética do texto, provocando estranhamento com a elaboração de fatos sintáticos que exigem a análise mais cuidadosa do leitor.  

O segundo e terceiro versos encontram-se em oposição ao apresentarem duas circunstâncias associadas ao signo “poetas”: “canção”, signo que sugere um conceito diáfano X “pés em calos”, representativo de luta, trabalho, realidade tangível. Outros fatos sintáticos desautomatizam a percepção do leitor no mesmo procedimento de associar signos pela oposição abstrato X concreto, o que retira as imagens conhecidas de seu espaço de sublimidade e as lança na dura realidade da existência: “peixe lento da imaginação”; “eles cozem uma sopa de amor e rouxinóis”; “estrada sem língua”.

 

Uma nuvem de calças (fragmento)

 

Glorifica-me!

Os grandes não se comparam a mim.

Em cada coisa que eles conseguiram

Eu carimbo um nada.

 

Eu nunca quero

ler nada.

Livros?

O que são livros!

 

Antes eu acreditava

que os livros eram feitos assim:

um poeta vinha,abria levemente os lábios,

e disparava louco numa canção.

(...)

 

Atenção!

 

Os métodos de análise dos formalistas russos são imanentes ao texto, isto é, a literariedade. Assim, mesmo que o leitor tenha conhecimento do contexto histórico em que se insere o autor e de dados biográficos relevantes, esses não devem ser utilizados na análise do texto poético.