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A Poesia Lírica de Camões
A Poesia Lírica de Camões

A maior parte da obra lírica de Camões compõe-se de sonetos e redondilhas.  O soneto é composto de versos decassílabos (dez sílabas poéticas), distribuídos em dois quartetos e dois tercetos. Foi chamado de “medida nova” por oposição à “medida velha”, que eram as tradicionais redondilhas (estrofes com versos de cinco ou sete sílabas).

Nos textos apresentados a seguir, veremos alguns dos principais temas da lírica de Camões.

Os efeitos contraditórios do amor

Como podemos resistir aos efeitos do amor?  Quando ele nos invade, ficamos perturbados, temos sensações contraditórias, não conseguimos raciocinar direito.

Camões refletiu sobre isso e perguntou-se: o que é o amor?

 

                        “Amor é fogo que arde sem se ver;

                        É ferida que dói e não se sente;

                        É um contentamento descontente;

                        É dor que desatina sem doer;

 

                        É um não querer mais que bem querer;

                        É solitário andar por entre a gente;

                        É nunca contentar-se de contente;

                        É cuidar que se ganha em se perder;

 

                        É querer estar preso por vontade;

                        É servir a quem vence, o vencedor;

                        É ter com quem nos mata lealdade.

 

                        Mas como causar pode seu favor

                        Nos corações humanos amizade,

                        Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

 

A saudade do ser amado

Uma das amadas de Camões foi uma jovem chinesa chamada Dinamene.  Ela morreu afogada quando naufragou o barco que viajava com o poeta.  Diz a lenda que, nesse naufrágio, Camões conseguiu pelo menos salvar o manuscrito de Os lusíadas, segurando-o com uma das mãos e nadando com a outra.

Camões escreveu vários sonetos lamentando a morte de Dinamene.  Esse é um dos mais famosos:

 

                        “Alma minha gentil, que te partiste

                        Tão cedo desta vida, descontente,

                        Repousa lá no Céu eternamente

                        E viva eu cá na terra sempre triste.

 

                        Se lá no assento etéreo, onde subiste,

                        Memória desta vida se consente,

                        Não te esqueças daquele amor ardente

                        Que já nos olhos meus tão puro viste.

 

                        E se vires que pode merecer-te

                        Alguma cousa a dor que me ficou

                        Da mágoa, sem remédio de perder-te.

 

                        Roga a Deus, que teus anos encurtou,

                        Que tão cedo de cá me leve a ver-te,

                        Quão cedo de meus olhos te levou.”

 

Os lusíadas

As conquistas ultramarinas, as viagens por mares desconhecidos, a descoberta de novas terras, o encontro com povos de costumes diferentes – toda essa nova dimensão da vida portuguesa pedia uma expressão poética à altura, e quem a realizou foi Camões, em seu poema Os lusíadas.

Tomando com o assunto central um fato que era recente na história portuguesa – a viagem de Vasco da Gama às Índias (1497-1498) - , Camões faz do navegador uma espécie de símbolo da coletividade lusitana e exalta a glória das conquistas, os novos reinos formados e o ideal de expansão da fé católica pelo mundo.

 

                        “As armas e os Barões assinalados

                        Que, da Ocidental praia Lusitana,

                        Por mares nunca de antes navegados

                        Passaram ainda além da Taprobana,

                        Em perigos e guerras esforçados,

                        Mais do que prometia a força humana,

                        E entre gente remota edificaram

                        Novo Reino, que tanto sublimaram,

 

                        E também as memórias gloriosas

                        Daqueles Reis que foram dilatando

                        A Fé, o Império, e as terras viciosas

                        De África e de Ásia andaram devastando,

                        E aqueles que por obras valerosas

                        Se vão da lei da Morte libertando.

                        Cantando espalharei por toda parte,

                        Se a tanto me ajudar o engenho e a arte.”

 

Além disso, os feitos dos navegadores portugueses permitiam a comparação com as façanhas dos lendários heróis dos poemas de Homero (Odisseia e Ilíada) e de Vergílio (Eneida).  Camões tinha assim a oportunidade de usar os modelos clássicos para cantar os feitos de seu tempo, que levaram uma vantagem sobre os antigos:  eram reais, não fictícios.  Por isso, o eu lírico pôde orgulhosamente ordenar, logo no começo, que se calasse a Musa antiga, que não falasse mais dos heróis antigos, pois tinha surgido um herói ainda maior: o ilustre povo lusitano.

 

                        “Cessem do sábio Grego e do Troiano

                        As navegações grandes que fizeram;

                        Cale-se de Alexandro e de Trajano

                        A face das vitórias que tiveram;

                        Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

                        A quem Netuno e Marte obedeceram.

                        Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

                        Que outro valor mais alto se alevanta.”

 

O entusiasmo patriótico com que Camões é iniciado o poema, porém, não se mantém até o final.  O fato de que o reino glorioso de Portugal já estava se perdendo na ambição desmedida de conquistas e riquezas, é a causa da nota de desânimo com que é encerrado o poema e que contrasta com o entusiasmo do início:

 

                        “Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho

                        Destemperada e a voz enrouquecida,

                        E não do canto, mas de ver que venho

                        Cantar a gente surda e endurecida.

                        O favor com que mais se acende o engenho

                        Não no dá a pátria, não, que está metida

                        No gosto da cobiça e na rudeza

                        Duma austera, apagada e vil tristeza.”

 

Estrutura e resumo dos cantos Os lusíadas

O poema é composto de dez cantos; cada canto é formado por estrofes de oito versos, que tem o seguinte esquema de rimas: abababcc. Todos os versos são decassílabos, isto é, possuem dez sílabas poéticas.

Seguindo o modelo clássico, o poema apresenta cinco partes:

  • Proposição – em que é anunciado o assunto a ser desenvolvido.
  • Invocação – em que é feito um apelo às musas (no caso, as ninfas do Tejo, as Tágides) para que o inspirem.
  • 3ª Dedicatória – o oferecimento do poema a D. Sebastião.
  • 4ª Narração – onde são narradas as ações; constitui a maior parte do poema.
  • 5ª Epílogo – o fecho da ação.

 

Canto 1 – Indicações do assunto que vai ser abordado (os feitos heroicos dos portugueses e a glorificação da nação).  O eu lírico invoca as musas do Tejo, dedica o poema a D. Sebastião, exortando-o a tornar-se o terror dos mouros da África.  Começa a narrativa descrevendo o concílio dos deuses, expondo o discurso de Júpiter, a oposição de Baco e a defesa que Vênus faz dos navegadores, com o apoio de Marte.  Narra, em seguida a entrada da frota no Oceano Índico, a ancoragem perto de Moçambique, a partida para Quíloa e a chegada a Mombaça, onde Baco continua tramando contra a frota.                 

Canto 2 – Narração da emboscada dos mouros e a intervenção de Vênus.  A deusa pede a Júpiter que proteja os portugueses.  Vasco da Gama vê em sonhos Mercúrio, que o aconselha a deixar Mombaça e partir para Melinde.  Em Melinde, o rei hospeda gentilmente os portugueses, pedindo ao capitão que conte a história de Portugal, especialmente os feitos marítimos.

Canto 3 – Vasco da Gama fala da história de Portugal, contado os principais fatos dos governos de D. Henrique, D. Afonso Henriques, D. Sancho I, D. Sancho II, D. Afonso III, D. Dinis e D. Afonso IV.  Narra o  episódio da morte de Inês de Castro.

Canto 4 – Vasco da Gama relata os tumultos havidos em Portugal por ocasião do falecimento de D. Fernando.  Destaca a figura de D. João I, mestre de Avis.  Descreve o assassinato do conde de Andeiro e a intervenção dos reis de Castela.  D. João I aconselha-se com os fidalgos, realçando-se a lealdade e o patriotismo de D. Nuno Álvares.  Descreve a batalha de Aljubarrota e como D. Nuno foi pelejar no Alentejo e na Andaluzia.  Conta depois como foi feita a paz e a expedição a Ceuta, na África.  Descreve ainda a figura do velho que, na praia do Restelo, dirigiu imprecações contra a sede de aventura e conquista dos portugueses.

Canto 5 – Vasco da Gama narra a partida de sua armada a 8 de julho de 1497.  Descreve o avistamento do Cruzeiro do Sul, o fogo-de-santelmo e uma tromba marítima. Narra o episódio do gigante Adamastor, personificação do Cabo das Tormentas.  Depois de uma breve estada na Aguada de São Brás, continuam a viagem. Os tripulantes da armada são acometidos pelo escorbuto.  Atingem Moçambique, Mombaça e Melinde.

Canto 6 – Descrição das festas dadas pelo rei de Melinde aos portugueses.  Continuação da viagem para a Índia.  Baco procura destruir a frota.  Narração do episódio dos Doze de Inglaterra e da tormenta que se abate sobre os navegantes.  Vasco da Gama suplica ajuda e Vênus desce em socorro dos lusitanos.  A frota aproxima-se de Calucute.

Canto 7 – O poeta narra a chegada a Calicute e a recepção do rei, que envia um emissário à nau capitânia para obter informações dos portugueses.

Canto 8 – Paulo da Gama é vítima de uma traição, mas consegue livrar-se do perigo.

Canto 9 – Escapando dos perigos, a armada parte e chega à Ilha dos Amores, local de prazer e descanso que Vênus, auxiliada por Cupido, preparara para os lusitanos, como recompensa de seus padecimentos e trabalhos.  Os marinheiros encontram as ninfas.  Tétis recebe Vasco da Gama.

Canto 10 – Banquete oferecido aos navegantes.  A ninfa Tétis conduz Vasco da Gama a um monte, de onde lhe mostra um globo transparente que representa a máquina do mundo.  Partida da Ilha dos Amores.  Depois de descrever a chegada dos portugueses, Camões queixa-se da decadência em que via sua pátria afundar-se e da indiferença pelas letras.  Termina exortando o rei D. Sebastião à prática de ações sublimes e benignas.