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A Poética de Luís de Camões - Parte II
A Poética de Luís de Camões - Parte II

A poética de Luís de Camões – Parte II

Deste modo, a epopeia ganhou destaque na literatura classicista e, em Portugal, especialmente, a matéria épica ia ao encontro da urgência de cantar - e assim lançar à posteridade - as grandes conquistas vividas pelo país na era moderna.

 

Camões criou uma épica para esses tempos modernos, reelaborando vários aspectos das orientações da poética clássica sobre o discurso épico, como veremos.

A visão do homem em Os Lusíadas

 

Um dos principais vetores ideológicos para as mudanças implantadas por Camões no discurso épico foi o Fusionismo, que trazia à tona a dialética entre o imaginário cristão e a visão de mundo humanista.

O Fusionismo pode ser percebido em

Os Lusíadas a partir de aspectos tensionais, principalmente a tensão entre a obediência ao “princípio de modéstia” da convenção clássica e a autocelebração e o conflito entre o divino e o humano.

O princípio de modéstia é uma convenção da poética clássica e diz respeito ao silenciamento do autor sobre as suas qualidades, devendo este mostrar-se humilde e aquém do texto que apresentará. Assim, valoriza a matéria de seu poema, mostrando a sua incapacidade de expressar a grandiosidade do assunto.

O princípio de modéstia está atrelado à convenção da “causa externa”, na qual o poeta não atribui a si o exercício criativo, mas a uma causa exterior a ele, geralmente às musas.

O conflito entre o divino e o humano expressa-se de modo variado na narrativa, como na figuração dos deuses com sentimentos humanos, como a inveja e a paixão.

Outra representação desse conflito ocorre na figuração dos humanos como seres capazes de concretizar tarefas para além de sua capacidade e dotados de poder. Por outro lado, há um paradoxo entre esse poder humano e a sua condição inferior, como u.m “bicho homem”, pequeno e limitado diante do sofrimento e das guerras.

A tensão entre a celebração dos êxitos da expansão marítima, em suas aventuras e glórias, e a recusa da inversão de valores medievais, como a honra e a prudência, trazidas pelo contexto dos descobrimentos é outra face do conflito entre o divino e o humano.

Em relação aos processos de expansão ultramarina portuguesa, o paradoxo de uma celebração que traz, ao mesmo tempo, o questionamento de suas consequências e da própria noção de glória é representado, principalmente, em uma personagem: o velho do restelo.

Essa personagem é um homem velho que permanece às margens do rio Tejo, questionando os impactos e desdobramentos das viagens ultramarinas.

Condena a viagem de Vasco da Gama que trará desgraças, além de deixar Portugal vulnerável ao inimigo espanhol.

"Mas um velho d'aspeito venerando,

 

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

C'um saber só de experiências feito,Que nós no mar ouvimos claramente,

Tais palavras tirou do experto peito:”

 

(Canto IV, estrofes 94 a 104)

As palavras tiradas do “experto peito” são, na verdade, uma imprecação contra a febre das conquistas marítimas. Interessante notar o fato de seu saber ser somente “de experiências feito”, um saber empírico, mas ainda assim valorizado.

A inserção da personagem de “O velho do restelo” na narrativa é uma inovação importante trazida por Camões à épica, pois apresenta uma visão relativa do acontecimento histórico celebrado na epopeia.

A personagem questiona o conceito de glória trazido pelo descobrimento e mostra como todo aquele processo desorganiza os valores medievais de honra e trabalho, em nome da cobiça e da vaidade: “Ó glória de mandar, ó vã cobiça” (Canto IV, estrofe 95).

O aspecto paradoxal avança ainda no canto IV, no momento em que a personagem amaldiçoa o inventor da primeira embarcação e roga que os nautas sejam esquecidos e silenciados pelos poetas:

- "Ó maldito, o primeiro que no mundo

Nas ondas velas pôs em seco lenho,

Dino da eterna pena do profundo,

Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!

Nunca juízo algum alto e profundo,

Nem cítara sonora, ou vivo engenho,

Te dê por isso fama nem memória,

Mas contigo se acabe o nome e glória.

(Canto IV, estrofe 102)

O paradoxo óbvio de condenar o canto e a memória das expedições em uma obra que, justamente, comemora os feitos dos argonautas lusos é somente uma das contradições da narrativa. Tal contradição, entretanto, deve ser vista como uma inovação extremamente rica, pois põe em xeque a própria matéria épica, em consonância com a crise de valores do mundo em que o poeta vivia.

Temporalidade e narrativa

 

Na obra, o tempo da narração difere do tempo da narrativa e é possível estabelecer uma analogia entre o pensamento fusionista e a representação temporal na narrativa, pois assim como existe a tensão entre os valores medievais e humanistas no pensamento, há uma temporalidade vária que congrega o passado e o tempo coevo a Camões, a Época Moderna.

O passado é figurado pela narração da história de Portugal; o presente, pela expedição de Vasco da Gama à Índia. 

Destarte, podemos considerar a presença de outra esfera temporal: o futuro, presente nas profecias.

É importante lembrar que a profecia é um aspecto importante da épica, previsto pela convenção clássica, e alude à sua faceta maravilhosa – no sentido de sobrenatural.

Destarte, as profecias ligam-se à ideia de um destino português marcado pela fé. Mas, contraditoriamente, as intervenções do narrador opõem-se às profecias e revelam a mente renascentista, preocupada com as mudanças ocorridas no mundo que, no entender do poeta, sempre levam ao pior e catalisam o “desconcerto do mundo”, do mesmo modo como revelam os seus sonetos. Essas duas visões paradoxais revelam a contradição do fusionismo.

Outro ponto importante sobre as profecias na obra é o fato de referirem-se a acontecimentos que já haviam ocorrido, no momento da escrita da narrativa.  Leia uma das profecias da obra, na qual Dom Manuel, em uma visão, vê o rio Ganges revelando que a conquista das Índias se dará de modo violento:

- "Eu sou o ilustre Ganges, que na

terra Celeste tenho o berço verdadeiro;

Estoutro é o Indo Rei que, nesta serra

Que vês, seu nascimento tem primeiro.

Custar-te-emos contudo dura guerra;

Mas insistindo tu, por derradeiro,

Com não vistas vitórias, sem receio,

A quantas gentes vês, porás o freio."-

(Canto IV, estrofe 74)

http://pt.wikipedia.org/wiki/In_medias_res

Assim, a narrativa quebra a ordem linear – início, meio e fim. Inicia-se a narração no meio da história, já com Vasco da Gama em alto-mar.

Depois, volta-se para a narração dos episódios mais relevantes da história portuguesa para depois retornar à viagem de Vasco da Gama.

A narrativa é então retomada e apresenta, por vezes, digressões sobre o passado ou sobre o futuro.

OS LUSÍADAS

  • A estrutura de Os Lusíadas
  • Segue os preceitos formais clássicos
  • Composta por dez cantos, com estrofes de oito versos, cuja métrica é decassílaba. 
  • O esquema de rimas vem a ser: ABABABC.
  • Cinco partes

 

Camões respeitou a tradição épica, seguindo os modelos de Homero e Virgílio, e inseriu as cinco partes em sua obra.

Na proposição, expõe o tema principal, a viagem de Vasco da Gama até as Índias. Depois, invoca as Tágides, as ninfas do rio Tejo e dedica o poema a Dom Sebastião, iniciando, posteriormente, a narrativa em si.

A questão do herói em Os Lusíadas

 

Na poesia épica clássica, o herói representa a grandeza de seu povo. É uma personagem com características excepcionais, de caráter e moral elevados.

 

O herói épico aceita o seu destino e sacrifica os seus desejos em prol do coletivo, mas não há, na antiguidade clássica, a consciência do indivíduo.

Segundo o crítico literário António Saraiva (1999), não se destaca na narrativa um herói específico, pois o próprio povo português vem a ser o protagonista.

Portanto, embora destaque-se na obra a personagem Vasco da Gama e sejam exaltados o seu heroísmo, a sua liderança e a sua coragem, na  verdade pode-se afirmar que a figura do herói está além desse navegante português, assumindo uma dimensão coletiva.

Na obra, esta dimensão é celebrada logo no Canto I, quando o narrador refere-se às "armas e os barões assinalados":

As armas e os barões assinalados,

Que da ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca de antes navegados,

Passaram ainda além da Taprobana,

Em perigos e guerras esforçados,

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram

 

Na estrofe, o termo “barões” não se refere a nobres, mas a varões, ou seja, aos homens corajosos que levariam Portugal a um império tão grandioso quanto os maiores da antiguidade.

Celebra, portanto, o coletivo, o universo luso cujos filhos são capazes de ousar passar pelos “mares nunca de antes navegados” e de passar para “além da Taprobana”, a região do atual Sri-Lanka.

 

A presença da mitologia na narrativa 

 

A mescla entre a mitologia e os acontecimentos históricos é uma marca da matéria épica.

 

Em Os Lusíadas, o fantástico da mitologia articula-se ao aspecto referencial do discurso histórico.

 

A obediência à convenção clássica, soma-se o fato, percebido pela crítica literária Cleonice Berardinelli, em Estudos Camonianos, de a mitologia funcionar "como elemento estruturador e decorativo indispensável da mentalidade da época".

Para António Saraiva, em Introdução à Literatura Portuguesa, a mitologia em Os Lusíadas tem um papel fundamental: o de organizar a unidade de conjunto na narrativa. Para Saraiva, sem a fábula mitológica, a obra seria apenas uma coletânea de episódios desconexos entre si.  

 

A mescla entre os elementos mitológicos e a matéria histórica pode ser observada nas ações paralelas dos deuses e dos nautas e no emprego do recurso homérico do deus ex-machina.

 

Deus ex-machina é um recurso narrativo que diz respeito à resolução de uma situação pela interferência dos deuses na situação.

Em Os Lusíadas, o elemento catalisador da narrativa é um concílio dos deuses que deve decidir o destino de Portugal.

 

Baco e Netuno resolvem criar empecilhos para  a viagem. Baco, por temer a difusão da fé cristã e a supremacia de Portugal perante os antigos romanos. Netuno, por temer perder o controle dos mares.

Porém, é decidido que Portugal receberá o seu fado: ser um grande império.

Os navegantes recebem a proteção de Vênus e Marte e, após a chegada heroica às Índias, são recompensados com a ida à Ilha dos Amores.

Repare que a proteção venusiana e marciana pode ser tomada como alegorias da natureza amorosa e guerreira do povo português.

Cabe lembrar que o título do poema refere-se a uma lenda sobre Portugal e Luso, deus filho de Baco. Com base em uma antiga lenda, Camões recupera o discurso de que os portugueses seriam descendentes de Luso.

Os planos de Construção

 

No poema, podem ser percebidos três planos de construção:

No plano mítico, temos o concílio dos deuses como fio condutor, como dissemos, a presença alegórica do gigante Adamastor, a Ilha dos Amores e as profecias.

No plano literário, destacamos os excursos do narrador.

O excurso trata-se da inserção dos pensamentos, críticas e questionamentos do narrador no texto.

No plano histórico, temos as referências aos principais eventos da história de Portugal, através de um elenco de batalhas, de reis e de grandes navegadores, dentre esses, destacando-se Vasco da Gama.

A experiência pessoal de Camões permitiu relatos muito precisos em sua obra sobre a vida na guerra e nas embarcações, referindo-se com propriedade no poema às minúcias da vida a bordo, como os surtos de escorbuto.

Cabe ressaltar a condição de Camões como um poeta que fora soldado e já havia participado de longas viagens marítimas, enfrentando, inclusive um naufrágio, no qual perdeu sua amada, a chinesa Dinamene. Segundo histórias da época, o poeta teria preferido salvar os manuscritos de Os Lusíadas no lugar de Dinamene.

Por uma questão didática, iremos elencar as principais matérias de cada plano, separadamente.

O narrador em Os Lusíadas

 

O narrador épico clássico pauta-se pelo seu afastamento. Com o foco narrativo em terceira pessoa, narra a história de um modo impessoal e impassível, reforçado pela simetria dos versos.

Uma das inovações da obra consiste, justamente, na presença de um narrador que rompe a impessoalidade. Mostra-se presente, muitas vezes, em excursos questionadores, inclusive, da própria matéria épica e da condição do poeta cujo valor é subestimado.

Prefere a pena à espada e critica os portugueses que desprezam a poesia, bem como os que cobiçam a fama, mas não a merecem:

Enfim, não houve forte capitão,

Que não fosse também douto e ciente,

Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,

Senão da Portuguesa tão somente.

Sem vergonha o não digo, que a razão

De algum não ser por versos excelente,

É não se ver prezado o verso e rima,

Porque, quem não sabe arte, não na estima.

(Canto V, estrofe 97)

O narrador chama a atenção ao seu valor e à sua genialidade em suas intervenções, promovendo a sua imagem e mostrando a sua coragem e a sua valentia ao lutar pelo reino português.

 

Outra inovação em relação à voz narrativa dá-se na cessão da voz narrativa a personagens que assumem a narração de batalhas, profecias e episódios: alternam-se no texto como as de Vasco da Gama, Velho do Restelo e do mitológico gigante Adamastor.

Alguns episódios que se destacam em Os Lusíadas

 

Sobre Inês de Castro, no canto IIII, nas estrofes 118 a135. Trata-se do amor, tido como imenso e verdadeiro, entre D. Pedro e a dama Inês de Castro, assassinada a mando do rei Afonso IV, que temia a influência da amante sobre o príncipe. A história de Inês de Castro havia sido contada por vários poetas e historiadores, mas, na obra, Camões inova ao considerar o amor o único culpado pela morte de D. Inês.

Sobre o gigante Adamastor, no canto V, estrofes 41 a 48.   Personagem da mitologia grega, Adamastor, na obra personifica o Cabo das Tormentas e tenta impedir a passagem dos navegantes portugueses liderados por Vasco da Gama.

Sobre a Ilha dos Amores, nos cantos IX e X. Apresenta o prêmio criado por Vênus aos nautas lusos. É, obviamente, uma passagem fictícia e alude ao banquete oferecido por Tethys e aos jogos de sedução entre ninfas e portugueses que inserem no texto épico um contexto de sensualidade e de erotismo.

A máquina do mundo

 

Um ponto fundamental da narrativa está no capítulo X, quando Vasco da Gama, pela ligação com a deusa Thétys é aceito no Olimpo e vê a máquina do mundo, uma miniatura do universo, nos moldes da proposta de Ptolomeu.

 

A máquina aparece como um signo da capacidade de realização do povo português e vê-la é um prêmio para um de seus grandes realizadores, Vasco da Gama que pode, então, contemplar o universo. Aqui, anuncia-se uma perspectiva fortemente humanista, no que toca ao domínio e ao poder do homem e de sua ciência, mas a partir da mescla com os elementos mitológicos, em uma perspectiva alinhada aos outros aspectos fusionistas presentes no texto.