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A Praça de Clarice Lispector
A Praça de Clarice Lispector

A Praça de Clarice Lispector

 

       Certa vez andava eu pelo centro do Recife, quando parei na Praça Maciel Pinheiro. Linda! Mas completamente degradada. Pessoas renegadas pela sociedade (des) humana faziam morada, envoltos em molambos coloridos, no lugar das flores hoje mortas. Senti que meu peito chorava num soluço doído pela inércia do poder público, que se faz de cego à grandiosa história daquele espaço. Meus olhos marejados encontraram os de Clarice Lispector, frios e opacos, como a não acreditar nas cenas que presencia ao longo do tempo.

 

       Ali, desgastado e quase invisível aos olhos das pessoas, desbotado pelo abandono, o antes majestoso sobrado onde ela viveu sua infância. Resquícios da grandeza da palavra que o vento espalhou ao mundo da literatura e fez dela a imortal escritora que é. Tenho aguçada curiosidade de conhecer de perto a sua vida. Tocar as paredes daquela casa e falar do quanto eu a entendo. Quanta história devem guardar aquelas paredes. Quantas palavras não sussurrarão nas madrugadas insones da saudade? Ah, como eu gostaria de ouvir risos, palavras, sentir a energia ali deixada... E como diria ela: - “Sentir que se está em graça é que é o dom”. Sentir-me-ia em graça, certamente!

 

             

 

 

      Foi estudar no tradicional Ginásio Pernambucano. Já escrevia e tinha suas histórias recusadas pelo Diário de Pernambuco, que àquela época dedicava uma página às composições infantis. As histórias de Clarice não tinham enredo e fatos? Assim diziam. Foi morar no Rio de Janeiro, onde morreu, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes do seu 57° aniversário, vitimada por uma súbita obstrução intestinal, de origem desconhecida que, depois se soube ter sido motivada por um adenocarcinoma de ovário irreversível. Paro um pouco e me enredo na emoção que me acompanha pensando no maravilhoso museu que deveria ser fundado naquele sobrado para que Recife não deixasse perecer no tempo a grandeza da vida dessa mulher. Devaneios meus. Quem dera... Quem dera... A memória da terra onde viveu a infância a conservasse viva.

 

       Esse meu jeito de achar que pelo meu pensamento posso mudar o mundo e pessoas... Ó Deus! Quem sou eu... Como gostaria que fosse diferente... Muitos dos que ali passam, seguem indiferentes, aos humanos jogados em trapos e se não olham gente, imagine se veem a estátua que sentada assiste a tudo, como se escrevesse mais uma história. Quando a leio vejo-me em muitas letras, porque ela escreveu as nossas verdades, aquelas que entranhadas na alma explodem nos poros e nos encharcam de emoção. Falou de baratas com a mesma grandiosidade que falou de vida. Mulher corajosa! Mulher que Recife acarinhou no peito desde 1928. - “Eu saí do Recife, mas Recife não saiu de mim”- disse Clarice certa vez. Tenho dúvidas se o seu perfume agreste não está ainda pelo ar daquela praça, onde assiste a fonte a cantar de dor em águas soluçantes.

 

                                                                                        Lígia Beltrão