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A Infância está Morrendo
A Infância está Morrendo

A INFÂNCIA ESTÁ MORRENDO

 

“Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida...”  Ao recordá-la, não estou sendo saudosista no sentido de pessoa não adaptada ao presente, repetindo sempre o mesmo mantra:  “No meu tempo...” Não.  A concepção usada é a de quem viveu mais e, por gozar de sensibilidade e razoável inteligência, se permite comparar épocas, valores e escolher a melhor.  Nesse sentido, já houve uma infância melhor que a dos dias atuais, pois as crianças não eram tão consumidoras nem tratadas como pseudoadultas, bastava serem crianças.

 

Na verdade, o ciclo de vida aumentou, portanto seria natural que as fases também se ampliassem .  Contudo, há um evidente descompasso: diminui-se a infância, prolonga-se a adolescência e transforma-se a velhice numa eterna juventude, isto é, velhos com espírito jovem.  Afinal o que é ser criança, adolescente ou velho com espírito jovem?

 

Quem sabe, ser jovem é estar conectado incondicionalmente à sociedade de consumo e alimentar desejos desnecessários e supérfluos adquirindo objetos de última geração imediatamente descartados sem, contudo, saber descrevê-los.  Quem sabe ser jovem significa saber lidar com todos os recursos eletrônicos, dedicando-se a eles quase em horário integral em detrimento de outras atividades.  É tal a dedicação a eles que a anatomia das crianças mudou: no lugar dos pés, dois gigantescos tênis; no lugar das costas, pesadas mochilas; no lugar das mãos, dois controles remotos; no lugar das orelhas, dois fones de ouvidos, e, no lugar do cérebro, um boné virado.

 

Com a nossa cumplicidade e sob a forte influência da propaganda, estamos privilegiando a perspectiva tecnológica em detrimento da natureza humana.  Nesta sociedade, quem é inteligente pé o elevador, quem ama é o robô, quem sente ternura é o ET, quem apresenta uma sociedade mais justa e fraterna é o filme Avatar; logo, os objetos e extraterrestres estão ficando humanos e os homens estão perdendo a humanidade.  As crianças e adolescentes estão se transformando numa geração cabisbaixa, com o olhar fixo nas telas, sofrendo, sem queixa, uma verdadeira colonização tecnológica.

 

Para corroborar esse quadro, a educação está em franco declínio e as famílias têm dificuldade de definir limites e valores.  Nesse contexto, pais, avós, professores, autoridades, cidadãos em geral, assistimos à morte da infância sem, contudo, agir concretamente para que isto não aconteça.  Corremos um sério perigo, pois o adulto de amanhã está no Baú da Infância e, se não a protegermos, como será o amanhã?  Fica o desejo de que a infância de hoje, ao envelhecer, possa dizer também: “Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais!”.

 

Fonte:  ZeroHora/Nayr Tesser (Professora) em 09/10/2016