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Amor, Somente Amor/Conto de Luiz Amato
Amor, Somente Amor/Conto de Luiz Amato

CONTO:  AMOR, SOMENTE AMOR       AUTOR: Luiz Amato     [2]

 

 

Amor, Somente Amor

 

Sempre que o amor aparece, sinos dobram nos céus.

Interior do Brasil. Década de sessenta.

– Acordi essi mininu. Acordi. Tua mâinha ta ti peranu pru disjum.

 

"MagnoZen ainda não acreditava, que o fim do mundo seria assim.

Ele sempre fora um teórico da conspiração. Sua mente já o havia levado a diversos finais.

Em um deles, ele e seu grupo lutaram até o último momento, para impedir que os zumbis mutantes, detonassem a bomba quântica, partindo a terra em mil pedaços.

Mas desta vez, parecia que tudo estava contra. Ele nunca enfrentara nada igual.

– Você não me escapara MagnoZen".

 

– Acordi Vandersonsclay. Tua mâinha diz qui tu vai perde as hora da aula.

– Ara Ritinha. Não me perturbe e vai cuidar de seus serviços. To sonado demais para ir à escola.

– Olhi Vand, num querenu se mutchu chata, maise si uce num levantá agora, vo chama tua mâinha.

Ele sentou na cama, nervoso;

– Ara e ara Ritinha. Você nem imagina o que eu estava sonhando e você veio atrapalhar.

Ela abriu um sorriso maroto.

– Era nóis doise dibaxu du coberto, era?

– O que?

– Nós doise fazenu coisa gustosa ai dibaxu das cuberta.

– Ara Ritinha, toma tento. Quer que eu chame mâinha?

– Careci não Seu Vand. Já parei di pensa nissu.

Ela deixou o quarto, toda dengosa, saracoteando.

Com certeza não será com ela a minha primeira vez. Pensou ao vê-la sair.

 

Após o demorado banho, ele tomou o desjejum, junto de sua mãe. Conversaram sobre frivolidades, até que ela atingiu o cerne da questão

– Uma pergunta meu filhinho: Você ainda está enrabichado por aquela sirigaita da sua classe?

– Mâinha. Já pedi para não me chamar mais de “meu filhinho”. Tenho 16 anos e barba na cara.

– É que você é tão bonitinho.

– Para. E tem mais, Jesbél, não é nenhuma sirigaita.

Ele deixou o resto da fruta sobre a mesa, pegando seu material.

– Inté mâinha.

– Inté meu filhinho querido.

A porta bateu, forte.

 

Ele estava apaixonado.

Nada mais no mundo lhe importava. Até trocaria sua personagem de herói mundial, MagnoZen, por um simples beijo de Jesbél.

Muitas vezes já dera sinais do que sentia. Tinha certeza que ela percebera.

Mil planos já arquitetara para declamar seus sentimentos, mas o medo de uma recusa o travava.

Ao entrar na sala de aula, avistou-a. Ela estava linda, como sempre. Seus cabelos negros, compridos, encobriam parte do rosto. Parou olhando-a da porta.

Ela retribuiu o olhar, pela primeira vez, sorrindo.

Vandersonsclay quase caiu.

Ela sorriu. Ela sorriu para mim. Seu coração parecia querer saltar pela boca. Sentia-se a pessoa mais feliz do mundo.

Ele nem sentiu as aulas passarem. A temática da semana era Shakespeare, porém não prestou atenção em nada. Só queria falar com Jesbél. Dessa vez tinha certeza que conseguiria.

Tocou o sinal, finalizando a última aula. Era meio dia e meia.

Vand arrumava suas coisas, quando foi surpreendido por Maria Cileide.

– Oi, nós vamos estudar em casa. Eu e a Jes. Então, você não quer ir também?

– Agora? Claro que vou.

Ela sorriu – Calma Vand. Não é agora. Marcamos para as três da tarde.

– Vou sim, pode deixar. Eu sei onde você mora. Três horas né. Estarei lá sem falta.

– Mais uma coisa.

– Diga

– A Jes pediu para eu dizer que ela o acha bonito.

Naquele momento mil rojões explodiram em torno dele. O máximo que conseguiu falar foi um inaudível “tá bom”.

 

Faltavam quinze minutos para às três da tarde. Ele estava impaciente. De sua casa até a de Maria Cileide levaria uns cinco minutos.

– Qui qui tá acontecenu cum uce, Vand?

– Comigo, como?

– Virgi. Uce pareci qui tá cum fogu nus cuião. Num para quéto. Inté pareci qui vai da uns muxoxos puraí.

– Muxoxos?

– Issu, Uns bejo, uns grudi bão. Uce arrumo uma pirraia? Já tendi. É anquela qui tua mâinha fala qui é uma sirigati.

– Uma o que?

– Sirigati. Muié facir.

A inquietude acabou dando lugar ao riso.

– Isso mesmo Ritinha. Vou ver a “sirigati”

 

Vandersonsclay caminhou devagar, até chegar na casa de Maria Cileide. O muro e o portão eram altos. Ele bateu palmas.

– Oi, o que esse belo rapaz deseja?

Era Jesbél, num balcão de um dos aposentos.

– Eu, eu...

– Não seja tímido. Afinal viemos aqui para estudar literatura. Shakespeare, esqueceu?

Ele pigarreou.

– Não, não. É que aqui de fora, as pessoas vão pensar que sou louco.

– E o que está esperando para entrar? Venha, posicione-se bem aqui, embaixo do balcão.

Ainda acanhado, entrou.

– Acho que não vai ser legal. Imagine o que os pais de Maria Cileide vão pensar. Por falar nisso, cadê ela?

– Saíram todos, só vão voltar à noitinha. Estamos sozinhos. Então, para de tanta vergonha e comecemos, como nossos amigos fizeram na aula.

– Você pode começar?

– Claro:

– Óh Romeu. Meu coração dói. Mas é a dor da paixão. Paixão que sinto por você, meu eterno amor. E assim sorrio, quando as pontadas mais fortes me lembram da intensidade com que o amo.

– Vai Vand. É sua vez.

– Espera aí. Estou pegando o texto. Pronto

– Julieta, amada minha. Você é bela como o bater das asas de um beija flor, sugando o doce néctar. Doce néctar que povoa seus lábios, macios e generosos. Bela como a pétala de uma rosa, de todas as rosas e de todas as flores. Sei que me és proibida, mas nada impede que meu coração a ame acima de tudo.

– Hum, gostei de ver Vand. Minha vez.

– Romeu, oh meu doce Romeu. Você é tudo o que eu preciso para viver. E não preciso de muito. Somente a luz do seu olhar e o som de sua voz, é suficiente para mim. O amo acima da minha própria vida.

– Pronto. Você de novo – Como ele não começava, ela olhou para baixo.

Ele ajoelhara-se, deixando de lado os textos.

– Sim Jesbél, também amo você acima de tudo. Amo seus passos, seus cabelos. Amo seus olhos, seu sorriso. Hoje sou o homem mais feliz que existe, pois sei do meu amor. Mesmo quando a noite me corteja com o sono, eu sonho com você.

Ela também deixou os textos.

– Quanto quis ouvir isso de sua boca, meu querido Vand. Sinto lágrimas a escorrer pelo meu rosto. Mas não são amargas. São doces como o som de suas palavras. Meu coração explode, de felicidade. Meu amor, minha paixão.

Sem mais esperar ele subiu até ela. Abraçando-a

– Minha querida, faz-me o homem mais feliz dos mais felizes, Deixa-me sentir o gosto dos seus lábios e tornar-me pleno em nosso amor.

Eles se beijaram. Não um beijo qualquer só para suprir a ânsia da paixão. Um beijo que selou o amor eterno de Vandersonsclay e Jesbél.

 

Naquela noite, tanto Vand, quanto MagnoZen dormiram tranquilos. Um apaixonado. O outro, com a missão cumprida. Sabia que por muito anos não correria perigo de o mundo acabar.

Sinos dobravam nos céus.