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A Primeira Geração Romântica
A Primeira Geração Romântica

 

A Poesia Romântica.

A Geração Indianista ou Nacionalista – Gonçalves Dias

Primeira Geração Romântica

  • Descrição da natureza;
  • Panteísmo;
  • Idealização do indígena;
  • O indianismo – expressão original do nacionalismo brasileiro: o índio como símbolo do espírito e da civilização nacionais em luta contra a herança portuguesa;

Pontos a considerar:

  • Antecedente: publicação, em 1836, de Niterói, Revista Brasiliense ; Suspiros poéticos e saudades (1836) e Confederação dos Tamoios* (1856), Gonçalves de Magalhães

* Poema épico em dez cantos, narra a revolta índia de 1560: os tamoios guiados por Aimbiré se revoltam contra os portugueses e morrem para fugirem da escravidão

Caracteres fundamentais:

  • A eclosão do movimento se dá com o alvorecer da nacionalidade;
  • Ênfase dada à inspiração: improvisação, espontaneidade como fontes de criatividade;
  • Relação íntima entre literatura e política;
  • Busca de fontes de inspiração nacional e local – “cor local”
  • Desenvolveu-se uma correspondência, uma comunhão entre a paisagem e os estados de alma dos escritores.

Gonçalves Dias

 

“ A partir dos Primeiros cantos, o que antes era tema –saudade, melancolia, natureza, índio – se tornou experiência, nova e fascinante, graças à superioridade da inspiração e dos recursos formais.” ( Antônio Candido)

“ A lírica de Gonçalves Dias singulariza-se no conjunto da poesia romântica brasileira como a mais literária, isto é, a que melhor exprimiu o caráter mediador entre os polos da expressão e da construção. O poeta de “I-Juca Pirama” é o clássico do nosso Romantismo: enquanto fonte de temas e formas da segunda e terceira geração” ( Bosi)

 

 

Gonçalves Dias – Bibliografia:

Primeiros Cantos – 1846

Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão ( 1848)

Últimos Cantos (1851)

Brasil e Oceânia (1852)

Dicionário da Língua Tupi ( 1858)

Os Timbiras (publicado após a sua morte -1864

“Embora os sucessores hajam destacado a “poesia nacional”, o Indianismo, nele encontraram muito mais: o modo de ver a natureza em profundidade, criando-a como significado, ao mesmo tempo que a registravam como realidade; sentido heroico da vida, superação permanente da frustração; tristeza digna, refinada pela arte; no terreno formal, a adequação dos metros à psicologia, a multiplicidade dos ritmos, a invenção da harmonia segundo as necessidades expressionais, o afinamento do verso branco” (Candido)

O Indianismo:

  • visão geral do índio, por meio de cenas ou feitos ligados à vida de um índio qualquer, cuja identidade é puramente convencional e apenas funciona como padrão;
  • visão do índio integrado na tribo, nos costumes; sentimento de honra;

O Indianismo:

 

“Valente na guerra

Quem há, como eu sou?

Quem vibra o tacape

Com mais valentia?

Quem golpes daria

Fatais como eu dou?

−Guerreiros, ouvi-me,

−Quem há como eu sou?

(O Canto do Guerreiro)

Quem guia nos ares

A frecha emprumada

ferindo uma presa,

Com tanta certeza

Na altura arrojada

Onde eu a mandar?

−Guerreiros, ouvi-me

−Ouvi meu cantar.”

 

Leito de Folhas Verdes

“Por que tardas, Jatir, que tanto a custo

À voz do meu amor moves teus passos?

Da noite a viração, movendo as folhas,

Já nos cimos do bosque rumoreja.

Eu sob a copa da mangueira altiva

Nosso leito gentil cobri zelosa

Com mimoso tapiz de folhas brandas,

Onde o frouxo luar brinca entre flores

(...)

“Meus olhos outros olhos nunca viram,

Não sentiram meus lábios outros lábios,

Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas

A arazóia na cinta me apertaram.

Do tamarindo a flor jaz entreaberta,

Já solta o bogari mais doce aroma

Também meu coração, como estas flores,

Melhor perfume ao pé da noite exala!

Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes

À voz do meu amor, que em vão te chama!

Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil

A brisa da manhã sacuda as folhas!”

 

Entrada in media res:

Deprecação

 

Tupã, ó Deus grande! cobriste o teu rosto

Com denso velâmen de penas gentis;

E jazem teus filhos clamando vingança

Dos bens que lhes deste da perda infeliz!

 

Tupã, ó Deus grande! teu rosto descobre:

Bastante sofremos com tua vingança!

Já lágrimas tristes choraram teus filhos

Teus filhos que choram tão grande mudança.

Anhangá impiedoso nos trouxe de longe

Os homens que o raio manejam cruentos,

Que vivem sem pátria, que vagam sem tino

Trás do ouro correndo, vorazes, sedentos.

 

E a terra em que pisam, e os campos e os rios

Que assaltam, são nossos; tu és nosso Deus:

Por que lhes concedes tão alta pujança,

Se os raios de morte, que vibram, são teus?

COMENTÁRIO: 

 O título do poema “deprecação” quer dizer “pedir perdão”. A composição retrata uma súplica do eu-lírico a Tupã, uma entidade superior, por misericórdia. Alega o eu-lírico que Tupã teria coberto os seus olhos e fingido não ver as crueldades impingidas aos índios por homens que “Anhanga”, o demônio, teria “trazido de longe”. Esses homens que invadem as terras indígenas – “E a terra em que pisam, e os campos e os rios/Que assaltam, são nossos” – manejam os “raios da morte”, ou seja, as armas de fogo. Observe o tom de súplica indignada do eu-lírico.

Tupã, ó Deus grande! cobriste o teu rosto

Com denso velâmen de penas gentis;

E jazem teus filhos clamando vingança

Dos bens que lhes deste da perda infeliz....”

 

 

Como observou Alfredo Bosi, em Dialética da Colonização:

“Nos Primeiros cantos do maranhense lateja a consciência do destino atroz que aguardava as tribos tupis quando se pôs em marcha a conquista europeia. O conflito das civilizações é trabalhado pelo poeta na sua dimensão de tragédia. Poemas fortes como O canto do piaga e Deprecação são agouros do massacre que dizimaria o selvagem mal descessem os brancos de suas caravelas.

 

(...)

O jovem Gonçalves Dias ainda estava próximo, no tempo e no espaço, do nativismo exaltado latino-americano. Talvez a familiaridade do maranhense com a luta entre brasileiros e marinheiros que marcou nas províncias do Norte os anos da Independência explique a aura violenta e aterrada que rodeia aqueles versos de primeira mocidade”

 (BOSI, A. Dialética da colonização. 3.ed. São Paulo: Companhia das letras, 1992. p. 184-184)

Ritmo

Observe as sílabas marcadas, leia em voz alta e perceba a simulação de um tambor ritmado.

 

Canção do tamoio

(Natalícia)

I

Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida,

É luta renhida:    

Viver é lutar.  

A vida é combate, Que os fracos abate,

Que os fortes, os bravos

Só pode exaltar.

Esse efeito sonoro é obtido graças à combinação de versos curtos, redondilhas menores, cuja tonicidade recai sobre a 2ª e a 5ª sílabas de forma constante. Note também que o poema é distribuído em oitavas, isto é, estrofes compostas de oito versos, em que predominam rimas emparelhadas. A explicação, entre parênteses, “Natalícia” dá a conhecer ao leitor as circunstâncias do canto vigoroso: o pai descreve ao pequeno nascituro as glórias de ser um indígena.

A valorização do índio se apresenta mediante um movimento de aproximação ao cavaleiro medieval – o “brasão” é o bem a ser conquistado pelo futuro guerreiro. Trata-se de uma influência clara do Romantismo europeu, que tomava o mito do “bom selvagem”, de Rousseau, como referência ética e estética.

 

“São rudes, severos, sedentos de glória,

Já prélios incitam, já cantam vitória,

Já meigos atendem à voz do cantor:

São todos Timbiras, guerreiros valentes!

Seu nome lá voa na boca das gentes,

Condão de prodígios, de glória e terror!”

“O prisioneiro, cuja morte anseiam, 

Sentado está,

O prisioneiro, que outro sol no ocaso 

Jamais verá!”

 

Ritmo

“Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo Tupi.”

“É bem feliz, se existe, em que não veja,

Que filho tem, qual chora: és livre; parte!

— Acaso tu supões que me acobardo,

Que receio morrer!

                                                      — És livre; parte!

— Ora não partirei; quero provar-te

Que um filho dos Tupis vive com honra,

E com honra maior, se acaso o vencem,

Da morte o passo glorioso afronta.” ( I-Juca Pirama)

“ Indianismo gonçalvino. (...) O seu indianismo seria, como os seus poemas de amor, autobiográfico. (...) o índio residia dentro dele; em seu sentimento, na sua imaginação poética. (...) Era uma força secreta, em  estado de legítima defesa. O seu  índio dos poemas líricos e épicos seria índio mesmo, e não índio de cartão-postal. Era o índio que havia nele...”

( Afrânio Coutinho)

 

O Romantismo foi um período estético que teve uma grande duração, em torno de meio século, e por essa razão é possível divisar três gerações de poetas, cujas obras desenvolvem temáticas e técnicas semelhantes.

A primeira delas nasceu com a intensidade do desejo de valorizar o Brasil, primando pela idealização da paisagem exuberante, bem como pela presença mítica do indígena. Recebeu o nome de Nacionalista e/ou Indianista.

O surgimento do Romantismo no Brasil é balizado pela publicação da obra Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães, em 1836. O autor foi também responsável pela fundação em Paris, no mesmo ano, da Niterói, revista brasiliense. Domingos José Gonçalves de Magalhães estudou na Europa, e, quando retornou ao Brasil, caiu nas graças do Imperador D.Pedro II, conquistando cargos políticos e diplomáticos.

“(...)

Terras da minha pátria, eu vos saúdo,

 Depois de longa ausência!

Eu te saúdo, oh sol da minha infância!

Inda brilhar te vejo nestes climas,

Da Providência esmero,

Onde se apraz a amiga liberdade

Tão grata aos corações americanos!

“Minha terra saudosa,

Terra de minha mãe, como és tão bela.

Se em ti não venho achar da Europa o fausto,

Pelo suor dos séculos regado,

Também não acharei suas misérias,

Maiores que o seu brilho,

Verdes montanhas que cercais meu berço,

Como sublimes sois, como sois grande.”

O valor da obra de Gonçalves Dias se consolida na perenidade dos temas e das imagens que permanecem inspirando a literatura brasileira. Nesta aula, você conheceu a poesia romântica da Primeira Geração, focalizada na obra de Gonçalves Dias.

 

A Canção do Exílio, um poema indianista?

 

 

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar - sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu'inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.”

 

Por que sublime?

 

“Apontam-se vários motivos: por causa da melodia; por ser uma canção mais do que um poema; por causa de certas palavras-chaves,como “sabiá”, que nela gorjeia quatro vezes; por causa do “a´” de sabiá, com o seu sabor de vogal indígena ao fim de cada estância, em agudo;da rima por aliteração de fonemas iniciais ( primores, palmeiras); por não possuir um  único adjetivo”

( Afrânio Coutinho)

 

 

No poema, observamos que o eu-lírico se lamenta pela saudade que sente de sua terra – “lá” –, o Brasil. Interessante notar que esse sentimento contrapõe os dois espaços: a terra natal (lá)  e a terra do exílio, Portugal (cá). Sabe-se que, à época, o poeta Antônio Gonçalves Dias estava em terras lusas, fazendo o curso superior, como muitos outros filhos de famílias abastadas. Assim, o exílio, a que se refere o eu-lírico, não é político; trata-se de um período de afastamento por opção. A saudade, no entanto, faz com que traga à lembrança, de forma emocionada e subjetiva, elementos que representam a sua terra: o sabiá, as palmeiras, as aves e as flores. Elementos que sempre são apresentados em situação de superioridade em relação à terra portuguesa.

O poema tem inspirado os nossos artistas até os dias de hoje, seja como crítica, paródia ou imitação. Também a nossa música faz menção ao poema Canção do Exílio; como Sabiá de Chico Buarque e Tom Jobim, quer ouvir?

Clique e assista à belíssima canção vencedora do III Festival Internacional, realizado em 1968.

http://www.youtube.com/watch?v=U9epAdaRXCk