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A Ética do Leitor
A Ética do Leitor

A ÉTICA DO LEITOR

 

Os dilemas que a publicação tardia da continuação de “O Sol é Para Todos” lança para os admiradores da obra de Harper Lee.

 

Até o mês de agosto, a escritora americana Harper Lee era, para usar uma expressão que em música costuma ser depreciativa, “autora de um sucesso só”.  Mas que sucesso.  Seu único romance, O Sol é Para Todos,  publicado em 1961, instalou-se no imaginário dos Estados Unidos (e, por extensão, de boa parte do mundo ocidental) como uma espécie de farol sinalizando para o que há de melhor no ser humano em tempos adversos.  Narrado pelo ponto de vista da espevitada menina Scout, a trama principal de O Sol é Para Todos mostra o digno advogado branco Atticus Finch, na cidadezinha de Maycomb, Alabama, indo contra as pressões da cidade e fazendo o melhor que pode para defender um negro falsamente acusado de  estuprar uma mulher branca.

Visto pelos olhos da filha como um herói, Atticus se tornou uma imagem ideal.  Não foram poucas as crianças que foram batizadas com seu nome ou os leitores que se dedicaram a estudar Direito inspirados por seu exemplo.  Atticus é o personagem que inspirou alguns leitores a se identificar com o que há de melhor no ser humano.  Até a recente publicação, nos Estados Unidos, de uma continuação do livro mantida inédita pela própria Harper Lee ao longo dos últimos 50 anos.  Go Set a Watchman, o romance que ficou guardado pela escritora por meio século, coloca ao leitor dois dilemas imprevistos que dizem respeito a aceitar as escolhas de um autor de sua afeição.

O primeiro deles é compreender as mudanças drásticas que Lee imaginou para  o caráter de Atticus, de farol moral em O Sol é Para Todos para um velho assustado, rancoroso e racista em Go Set a Watchman, ambientado 20 anos depois, quando Scout, agora adulta, volta para uma visita a sua cidade natal.  A segunda, mais grave, diz respeito à própria relação ética de um leitor com a literatura:  ler ou não ler um livro que pode ter vindo à luz contra a vontade de sua autora, hoje uma mulher idosa de 89 anos que, após um AVC, é incapaz de falar e de se movimentar?

Talvez diga algo sobre nosso tempo o fato de que a maioria das resenhas até agora publicadas no estrangeiro pareça mais incomodada ou perplexa com o primeiro dilema, preferindo ignorar o segundo.  A maioria das resenhas saudou a chegada do romance como o grande acontecimento literário do ano, embora ele já estivesse há muitos anos guardado entre os papéis da autora.  Go Set a Watchman, um título retirado da Bíblia, em Isaías 21:6 (traduzido, na maioria das versões em português, por “Vai, coloca uma sentinela”), provavelmente é a lendária primeira versão de O Sol é Para Todos, na qual a história do julgamento era um flashback da narrativa maior, contrapondo o Atticus heroico do passado com o homem amargo que Scout encontra no retorno para casa.  Lee, por vontade própria ou por sugestão de seu editor, de acordo com a versão, pegou os trechos em flashback e os retrabalhou durante dois anos até burilar O Sol é Para Todos.

A mudança de Atticus em Go Set a Watchman, embora chocante em um primeiro momento, engrandece o trabalho da autora, estabelecendo um novo horizonte mental para seu universo fictício: Atticus, o “branco generoso” e algo paternalista dedicado a levar justiça aos negros talvez não esperasse, como muitos de sua geração, que a mudança social fosse tão profunda – e se sente ameaçado por uma realidade em que negros e brancos “não estão mais em seu lugar”.

O problema mais grave é outro: ler ou não um livro que Lee teve meio século para publicar e não o fez?  Um livro que a irmã Alice, guardiã de seu trabalho, também nunca fez questão de editar enquanto viveu, até novembro de 2014, e que só agora, encampado pela advogada Tonia Carter, que trabalhava no escritório de advocacia de Alice, veio a público como sensação comercial?  Embora Carter diga que Lee mudou de ideia, o tilintar da registradora autoriza a desconfiança:  o romance vender mais de 1,1 milhão de cópias em uma semana.  O sol pode ser para todos, mas a decisão é de cada um.

          

LIVRO GO SET A WATCHMAN de Harper Lee.  Publicado pela HarperCollins, tem edição nacional prevista para outubro pelo selo José Olympio do Grupo Record, com o título provável de “Vá, Coloque um Vigia”.

Gregory Peck como o icônico Attucus Finch na versão cinematográfica de “O Sol é Para Todos” dirigida por Robert Mulligan em 1962.

 

Fonte:  ZH/por Carlos André Moreira (carlos.moreira@zerohora.com.br) em    02/8/2015