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A Rainha Domada, de Philippa Gregory
A Rainha Domada, de Philippa Gregory

A ERA TUDOR NA VISÃO DE UMA COADJUVANTE

 

Romance histórico A RAINHA DOMADA retrata reforma anglicana sob Catarina Parr.

A RAINHA DOMADA de Philippa Gregory, Tradução Márcio El-Jaick, Record, 448 páginas.

 

Das seis mulheres de Henrique VIII (1491-1547), sem dúvida a mais famosa é Ana Bolena (1501-1536). Por ela, o rei da Inglaterra assumiu o risco de dividir a Igreja Católica Romana em nome da liberdade do divórcio e aderiu à Reforma Luterana, que neste ano completa 500 anos. Sobre ela, existe uma ampla literatura, filmes e peças de teatro. Nem mesmo sua antecessora, a espanhola Catarina de Aragão (1485-1536), conseguiu atrair mais atenção.

 

Morta quatro meses antes da decapitação de sua rival, Catarina poderia ter sido uma narradora da fundação da Igreja Anglicana e do protestantismo. Jane Seymour (1508-1537), morta no parto do príncipe Eduardo, Ana de Cleves (1515-1557) e Catarina Howard (1524-1542), a segunda mulher decapitada pelo rei, também não tiveram a oportunidade de deixar ao mundo o testemunho da cisão religiosa tão relevante para a constituição, dois séculos depois, da própria economia capitalista.

 

A última das seis rainhas, Catarina Parr (1512-1548), casada com um rei de 52 anos, já considerado um ancião à época, é a mais desconhecida. A personagem, porém, é a que atende aos melhores critérios como testemunha imparcial e distante desse fato histórico crucial. O que nos contaria ela, co sua visão de uma mulher de 31 anos, sobre os desdobramentos políticos, sociais e, claro, religiosos da primeira década da reforma anglicana?

 

Ela casou-se com o rei nove anos depois do rompimento dele com o papa e apenas alguns meses de ele mandar cortar a cabeça da quinta mulher por adultério. Tempo em que a Inglaterra ainda vivia um processo termodinâmico de adaptação social ao anglicanismo. O país vivia sobre o rastro de sangue deixado pelas rainhas mortas, mas também por católicos, como Thomas More e o cardeal John Fisher. A complexidade da situação coloca mesmo em xeque a capacidade de a história arrancar verdade em meio a essa guerra.

 

A escritora Philippa Gregory, Ph.D. em literatura pela Universidade de Edimburgo, dedica-se a colocar sua imaginação a serviço dessa curiosidade dos leitores. Seus romances vestem o escafandro da pesquisa histórica para oferecer informações e hipóteses por meio de um ponto de vista de personagens abandonados. Já fora assim com o sucesso A IRMÃ DE ANA BOLENA, quando resgatou a amante de Henrique VIII, e conquistou as telas dos cinemas sob o título A OUTRA.

 

Agora, Philippa nos chega em tradução de A RAINHA DOMADA, no qual explora a mesma Era Tudor, vista por uma Catarina Parr até então relegada a coadjuvante de suas antecessoras famosas. Philippa, em termos de romance histórico, está longe da profundidade de pesquisa e detalhamento de um Ken Follett, por exemplo, no entanto, cumpre seu ofício com considerável maestria.

 

A RAINHA DOMADA empresta o adjetivo shakespeariano a Catarina Parr por esta casar com o rei mesmo apaixonada por outro, Thomas, o irmão da rainha Jane Seymour. Ela o manterá como amante, porém terá mais sorte do que as suas antecessoras. A morte do rei, quatro anos depois, encurtará sua penitência e a libertará para viver o romance com sua cabeça no devido lugar, ainda que por pouco tempo.

 

O melhor para o leitor interessado no rastreamento da reforma anglicana e sem fôlego para percorrer uma biblioteca de história são as informações salpicadas com grande generosidade pela autora em todo o romance. Philippa reporta os fatos reais sobre a resistência na tradução da Bíblia do latim para o inglês, a insurreição dos católicos brutalmente esmagada e, mais tarde, a força de Roma para restaurar abadias, mantendo uma tensão religiosa que seria, dali para a frente, eterna.

 

Catarina Parr assume o trono quando a nobreza estava ávida por uma rainha que defendesse a reforma anglicana. Nenhuma delas, nem mesmo Ana Bolena, teve essa oportunidade. Menos pelo direito ao divórcio, a nobreza apoiava a cisão com Roma porque Henrique VIII havia devolvido a ela as terras confiscadas pelo papa, seja em nome dos pecados perdoados, acomodações confortáveis no céu depois da morte ou mera punição sem clemência.

 

A sexta rainha era a esperança da nobreza de cristalizar a reforma e confirmar a posse definitiva de seus bens. No entanto, catarina, embora reformista, assumiu muito timidamente a defesa da nova ordem. Como se sabe, os ingleses só terão uma rainha protestante por convicção 15 anos depois, com a ascensão de Elizabeth I (1533-1603), filha de Ana Bolena. Não sem antes passarem, todavia, pela carnificina promovida pela rainha católica Maria Tudor, filha de catarina de Aragão, na última tentativa de restaurar o catolicismo romano queimando os protestantes em praças públicas.

 

A cisão religiosa personificada na figura das meninas Elizabeth e Maria é bem trabalhada por Philippa ao mostrar como a sexta rainha herda os filhos das outras – inclusive Eduardo I, morto aos 16 anos e rei por apenas seis – e promove uma inédita e artificial união da família real da dinastia Tudor. Coo prova o sucesso da série de TV, os Tudor são fonte eterna de curiosidade popular. Qualquer investida ficcional competente sobre esse período é sempre garantia de divertimento e aprendizagem para despertar novas experiências intelectuais. Esse é o caso de A RAINHA DOMADA.

 

Fonte: Revista Valor/Jorge Félix em 15/12/2017.